Descortinando novos horizontes

Gostaria de iniciar a resenha dizendo que, para mim, a tarefa de apresentar esta obra é de extrema responsabilidade, dado o atual contexto em que é possível identificar contundentes sinais de distopia em nossas sociedades. E aqui reside o desafio de aprendermos a ler criticamente as mudanças do nosso tempo, as nossas circunstâncias, o que está em jogo, isto é, com autonomia e sensatez, mas sem neutralidade, como nos chamava a atenção Paulo Freire.

A obra de Alberto Acosta O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos, publicada pela editora Elefante, posiciona-se enquanto uma alternativa ao modelo produtivista, consumista e acumulativo, resultado da busca insana pelo “desenvolvimento” e “progresso” da humanidade. Em contraponto a esse quadro, Acosta formula o conceito de “Bem Viver” (Buen Vivir/ Vivir Bien), assentado na perspectiva da convivência cidadã e harmoniosa entre os seres – humanos e não humanos – na busca de construir outro modelo civilizatório e reconhecendo a natureza como um sujeito de direitos.

“O Bem Viver é essencialmente um processo proveniente da matriz comunitária de povos que vivem em harmonia com a natureza”

p. 32

Os dez capítulos que compõem o livro compilam suas ideias para um mesmo horizonte: analisar lucidamente os impactos tanto do ponto de vista social, econômico e cultural quanto sob a ótica ambiental, face aos problemas de ordem estrutural e simbólica que o desejo pelo desenvolvimento trouxe às regiões ditas “atrasadas” do sistema capitalista mundial.

É nesse sentido que o trabalho de Alberto Acosta e sua reflexão, apoiada na ancestralidade andina e amazônica – reconhecida por ele como uma visão não dogmática –, merecem um olhar atento e sensível daqueles que se dedicam a estudar as problemáticas advindas da modernidade ocidental por nos oferecer questões tão caras para compreender suas dinâmicas: A quem interessa o modelo de desenvolvimento atual? Quais suas ameaças e consequências? As alternativas para uma sociedade mais cidadã e democrática podem ter no imaginário a ideia de desenvolvimento como opção? É preciso antes descolonizar o imaginário?.

Acosta, ao aprofundar sua análise, chama a atenção para as contradições internas nos países do continente latino-americano, não obstante ele reconheça os avanços que ocorreram na Bolívia e no Equador, assumindo as questões ambientais certo espaço na agenda institucional desses governos com os conceitos de Vivir Bien (na Bolívia) e de Buen Vivir (no Equador), inscritos inclusive em suas respectivas Constituições. Contudo, para o autor, “apenas colocar o Bem Viver na Constituição não será suficiente para superar um sistema que é, em essência, a civilização da desigualdade e da devastação. Isso, no entanto, não significa que o capitalismo deve ser totalmente superado para que, só depois, o Bem Viver possa se tornar realidade” (p. 33).

Apesar desses governos de postura mais à esquerda terem alcançado protagonismo e liderança, sobretudo nas duas últimas décadas, em grande medida com apoio de movimentos sociais populares, eles esmaeceram face às tomadas de decisões ao assumir um receituário neoliberal e equivocado e “reduzir a ideia de inclusão social ao acesso de bens de consumo individual” (p. 24).

Um cenário que, segundo o livro, foi apoiado no modelo neodesenvolvimentista combinado ao neoextrativismo, alimentado pelas demandas especulativas do capital, que vê os recursos naturais como um bem a ser dominado e explorado. Esse sistema de exploração causa profundos impactos – e até crimes, se quisermos tomar como referência os casos de Mariana e Brumadinho no Brasil, ambos perpetrados por mineradoras transnacionais.Para Acosta, nessa agenda, a ética ambiental não ocupa um lugar de prioridade,evidenciando que o colonialismo que sofremos não é só externo, mas também interno.  

O autor do livro previne para o fato de que não se trata de assumir o Estado como o único responsável pela construção do Bem Viver, mas sugere que este seja reconfigurado em termos “plurinacionais” e “interculturais”, incorporando os conhecimentos e saberes de povos e nacionalidades indígenas com objetivo de construir outro projeto de nação que não esteja refém da lógica eurocentrada. Isso implica, segundo ele, “cidadanizar individual e coletivamente o Estado, criando espaços comunitários como formas ativas de organização social” (p. 34).

A proposta do Bem Viver, segundo Acosta, não é sinônimo de “bem-estar”, no sentido de acumulação de bens materiais, o que coloca em risco a própria humanidade ao deteriorar o equilíbrio ecológico. Daí o seu caráter contra-hegemônico, porque rompe com o paradigma de desenvolvimento tal como é adotado nos países centrais do capitalismo. É nessa perspectiva que sua filosofia apoia-se numa nova forma de organização social, dando a possibilidade de escolha aos indivíduos, ainda que não tenham os mesmos meios. “Estes, aliás, não poderão estar concentrados em poucas mãos” (p. 209), salienta o autor.

Em síntese, O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos inaugura uma nova época de estudos críticos a partir da sociedade latino-americana. Não só descortina novos horizontes para a reflexão teórica social e a interpretação da realidade social, como permite a construção de novas narrativas vindas de baixo, das classes e dos grupos e povos oprimidos da periferia que tiveram seus conhecimentos, saberes e práticas desacreditados, que se encontram à margem da partitura oficial da história.

Resenha do livro O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos, de Alberto Acosta, publicado pelas editoras Autonomia Literária e Elefante (São Paulo, 2016)

Sobre o resenhista

Maycom Douglas F. Nascimento é mestrando no PPG em Desenvolvimento Rural da UFRGS. Licenciado em Pedagogia pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), é membro do grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS). Sua agenda de pesquisa está focada nos estudos sobre o Pós-desenvolvimento, Movimentos Sociais e teoria Pós-colonial e Decolonial.

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