Vida e morte de um educador brasileiro

Nestes tempos tão estranhos em que vive a sociedade brasileira, e tão semelhantes a outros que minha geração conheceu através dos livros de história e de relatos, o coração vibra com a leitura da Breve história da vida e da morte de Anísio Teixeira: desmontada a farsa da queda no fosso do elevador, de João Augusto de Lima Rocha. Qualificada e despretensiosa, que atualiza a memória da vida e da morte deste homem cujo trabalho por meio século foi o de construção da educação pública, básica e superior, em nosso país.

Jorge Amado escreveu que Anísio foi o mais modesto dos grandes homens, o mais simples, o que menos desejou para si próprio. O mais ambicioso, porém, em relação ao Brasil e ao homem brasileiro. A importância singular da vida e da obra de Anísio podem ser sintetizadas na seguinte passagem do livro de João Augusto: “Amplamente reconhecida, a atuação de Anísio na educação e na cultura brasileira decorre de sua capacidade de unir as vertentes intelectual e técnica, com base na compreensão de que a essência da política da luta pela escola pública,  universal e gratuita está em assegurar sua ligação umbilical com o processo de construção e consolidação da democracia” (p. 77).

Nessa perspectiva, pode-se vislumbrar a singularidade da trajetória acadêmica e política de Anísio Teixeira pela sua capacidade de fazer a diferença na arena pública, especificamente no campo da educação, e ter a dimensão dos desafios enfrentados pelos brasileiros e brasileiras que ousaram propor o projeto de uma nação livre e soberana.

João Augusto recupera sua história de vida desde a experiência como Inspetor Geral de Ensino na Bahia em 1924, passando pelo governo federal no período que antecedeu o Estado Novo, em 1937, e o Golpe civil-militar de 1964. Recupera seus feitos na Universidade do Distrito Federal, na CAPES, no INEP, na Universidade de Brasília e sua trajetória de estudos desde a pós-graduação no renomado Teachers College da Universidade de Columbia em Nova York, em 1928.

Aponta a exuberância de suas contribuições para a construção de um sistema  de educação pública, universal, laica e de qualidade, abordando desde os temas estruturais, como financiamento e legislação, quanto os temas relativos à organização pedagógica do trabalho escolar, confrontando a exiguidade do tempo de estudos dos estudantes brasileiros e os métodos transplantados de outros países e profundamente arcaicos para o aprender e o ensinar.

Nesse sentido, a obra de João Augusto sistematiza com rigor inúmeros estudos já feitos sobre a produção intelectual e política de Anísio Spínola Teixeira. A novidade que seu livro nos traz é acerca de um aspecto sombrio e, até poucos anos, absolutamente silenciado: as condições em que ocorreu a morte desse gigante das políticas educacionais brasileiras.

“O objetivo maior de Anísio era colocar a educação pública no centro da agenda política nacional”

(p. 78)

Naqueles dias difíceis de março de 1971, Anísio dirigia-se desde a Fundação Getulio Vargas, no bairro de Botafogo, na cidade do Rio, ao apartamento de Aurélio Buarque de Holanda, em que almoçariam e conversariam sobre sua indicação para a Academia Brasileira de Letras.

Anísio nunca chegou para o almoço, não entrou no prédio e depois de dois dias seu corpo foi localizado no fosso de seu elevador. Essa versão de sua morte nunca foi aceita pela família, porém, naqueles anos de chumbo, o silêncio era mais do que uma escolha.

Três décadas de investigação permitiram a montagem de um verdadeiro quebra-cabeça que teve como peça-chave a entrevista de Luiz Viana Filho, ex-governador da Bahia indicado pelo regime e ex-senador, que revelou ter obtido de alta fonte militar, naqueles dias de aflição, entre o desaparecimento e o encontro do corpo, a informação de que Anísio havia sido detido para prestar depoimento em instalação da Aeronáutica no Rio de Janeiro. Essa informação foi confirmada por Abgar Renault, eminente educador mineiro e amigo de Anísio, que em conversa com o general Syzeno Sarmento, comandante do I Exército e criador do Doi-Codi, afirma que Anísio estava prestando depoimento na Aeronáutica e não demoraria para ser liberado.

Em 12 de agosto de 2012 instala-se a Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da Universidade de Brasília “na esteira do movimento lançado pela presidente Dilma Rousseff, que instituiu a CNV com o objetivo de levantar o véu sobre a história recente da repressão política no Brasil, especialmente no período da ditadura militar de 1964” (p. 171).

O livro traz a público importantes documentos, análises e reflexões que adensam a tese de que Anisio Teixeira não teve sua fecunda vida abreviada pela queda no fosso de um elevador, mas por forças reacionárias que viam nele uma ameaça.

A força de evidências, como os óculos intactos de Anísio em uma das vigas no espaço da suposta queda, são impactantes. Assim como são impactantes os fatos que apontam o conjunto de situações constrangedoras a que Anísio foi submetido ao longo de sua vida por sua clara opção pela educação pública, laica, gratuita e universal em um país forjado sob a égide de uma estrutura social desigual e desumana.

A leitura da obra de João Augusto de Lima Rocha será um modo de honrar a memória de Anísio, repondo a verdade e contribuindo para que não se repitam arbitrariedades que encurtem vidas e abortem projetos societários embasados na premissa de um mundo em que todos caibam.

Resenha do livro Breve história da vida e da morte de Anísio Teixeira: desmontada a farsa da queda no fosso do elevador, de João Augusto de Lima Rocha, publicado pela Editora da UFBA (Salvador, 2019)

Sobre a resenhista:

Jaqueline Moll é professora Titular da Faculdade de Educação da UFRGS

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