Nacionalidade e a dimensão escolar

O livro Ensinando Fronteiras analisa ações e símbolos relacionados com as políticas sobre fronteiras nacionais. Seu subtítulo, projetos estatais, representações sociais e interculturalidade, indica tanto a instância de ações que será privilegiada nas análises em pauta, a estatal, quanto o modo principal escolhido e por meio do qual as compreensões buscam se efetivar: a interculturalidade que interpreta representações. As análises acerca de projetos nacionais e representações sociais, na perspectiva da interculturalidade, enfatizam a dimensão educacional no cotidiano de áreas de fronteiras.

“A história da escolarização moderna nos alerta que uma das razões centrais da universalização da escola básica foi o fortalecimento dos projetos nacionais”

Adriana Dorfman, Roberto Filizola e Julian Mokwa Félix

Não à toa essa sentença consta na apresentação do livro, que reúne dezesseis textos e vinte e seis autoras e autores que formulam interrogações sobre a noção de nacionalidade. A sentença é a senha que dá passagem para a visão do nacionalismo como estofo curricular (em especial no ensino de Línguas, de Literatura, de História e de Geografia) e da escola popular como instituição vinculada à emergência dos estados nacionais a partir do século XVIII. Essa escola encarregou-se da formação do sentimento e do valor de um “nós” oposto a “eles”, sentimento e valor sistematicamente produzidos e que perpassaram a assimilação de diferenças em favor de traços formadores de uma identidade nacional. Trata-se de uma escola que, em grande medida, permanece vigente em diversas fronteiras e situa-se na centralidade de um projeto geopolítico estatal promotor da preponderância do homogêneo sobre o diverso.

Em relação ao idioma, a promoção e transmissão de uma língua elevada ao estatuto de língua oficial representa, com frequência, um embate contra o cotidiano vivido nas bordas. Tal embate ganha expressão destacada nas escolas fronteiriças, espaços dissonantes em relação ao homogêneo promovido à condição de meta a ser privilegiada. A fronteira muitas vezes passa a ser emudecida na própria área de fronteira, pois a alteridade e as falas híbridas da zona de contato devem ser apagadas em favor da unidade idealizada. O cotidiano deve ser empurrado para fora do horizonte imaginativo da escola produtora de nacionalidade. O limite territorial demarca o ponto final do Estado-Nação e do que deve ser representado como “nosso”, embora o que está no outro lado da linha arbitrária seja aquilo que, na verdade, se apresenta cá e lá e constitui a vida no dia a dia, com seus laços parentais, trabalhos, hábitos, afetos, falares. Dissonâncias entre o vivido e as representações correntes no ambiente escolar podem causar danos emocionais e cognitivos nos alunos.

Inversamente, quando o vivido e as experiências escolares entram em harmonia e reforçam-se mutuamente, passa a acontecer o que muitos professores chamam de encantamento pedagógico. Referem-se ao sentimento que observam nos alunos, mas se torna perceptível que estão também a falar de si mesmos: professores entusiasmados por conviverem com alunos que, ao se sentirem acolhidos, tornam-se interessados pelo ambiente escolar. Haverá melhor evidência dos significados da potência existencial oferecida pela área de passagens e contatos do que a retroalimentação favorável estabelecida na renovação de interesses entre professores e alunos quando ligam a sala de aula ao entorno? Os textos reunidos em Ensinando Fronteiras demonstram o quanto o processo pedagógico de ensinar e aprender atento aos contatos da fronteira impulsiona o encontro entre aprendizagem, prazer e construção de significados.

Fronteiras de muitas tensões estão presentes no livro, tensões pretéritas, presentes – Estados Unidos e México; França e Bélgica; a extensão marítima entre Tunísia e Itália; Brasil e Paraguai, Uruguai, Bolívia e Peru; Israel e Líbano, Síria, Jordânia, Egito e a fragmentada Palestina. Conforme está expresso em mais de uma das áreas de contatos e de trocas entre significados que o leitor encontrará no livro, trata-se de uma arquitetura de mundo em grau superior ao existente – mais justiça, mais humanidade, mais fraternidade, mais solidariedade, mais igualdade, mais sustentabilidade. A obra é apresentada como um convite à travessia das fronteiras disciplinares e das fronteiras políticas – uma reivindicação do direito de atravessamento. As travessias propostas nos dezesseis textos não intencionam o apagamento de fronteiras – já bastam os apagamentos que instituem separações –, mas o movimento que compreende heranças em dois lados e afirma um terceiro, híbrido, abrangente, que segue em frente de outro modo. Conforme declaram Dorfman, Filizola e Félix, a relação com a fronteira demanda uma visão afeita à escuta e às trocas, caracterizada por uma lógica que acolhe a capacidade empática.

