A paz é a utopia dos indecisos, nos diz Susana Vernieri na epígrafe de um dos capítulos de seu mais recente lançamento, O mapa da República. Complemento: se a paz é a utopia dos indecisos, a realidade é sua distopia. A obra, assim como As grades do céu – livro de contos da autora lançado em 2009 e vencedor da categoria contos do Prêmio Açorianos –, retrata personagens que habitam o entrelugar da vida e sonham com a paz que – eles imaginam – provém da conformidade. A paz de sentir-se unidade completa, sujeito centrado em um mundo coeso. Mas a realidade aí se apresenta como uma anomalia.
Os cacos de vidas narrados em As grades do céu apresentam indivíduos que vivem a fronteira entre a sanidade e a loucura. Como se tivessem um pé em cada lado, manifestam a loucura em sua sanidade e a sanidade em sua loucura. Os personagens de Susana parecem ter-se divorciado do mundo, ainda que de formas diversas: na crise paranoica, representada tanto pelo “louco” tradicional como pelo mais aparentemente normal dos sujeitos; na negação da vida, que não significa necessariamente o desejo de morte; na ruptura de um caso amoroso, que dilacera; ou morando em uma casa ancorada no nada em meio ao rio, de onde se vê a vida a distância. São sujeitos que, paradoxalmente, revelam as situações extremas daqueles que vivem no entrelugar da existência. As grades do céu é uma cartografia de vida do avesso.
“Queria um lugar, um lugar que não existe. Eu cometo um pecado capital. Sem culpa. E agora me confesso”.
O Mapa da república é também um estar-entre temporal. A novela parece transcorrer entre os fatídicos invernos de 2013 e 2014. Rosa é uma jovem universitária que trabalha em um bar e se diverte tanto quanto alguém que trabalha e estuda pode se divertir. Vive uma vida sem sal. Lúcio, um personagem curiosamente estereotipado à moda antiga, é um rapaz que, para não dizer pior, parece um “garotão”, aquele típico jovem de tatuagens tribais nos braços e skate no pé. Ele também não parece saber muito bem o que está fazendo e, na dúvida, age sempre da pior maneira.
A forma como são construídos os personagens, no entanto, podem despistar o leitor na identificação de suas características e de seus comportamentos. Situações que poderiam demandar um maior desenvolvimento e incluir o leitor na caminhada narrativa são descritas a partir de um lugar distante e de maneira bastante breve. Resulta que o narrador, em determinados momentos, toma o lugar de um repórter: informam-se os eventos históricos mais do que parece interessar à trama.
A sensação geral daqueles que viveram as ruas das capitais brasileiras durante os grandes protestos que antecederam à copa é mais ou menos essa: ninguém sabia ao certo o que estava fazendo e vivia em um curioso estar-entre: entre a euforia e a depressão, entre a ação violenta e a pacífica, entre a festa e o protesto.
Frequentemente, os extremos eram sentidos e vividos ao mesmo tempo. Todas as manifestações terminavam em frustração; afinal eram sempre os mesmos caminhos, com os mesmos resultados e as mesmas repercussões. Por outro lado, elas também emocionavam. Eram multidões. Nunca sabíamos ao certo o que estávamos fazendo e, no entanto, nos sentíamos profundamente impelidos a fazer.
O livro, ainda que brevemente, nos leva de volta a esse momento da cidade de Porto Alegre. À República, Estado, e à Rua da República, espaço da boemia porto-alegrense, onde muitos terminavam as noites de protesto e também as de carnaval.
Em As grades do céu, há um personagem que decide nadar em direção ao infinito. Não se trata de uma tentativa de suicídio, pois ele é um exímio nadador. Ele apenas deseja ver o infinito mais de perto. Está cansado dos limites impostos pela vida. Um salva-vidas, vendo o banhista já muito distante da costa, vai até ele e pede para que retorne. Ele se recusa e teimosamente responde: “vou nadar o quanto quero”. Me parece que também nós, naqueles dias de 2014, quando as manifestações mudavam de figura e nós já nos sentíamos distantes demais de qualquer ponto de apoio, seguíamos pelos mesmos motivos: queríamos. Não podemos controlar as consequências das nossas vontades. Não tínhamos como prever no que resultariam as manifestações de 2013; também Rosa, personagem de O Mapa da República, não sabe o que será de si após sua desastrada decisão final. Querer, enfim, é apenas o que nos cabe.
Resenha do livro As grades do céu, de Susana Vernieri, publicado pela Libretos (Porto Alegre, 2019)
Sobre a resenhista:
Júlia de Campos Lucena é graduada em Letras pela UFRGS e mestranda na mesma instituição, na linha de pesquisa Literatura, Sociedade e História da Literatura.