Luto e política em Scholastique Mukasonga

Entre abril e julho de 1994 presenciou-se com horror a violência do genocídio da etnia Tutsi, em Ruanda, perpetrado pelo grupo étnico Hutu. O evento catastrófico não teve intervenção internacional e os avisos de sua iminência foram ignorados por nações que frequentemente utilizam poder militar em nome de uma suposta democracia e liberdade.

Scholastique Mukasonga inicia em Baratas – uma referência à injúria usada pelos Hutus para os Tutsis; baratas, aqueles que rastejam, indignos –, seu relato que continuará em A mulher de pés descalços, obra na qual o foco será a história de sua mãe. Em Baratas, parte memórias, parte autobiografia e parte escrita reparativa, Mukasonga entrelaça sua história e de sua família com a de uma nação na qual a perseguição e violência étnica vinha crescendo já desde muito antes de eclodir no massacre de mais de meio milhão de pessoas.

Baratas possui uma linguagem direta, factual e descritiva, de pouca ou nenhuma emoção, como alguém que nos conta uma história que ainda não compreendeu e que desafia a possibilidade de compreensão, mas que, simultaneamente, assombra e persegue a narradora, demandando ser contada. Uma demanda para que os mortos sejam lembrados, como argumenta Judith Butler em Quadros de guerra, reconhecidos como vidas vividas, irrecuperáveis, passíveis de luto, que deveriam ter sido preservadas e que têm o direito e merecem ser pranteadas.

A narrativa faz um percurso de pouco mais de 50 anos através de saltos, partindo dos primeiros anos de Mukasonga na província de Gikongoro, sudoeste de Ruanda, passando pelos exílios e expurgos ao longo de sua infância e adolescência, atestando que a violência contra Hutus vinha se perpetrando há décadas, finalizando com seu relato do genocídio e sua visita à Ruanda, 10 anos depois.

Na época do extermínio, Mukasonga morava na França, casada e com filhos.

“Ainda me pergunto como pude me ocupar da minha casa, dos meus filhos, continuar o curso para conseguir o diploma francês de assistente social, olhar as árvores floridas dessa primavera na França. Atravessei os meses de abril, maio e junho como uma sonâmbula. Sabia que não havia esperança para Nyamata”

(p. 131).

Esses questionamentos de como continuar vivendo reverberam não apenas na obra de Mukasonga mas em outras obras que relatam eventos traumáticos e catastróficos. É o que se vê em Primo Levi e Paul Celan, para os quais sobreviver parece ser uma dor grande demais e que possui certas demandas éticas.

Mukasonga, assim como todos aqueles que sobreviveram, perdeu quase todos seus familiares e conhecidos no genocídio: seu pai Cosma, sua mãe Stefania, seus irmãos Antoine, Alexia, Jeanne, Judith e Julienne e suas respectivas famílias. Seu retorno a Ruanda é marcado pela história dolorosa da violência sofrida por eles, manifestando-se nas respostas imprecisas sobre como morreram, sobre onde seus corpos estão, aqueles que sobreviveram não querem – ou até mesmo não podem –, retornar a tais episódios, será que aqueles que agora a guiam pelo seu antigo vilarejo estavam entre os perpetradores?

A narrativa é um testamunho e uma elegia àqueles que tiveram suas vidas roubadas, seus nomes contados e repetidos metódica e compulsivamente, como uma prece que se recusa a aceitar a violência final do genocídio, isto é, o apagamento até mesmo dos rastros e lembranças daqueles que pereceram.

Baratas, de Scholastique Mukasonga, publicado pela Editora Nós (São Paulo, 2018).

Sobre a resenhista:

Lucas Demingos de Oliveira é doutorando em Letras pela UFRGS, com experiência em Teoria Literária, atuando principalmente em reconhecimento, trauma, ética e hermenêutica.

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