Como se não tivesse tomado meu comprimido diário para represar a pressão arterial, a leitura de Ao menos um descanso produziu em mim uma inquietação e um prazer, compondo-se um quase paradoxo. A razão: a autora sustentar do início ao fim dos 17 contos a complexidade das trajetórias aparentemente triviais das personagens que, num jogo sutil de evidenciar-esconder na construção do texto, parecem querer se desvencilhar da inexorabilidade do destino. Desse “lugar” singrei a leitura de Ao menos um descanso, de cujos contos rápidos pude depreender que estava diante de uma escritura fora da curva.
Andrea é porto-alegrense, este é seu primeiro livro, foi aluna em oficina literária de Alcy Cheuiche. Filha de pais uruguaios, a intersecção linguística lhe possibilita recursos de linguagem suficientes, especialmente para produzir uma edição bilíngue, oportunizando-nos a experiência de cotejar expressões e modos de construção em espanhol e português. Algo não tão comum – produzirmos edições transfronteiriças –, ainda que estejamos colados à América espanhola e dela bebamos de muitas fontes.
Essa leitura polifônica, ao cabo, nos oferece uma ampliação das possibilidades de sentido. E acabei fazendo um circuito duplo de leitura: primeiro em português, depois em espanhol. Ainda que se trate de uma tradução – e seus inextrincáveis dilemas -, cada uma das leituras me trouxe referências próprias. Como anota na primeira orelha do livro Alcy Cheuiche: “[…] o mais importante de tudo é registrar aqui, com absoluta primazia, o nascimento de uma contista bilíngue que honra seus dois países, o Brasil e o Uruguai. Uma escritora nata, que desperta neste livro a nostalgia dos mais consagrados mestres dos dois lados da fronteira. Bem-vinda, Andrea Barrios, à família de Mario Benedetti e Erico Verissimo”.
Os contos têm, em média, duas a três páginas, duplicadas pela versão bilíngue. Com característica de despertar miradas descomuns, as tramas se constituem de cenas aparentemente corriqueiras que se vão distanciando pouco a pouco da realidade prosaica para ganharem, muitas vezes, um caráter místico, existencialista ou, quando menos, inusitado. Este trecho do segundo conto é uma possibilidade de síntese do que parece experimentar seus irrequietos personagens: “[…] não sabe se sobreviverá dali para a frente ou se continuará existindo em um tempo perdido que se move como uma pesada porta giratória na qual ele mesmo é seu eixo, sem qualquer possibilidade de escapar”. Uma boa surpresa, considerando se tratar do primeiro livro. Fica a expectativa do que virá de uma escritora, sem dúvida, com auspicioso estilo.
Resenha do livro Ao menos um descanso, de Andrea Barrios, publicado pela Age Editora (Porto Alegre, 2018).
Sobre o resenhista:
Antônio Falcetta é formado em Letras pela UFRGS, trabalhou como revisor no mercado editorial e no magistério por cerca de 20 anos. Desde 2008 é servidor e exerce a função de revisor da Secretaria de Comunicação Social da UFRGS.