A face secreta da sombra

Dois misteriosos furinhos em uma porta que atraem os curiosos pelo facho de luz que deles emana. Em volta, uma sombra, uma máscara. Assim começa a história de A parte de sombra na última obra de Marcel Duchamp, de Jean Lancri. Como uma máscara negra, aquela que nos levaria a pensar sobre a misteriosa diferença entre a intenção e a realização de uma obra de arte, como bem lembrou Sandra Rey, no posfácio deste belo livro.

Trabalhar com arte significa trabalhar a partir de privações, de faltas. Um desejo de algo ausente. Da mesma maneira, fazer de seu próprio corpo o sujeito de sua obra significa não parar de registrar as modificações do tempo e, mesmo em um teatro noturno, encenar a proximidade da chegada da morte como negação e afirmação.

“Porque (é preciso lembrar), fotografar é não ver, é não saber completamente o que realmente se captura em uma foto no momento da tomada fotográfica; aliás, criar não é, também, não conhecer com exatidão o que se está criando?”

(p. 68)

Não é esta a angústia que move os artistas? Desejo de se eclipsar, se ocultar, para melhor se mostrar? E eternizar este desejo em uma forma, paralisá-lo em e através da imagem? Conforme Jean Lancri, “na origem do desejo de imaginar, figuraria a vontade de dar uma imagem ao desejo”.

Em literatura, a sombra aparece como metáfora da continuação do visível no invisível. São as aparições espectrais, que pertencem a um reino sombrio, e que nos atormentam. A constituição de um arquivo de sombras de si mesmo, como realizou Duchamp em Étant Donnés, transformou-se assim em um projeto museológico, cuja finalidade seria a de realizar uma obra póstuma como um manifesto que colocasse “em trabalho” uma outra obra oculta. Esta é a tese de Jean Lancri neste pequeno livro composto de 80 notas acompanhadas por um prólogo de Alfredo Jerusalinsky e um posfácio de Sandra Rey, ambos magníficos, que complementam o belo livro.

No fundo estaria a ideia de que a obra confere ao artista o dom da imortalidade. Como diria Anne Moeglin-Delcroix, essa atitude levaria a um aforismo que se resume nos seguintes termos: “work in progress, death in progress”. Isso significaria ir adiante do tempo ao invés de segui-lo, e preparar-se para a surpresa da finitude do corpo, e da morte.

A ideia do livro de Lancri nasceu com uma visita ao museu da Filadélfia, onde a obra póstuma de Duchamp foi erigida no ano de 1969, logo após a morte do artista. Parado diante da porta da instalação, Lancri, o autor do livro, teve uma espécie de insight ao perceber o halo, uma máscara que se revelava, fruto do traço da passagem de inúmeros visitantes do Museu. Era a impressão de suas faces quando eles se apoiavam na porta para contemplar a mulher que no interior se exibia.

A hipótese do autor é a de que a instalação de Duchamp seria uma espécie de armadilha, concebida pelo artista para atrair o espectador para produzir a sombra, que se transformaria em uma obra autônoma. Uma obra aberta, minimalista. Um estranho sudário anunciando a morte, através de um fantasma de corpo, enfim, uma obra pobre como a fotografia.

Tal como uma fotografia, o halo seria um índice, uma impressão cega da luz, um fantasma de origem que nasce às cegas neste contato do observador com a obra. A fascinação recorrente do artista com a morte, e com o desejo de imortalidade, estaria ali revelada em nossas próprias sombras.

O artista, segundo Lancri, nos mostra o quanto é tênue essa membrana que separa a vida e a morte, em um corpo que se apresenta e se ausenta – e marca o desejo de realizar uma obra Este seria, como bem lembra Sandra Rey no posfácio do livro, o “coeficiente da arte”, a diferença entre o que o artista projetou realizar e o que ele realmente realizou. Um livro indispensável, não só para os artistas, mas para todo aquele que se indaga sobre as funções da arte.

Resenha do livro A parte de sombra na última obra de Marcel Duchamp: oitenta notas ou sombras projetadas sobre Étant Donnés, de Jean Lancri, traduzida por Sandra Rey e publicada pela Editora da UFRGS (Porto Alegre, 2019)

Sobre o resenhista:

Eduardo Vieira da Cunha
é artista visual e professor do Instituto de Artes e do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV) da UFRGS.

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