No domingo de Páscoa de 2017, Chico Felitti recebeu uma mensagem pelo Facebook que dizia: “Oi! O Fofão está no Hospital das Clínicas. Amputaram o dedo dele, que estava gangrenado. Ele tem surtos, quer bater em todo mundo e tem que ser amarrado porque arranca todos os acessos. E não diz coisa com coisa” (p. 9). A mensagem desencadeou a possibilidade de Felitti conhecer o Fofão da Augusta, Ricardo Correa da Silva – figura conhecida das ruas de São Paulo – e acompanhá-lo ao longo de alguns meses.
Ainda em 2017, Felitti publicou uma reportagem (re)apresentando Ricardo no Buzzfeed que viralizou e obteve inúmeras respostas, desde pessoas que já tinham cruzado com ele na rua e queriam saber se ele estava bem até de pessoas que tiveram sua vida, de algum modo, afetadas por Ricardo. Uma dessas pessoas mostrou a reportagem para Vânia, o grande amor da vida de Ricardo. A partir da reportagem e de sua repercussão, foi escrito Ricardo e Vânia: o maquiador, a garota de programa, o silicone e uma história de amor. No romance, Felitti narra mais detalhadamente os meses em que acompanhou Ricardo, sua história de vida e sua relação com Vânia.
“Menino, a história do Ricardo é um bafo. É a história de nós, bichas do interior.”
p.98
Ricardo e Vânia, na época Vagner, conheceram-se em São Paulo em 1979, quando Ricardo trabalhava em um enorme salão de beleza. “Ele era lindo. Parecia um príncipe”, diz ela (p. 109). Em seguida, Vagner vai morar com Ricardo, vivendo uma relação que dura quase dez anos e alguns litros de silicone injetados no rosto de ambos. Em 1988, sentindo-se sufocado por Ricardo, Vagner parte para Paris, onde vive até hoje como Vânia. Durante esses 30 anos, a vida de Ricardo parece ter saído de seu controle, em parte devido ao diagnóstico de esquizofrenia e a algumas escolhas infelizes, mas também por viver em uma cultura que cobra caro daqueles que não se conformam às normas.
A leitura do texto de Felitti afeta, mexe com o leitor. Ao nos dar acesso a um vislumbre da vida de Ricardo e Vânia, também nos faz pensar a respeito dessas vidas por que cruzamos nas ruas e nem sempre enxergamos. Felitti está presente na obra, assim como Isabel Dias, sua mãe e também escritora – chamada por Ricardo de Edna –, expondo como as trajetórias vão se entrelaçando, como, ao narrar o outro, estamos sempre também implicados.
Ao longo de todo o livro, há uma profunda preocupação por parte de Felitti em respeitar Ricardo e Vânia como sujeitos concretos e complexos em vez de serem percebidos como objetos de investigação jornalística; há uma responsabilidade em relatar uma vida. Ambos possuem voz e determinam o que de suas vidas pode ser revelado e o que deve ser ocultado. O romance nos revela que certas personagens são marcadas por sofrimentos, preconceitos, desilusões, mas também há instantes de felicidade e glamour.
Por fim, se o romance inicia apontando que no “Cemitério São Bento, no centro de Araraquara (SP), tem um túmulo que não possui nome” (p. 7), termina afirmando que agora há uma placa com o nome de “Ricardo Correa da Silva, que viveu de 9 de dezembro de 1957 a 15 de dezembro de 2017” (p. 189). Ricardo foi uma vida vivida, apreendida e reconhecida pelas pessoas que marcou e pelos leitores que afetou.
Resenha do livro Ricardo e Vânia: o maquiador, a garota de programa, o silicone e uma história de amor, de Chico Felitti, publicado pela Editora Todavia (São Paulo, 2019)
Sobre o resenhista:
Lucas Demingos de Oliveira é doutorando em Letras pela UFRGS, com experiência em Teoria Literária, atuando principalmente nos seguintes temas: reconhecimento, trauma, precariedade, ética e literatura.