O potencial de contato e mudança é apresentado e analisado através de diferentes abordagens, que variam quanto ao tratamento de escala e quanto às relações enfocadas. A multiplicidade apresenta-se integrada nos capítulos e nos comentários dos três editores, que enfatizam, na introdução da obra, não apenas as diferenças entre os enfoques, mas simultaneamente diversos aspectos complementares. Os títulos dos capítulos já sugerem, no sumário do livro, o caráter articulado da multiplicidade dos enfoques, em expressões similares a estas: “a escola e o educar na fronteira, atos do estado se (des)fazendo em seus limites”; “fronteira como pedagogia”; “rodas de conversas e formação de professores através de histórias e experiências de vida”; “escolas interculturais e (des)construção de identidades”; “desenhos da fronteira e o exercício de representar na formação docente permanente”; “repensar migrações, agências (e agendas) políticas na fronteira”; “desfiliação e refiliação de estudantes na fronteira”; “ensinando e aprendendo acerca de fronteiras remotas”; “expansão do ensino e ampliação fronteiriça”; “áreas de contatos e dimensões docentes nos desafios do processo de ensino-aprendizagem”; “conflito político e desafio na construção de caminhos para o ensino de fronteiras”; “formação binacional de professores”; “pesquisa sobre fronteiras através da interculturalidade”; “escolas de fronteira e integração regional”; “entre imagens e palavras, fronteira(s) e educação geográfica”.

Numa dada passagem textual, é explicitada uma questão que perpassa de modo latente o conjunto das análises. A interrogação é sobre a possibilidade de estudantes e professores fronteiriços virem a se constituir em fator de agenciamento de uma escola transnacional. Uma escola na condição de fronteira poderia assumir como projeto a perspectiva que aponta para além do nacional, isto é, para o pós-nacional?  Essa escola poderia colocar em cena fatos e significados que ajudariam a repensar o caráter dos estados nacionais? Qual diversa cidadania poderia ter sua formação associada a escolas supranacionais? Tais perguntas talvez soem inusitadas e reside precisamente aí o mérito basilar de Ensinando Fronteiras: retirar a aparência natural (algo apresentado do mesmo modo desde há muito e que adquire a aparência de ser assim desde sempre) do que é construção histórica sustentada por produções de um dado imaginário desde posições centralizadoras distantes das beiras. Desconstruir a aparência natural da fronteira – construir perguntas. 

Na apresentação do livro, Rogério Haesbaert auxilia na formulação de necessárias perguntas. “Quantos sujeitos, quantos contextos, quantos dramas, quanto aprendizado nos propõe o i-limitado da fronteira? O que as fronteiras nos ensinam e o que somos compelidos a ensinar das/nas/com as fronteiras? Haveria uma pedagogia específica das fronteiras?” E contribui igualmente para pensar sobre as respostas: as fronteiras “são ou podem ser essa grande escola, onde aprendemos a arte da convivência e da hospitalidade – mas também onde ensinamos/ nos ensinam a conviver com o conflito, a perceber, como em nenhum outro lugar, que a vida é interface, avanço e recuo, fixação e mobilidade”. Seria a fronteira um grande laboratório para pensar o nosso tempo?

Para bem viver, são necessárias condições básicas relacionadas tanto à dimensão material da existência quanto aos fatores situados no modo como o intersubjetivo está estabelecido no cotidiano social. Porém, nem sempre as condições postas implicam num viver sob outra circunstância que não seja o sobreviver sob um conjunto maior ou menor de ameaças. A educação, considerada na perspectiva do direito à formação para a cidadania, e a cidadania, considerada na perspectiva da multiplicação de condições para efetiva participação social e política, não reivindicam liberdade para a interculturalidade nas trocas constitutivas de identidades existenciais? Essa reivindicação não está entre os alicerces para o viver que demanda condições melhores? São perguntas que se apresentam na leitura de Ensinando Fronteiras.


Resenha do livro Ensinando Fronteiras: projetos estatais, representações sociais e interculturalidade, organizado por Adriana Dorfman, Roberto Filizola e Julian Mokwa Félix, publicado pela Diadorim / Letra1 (Porto Alegre, 2021)


Sobre o resenhista:
Nelson Rego
é professor titular no Departamento de Geografia e no Programa de Pós-graduação em Geografia da UFRGS.

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