A Umbanda como ciência

O livro Véu do Congá possibilita, através da leitura, o contato com segredos, palavras não ditas, diversas possibilidades de compreensões, hábitos, rituais, sonoridades, aromas peculiares nos terreiros desse Brasil. O véu, costumeiramente colocado em frente ao Congá (espaço onde se localizam as imagens e símbolos da religiosidade de Umbanda), pode fazer a simples função de proteção às intempéries ou aos olhares mais curiosos em busca de respostas imediatas às suas indagações, mas Lucas Gonçalves Brito, o autor, desvela esse véu para ressignificá-lo, dando a máxima importância para cada movimento, sentimento e experiência vivida no Centro Espiritualista de Umbanda Pai Joaquim de Angola (CEUPJA), em Goiânia, onde durante doze meses esteve em pesquisa.

Nos mostra narrativas de superação e enfrentamento de dificuldades pessoais e coletivas, dado que o Centro foi inaugurado por uma mulher pobre, numa comunidade pobre, sem sede própria ou financiamentos.

“Na verdade, o que há de misterioso no terreiro não se esconde, mas se revela a quem souber olhar não só com a mutinga [cabeça], mas também com o batedô [coração]”

(p. 39)

Em cada capítulo apresenta o que considera os três aspectos do conhecimento umbandista: a) cosmologia; b) rituais; e c) experiências e conhecimentos vividos no terreiro. Responde questionamentos discutidos nessa área de pesquisa, a partir das narrativas descritas, dando o status do conhecimento para as entidades e para os médiuns entrevistados, invertendo a lógica do conhecimento catedrático para o conhecimento formulado e experienciado.

Importante ressaltar que o conhecimento reconhecido como epistemologia da Casa de Pai Joaquim é uma epistemologia localizada, uma produção dali para os que ali estão. Apresentado-o de forma teórica e metodológica, sendo o que de mais bonito há no livro, afirma que o conhecimento umbandista pode ser reconhecido no conhecimento dito, no conhecimento corporificado e no conhecimento vivido, completando-se epistemologicamente quando, nessa triangulação, constitui-se a noção de pessoa.

Em O véu da Cosmologia Umbandista, as perguntas mais simples/complexas são colocadas: O que é umbanda? Ela é afro-brasileira? Objetivando abordar essas questões tão fundamentais para quem discute o tema, Lucas traz o que lhe é respondido pelos seus entrevistados, articulando com pressupostos teóricos arrolados na academia e por literaturas sobre a diversidade existente, mostrando seu domínio sobre essas leituras. Assim, vamos aprendendo os termos, referências, técnicas, os quais vêm acompanhados por figuras e ilustrações – são figuras originais e fora dos padrões estéticos de imagens sobre terreiros que temos nas bibliografias.

No segundo capítulo, sob o nome de Rituais, o etnógrafo aparece de forma brilhante, pois é possível a visualização das cenas devido à riqueza de detalhes. A descrição do lugar e do que se faz nele é detalhada, por onde presumimos a rotina do Centro e a quantidade de trabalhos e pessoas envolvidas, entre médiuns e assistentes. Dentre as atividades, há os trabalhos fins, que são os espirituais, como o desenvolvimento e formação dos trabalhadores espirituais, e os trabalhos administrativos e de conservação do espaço. Então, o narrador demonstra que a organização pessoal e coletiva é um ponto essencial nos terreiros que se autogestionam, ao contrário do que discursos racistas e intolerantes insistem em dizer. Também há a presença de letras de cantigas cantadas para as divindades cultuadas deixando a leitura mais dinâmica e o/a leitor/leitora mais presente dentro do terreiro, pois muitas delas são do conhecimento do grande público brasileiro.

No capítulo intitulado Experiência e Conhecimento Vivido no Terreiro, o autor lança mão das narrativas dos entrevistados para que esse conhecimento buscado se sedimente. Aí tanto metodológica quanto esteticamente, deixa o livro mais interessante de ser lido – logo após cada descrição de falas, há uma descrição do que é dito, alicerçando o conteúdo e dando ênfase na força dos relatos.

O autor então se concede um espaço para refletir o quanto se sente numa missão complexa ao tomar para si o objetivo de explicar “o modo antropológico de conhecer” (p. 184). Pois para muitos filhos de Oxalá (termo endógeno usado para quem é trabalhador do Centro), a Umbanda é uma ciência, principalmente porque se dedica a explicar energia, vibração, matéria transcendente e a dualidade entre pensamento analítico e analógico. Também apresenta sua trajetória experienciada e sentida dentro do terreiro, sem ter feito qualquer processo iniciático ou sem narrar experiências corpóreas de manifestações, não exotizando sua presença.

Chegando ao final pelas Linhas Conclusivas, no arcabouço epistemológico aglomerado, o autor conclui que, de uma forma muito expandida, a Umbanda é universalista, no sentido de ser e estar presente no Universo, atemporalmente e potente para todas as pessoas, de forma diversa e entendida a partir do que se entende sobre o mundo.

Resenha do livro O véu do congá – sobre três aspectos do conhecimento umbandista, de Lucas Gonçalves Brito, publicado pela Editora Gramma (Rio de Janeiro, 2019)

Sobre a resenhista:

Janine “Nina Fola” Cunha
é mulher negra, batuqueira, socióloga, mestra e doutoranda em Sociologia no PPGS/UFRGS, bolsista e cotista CAPES, estuda racismos, Povo de Terreiro e Feminismos Negros. Integrante do Coletivo Atinuké e do Coletivo AfroEntes como cantora e percussionista.

Please follow and like us:
fb-share-icon

Comments are closed.