Será que vale a pena largar o celular para ler esse livro? Essa talvez seja uma das perguntas mais recorrentes nos tempos atuais. Só no Brasil são mais de 230 milhões de linhas de celular ativas para um total de 207 milhões de habitantes, onde a internet é acessada por mais de 70% da população.
Através dos smartphones é possível realizar uma infinidade de atividades, desde pedir comida, chamar um transporte, pagar contas, até encontrar um parceiro para uma relação casual. Mas para além das atividades do cotidiano, os smartphones tornaram-se a principal ferramenta para milhões de trabalhadores de todo o mundo. E por trás desses aparelhinhos que cabem na palma da mão está surgindo uma nova era, uma recente fase do desenvolvimento do modo de produção capitalista: conectado, digital, informacional e em rede. E o que sustenta esse novo período da história são as tecnologias da informação e seus trabalhadores, que as desenvolvem e as produzem. É justamente sobre eles de que trata Flexíveis, virtuais e precários? Os trabalhadores em tecnologia de informação.
“Um dia a dia de trabalho marcado por jornadas extensas, flexibilidade de contratos, tempos e espaços de trabalho, metas e cobranças não é exclusividade dos profissionais desse setor (TI), mas é um retrato desse ‘novo’ mundo do trabalho.”
p.139
Os autores Maria Aparecida Bridi e Jacob Carlos Lima nos provocam a responder a questão que intitula seu livro, mas como toda boa obra acadêmica que se preze, produz ainda mais provocações e inquietações. Organizado a partir de 12 artigos científicos, resultados de pesquisas realizadas na Espanha, México, Argentina e Brasil, a obra está organizada em três partes que tratam das configurações do trabalho em TI, das condições de trabalho e das inovações em TI, respectivamente.
O rigor acadêmico com que as pesquisas foram realizadas e a forma como os resultados foram apresentados, conjugando critérios epistemológicos, metodológicos e éticos, permite que a obra seja utilizada como referência para outros estudos de caráter científico. No entanto, a forma de exposição permite uma leitura objetiva e de fácil compreensão para o púbico em geral. Temas atuais são tratados com o rigor da ciência, mas ao mesmo tempo transitam com familiaridade entre assuntos do cotidiano.
Você sabia que os youtubers são caracterizados como trabalhadores não clássicos? Mas nos dias atuais, o que são trabalhadores clássicos? Já pensou em usar a teoria marxista para entender se o trabalho de um blogueiro é material ou imaterial, se está na instância da produção ou da circulação, se gera ou não mais valia?
Com textos que perpassam temas da terceirização, mulheres no setor de TI, fronteiras entre a vida pessoal e profissional em ambientes virtuais, juventude e flexibilidade geracional, os estudos buscam estabelecer conexões com as diferentes formas de relações sociais que tendem a se configurar a partir da utilização das Tecnologias de Informação. Os artigos também costuram referenciais teóricos clássicos, como Marx, Durkheim e Taylor, com autores contemporâneos, como Castells, Harvey, Castel, Bauman e Habermas, e brasileiros, como Ricardo Antunes e Cinara Rosenfield.
O livro Flexíveis, virtuais e precários? É uma leitura obrigatória para tentar compreender o novo horizonte que surge a partir do trabalho em Tecnologia de Informação, um fenômeno que é marcado pelo nascimento de uma rede digital que conecta tudo e todos de maneira global e em tempo real, implicando em ciclos de convergências de processos físicos, econômicos, sociais, políticos e culturais. Você nunca mais vai olhar para seu celular do mesmo jeito.
Resenha do livro Flexíveis, virtuais e precários? Os trabalhadores em tecnologia de informação, de Maria Aparecida Bridi e Jacob Carlos Lima, publicado pela Editora UFPR (Curitiba, 2019)
Sobre o resenhista:
Fábio Cannas é graduado em Sociologia e Serviço Social, mestre em Políticas Sociais e Serviço Social (UFRGS). Pesquisa a influência das tecnologias digitais nas relações sociais de trabalho e é integrante do Grupo de Pesquisa Marx, Platão e a Dialética.