Vícios e virtudes da história profissional

Chega em boa hora a tradução de Angela Xavier de Brito para um dos livros mais recentes do historiador Christophe Charle, publicado na França em 2013. Pautado por quatro décadas de prática com a pesquisa histórica e a formação de professores, Homo historicus não apenas revela o estado atual da escrita da história naquele país, com seus avanços teórico-metodológicos há muito tempo difundidos na historiografia brasileira e em outros circuitos intelectuais nacionais, mas toca também em temas delicados do campo, sem medo de alertar para os perigos da superespecialização e de revelar muitas das falhas explicativas de uma disciplina segmentada em territórios temáticos cada vez mais rígidos e autocentrados.

Isso tudo num momento em que gestores responsáveis pelas políticas de educação e pesquisa na França se agarram a concepções tecnicistas da missão universitária, buscando um manejo supostamente eficiente dos recursos públicos, mas que desvaloriza os conhecimentos humanísticos e enfraquece as condições de trabalho e a autonomia das investigações de historiadores e cientistas sociais. Uma realidade que o Brasil conhece muito bem há algum tempo, mas que se torna especialmente dramática com os ataques atuais ao pensamento crítico, às ciências e à escola/universidade, num clima às vezes delirante de anti-intelectualismo que domina a mente de parcela da classe política e do novo governo.

Como na França, o texto de Charle pode ter o efeito de desestabilizar o leitor brasileiro, principalmente os profissionais da área, mas também pode fortalecer e unificar a defesa de uma história cientificamente orientada e preocupada com os problemas do presente. Desde as primeiras páginas, o autor explicita as suas filiações teóricas, incluindo a dívida para com o sociólogo Pierre Bourdieu – manifestada no título adaptado do seu clássico Homo academicus (no Brasil, publicado em 2011 pela EdUFSC, com tradução de Ione Ribeiro Valle), sobre as regras do campo universitário francês – e ressalta os ganhos de sua perspectiva comparatista – ou “Global”, para usar um termo de moda – da história sociocultural. Mas deixa claro que não se trata de mais uma obra de “profissão de fé”: “a volta ao passado dos debates ou das controvérsias só tem sentido se servir de bússola a questões de atualidade historiográfica e só é frutífera se pensada como uma ginástica para elaborar boas questões para a atualidade, não para conseguir vitórias fáceis em combates já travados em que se defendem, por certo, os vencedores designados pela posteridade” (p. 15). Ainda assim, pode ser lido como um livro de combate, na melhor tradição francesa do gênero, que remonta, pelo menos, aos questionamentos de Marc Bloch e Lucien Febvre, fundadores da chamada escola dos Annales ou Nova História, sobre o ofício do historiador.

Seu grande inimigo parece ser aquilo que denomina de “lógica do território”, que perspicazmente equipara ao modelo político confederado suíço: “Cada cantão da história se responsabiliza por sua polícia interna para garantir a paz perpétua, única atmosfera propícia ao trabalho obstinado perante uma massa de fontes cada vez mais abundante” (p. 14). Ao invés da clausura, que pode levar a uma cegueira seletiva sobre a realidade histórica, defende o diálogo, o trabalho colaborativo e o reforço das práticas científicas de construção dos objetos de estudo. Abarcando alguns textos já publicados anteriormente, como artigos e outros produzidos para o volume, o livro nos oferece três grandes visadas, com respostas complexas ao problema.

“Compreender histórica e sociologicamente nosso universo social enquanto universitários e intelectuais é, portanto, outra maneira de cumprirmos a vocação e a profissão de cientista…”

p.101

Em sua primeira parte – “Sair dos limites do homo historicus?” –, aborda as condições sociais, políticas e institucionais da profissionalização da disciplina na França, revelando a gênese dos domínios temáticos que dificultam, inclusive, a construção de generalizações teóricas expansíveis a outros campos – e que teriam, na verdade, o resultado de reproduzir um vácuo ocupado por filósofos e cientistas sociais no interior da própria historiografia ou, ainda, de criar uma história da escrita da história como glosa de texto, praticada por autores sem experiência de investigação. Trata, também, dos objetos considerados consagrados, que devem seu lugar na hierarquia dos temas históricos a concepções não científicas de fazer pesquisa e à persistência de classificações tradicionais, gestadas em estágios iniciais do campo ou oriundas de fora dele, como a história literária de Gustave Lanson, e sua sucessão linear de correntes e movimentos estéticos de vanguarda, ou a crítica de jornal, com seu característico julgamento de valor. Charle termina a primeira parte do livro exemplificando os procedimentos teóricos recomendados para se escapar da lógica do território através da análise de um objeto negligenciado pela disciplina, mas caro à sua própria trajetória científica: o teatro e a circulação das formas dramáticas na Europa do século 19.

Na segunda parte – “Métodos e problemas” –, desenvolve mais respostas, em cinco reflexões pertinentes à história social da cultura ou história sociocultural: (a) sobre a prosopografia, ou estudo comparado de biografias; (b) sobre o cruzamento da sociologia da cultura com estratégias de análise textuais desenvolvidas nos estudos literários; (c) numa atualização da proposição de Roger Chartier de inverter os recortes sociais dos estudos culturais, caminhando em direção a uma história cultural do social (conhecida no Brasil pela coletânea À beira da falésia, publicada pela Editora da UFRGS, em tradução de Patrícia Chittoni Ramos); (d) sobre uma história global ou história comparada de configurações nacionais semelhantes; e (e) sobre a circulação transnacional de formas culturais.

Por fim, a terceira parte de Homo Historicus nos brinda com biografias de historiadores politicamente engajados e “modernos”, em que comparecem fundadores da história-ciência francesa, Ferdinand Brunot e Charles Seignobos, e autores de outras tradições historiográficas europeias, com destaque para a descrição sensível da trajetória do historiador marxista britânico Eric Hobsbawm (a quem dedica o livro, junto a Pierre Bourdieu).

Christophe Charle dispensa apresentações no campo francês da produção histórica. É autor de clássicos nos domínios da história intelectual e da história literária, como O nascimento dos “intelectuais” (1990) e A república dos universitários (1994). Tem títulos importantes da história social e política, como As elites da república (1987) e História social da França no século 19 (1991), além de dirigir, com Laurent Jeanpierre, a monumental coletânea A vida intelectual na França (2016), em dois volumes (títulos em tradução livre). No Brasil, contudo, só veio a público, até o momento, sua também relevante obra dedicada ao teatro: A Gênese da Sociedade do Espetáculo (Companhia das Letras, 2012). A Editora da UFRGS e a FGV Editora prestam, assim, um bom serviço à comunidade acadêmica brasileira, divulgando mais uma pequena parte de sua vasta obra a respeito do universo letrado, principalmente num momento de quase criminalização social do setor cultural e em que a validade de se produzir conhecimento histórico nas universidades, ao mesmo tempo objeto de análise e meta de Charle, é politicamente colocada sob suspeita em nosso país.

Resenha do livro Homo historicus: reflexões sobre a história, os historiadores e as ciências sociais, de Christophe Charle, publicado pelas Editoras da UFRGS e FGV (Porto Alegre/Rio de Janeiro, 2018)

Sobre o resenhista:

Jocelito Zalla é Doutor em História Social pela UFRJ e professor do Colégio de Aplicação da UFRGS. Autor de O Centauro e a Pena: Barbosa Lessa e a invenção das tradições gaúchas (Editora da UFRGS, 2018)

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