Mais do que falar especificamente das aplicações diretas da madeira na construção e no local geográfico-temporal da Bahia no período colonial, o livro Madeiras de Construção do Período Colonial na Bahia: uso, exploração, venda, destinação e identificação das espécies, de autoria dos arquitetos Karina de Matos de Araújo F. Cerqueira e Mário Mendonça de Oliveira, traz ao leitor um apanhado histórico da questão da madeira como artefato que evoluiu em seus usos e teve diferentes significados ao longo do tempo. O texto, em estilo acadêmico, permite fluidez na leitura sem excessivas referências e citações.
As duas primeiras partes do livro são narrativas que situam o leitor quanto à origem, importância e forma das madeiras, seu uso, sua exploração e venda, bem como seu destino. A segunda parte, formatada em fichas com a identificação das espécies, tem um formato de catálogo para consulta breve, com enfoque técnico e científico.
O livro inicia com um breve, porém abrangente, apanhado histórico da relação entre a madeira e o seu uso pela humanidade. Nas construções, a aplicação da madeira é diferenciada, como dizem os autores, “não somente pela cultura local, como também pelas adversidades do clima e pelo próprio avanço tecnológico da história”. Seu uso é, então, condicionado pelo clima, pelo meio, pela facilidade de obtenção e pelas necessidades.
Os autores fazem uma Importante abordagem em relação à escassez do material em algumas regiões e a vasta exploração das madeiras brasileiras, especialmente no período entre os séculos XVI e XIX – Brasil colônia. Portugal, além da madeira para construção habitacional, necessitava-a para as construções navais e as terras brasileiras prestaram-se a essa exploração.
O objetivo central do livro é um “estudo documental sobre as madeiras da Bahia no período colonial, enfocando o uso, a exploração, a venda, a destinação e as espécies mais usadas nas construções navais e civis no Brasil e em Portugal, com intuito de suprimir quaisquer dúvidas quanto à procedência desses materiais usados nos artefatos que compõem o Patrimônio Cultural baiano” (p. 9).
Os autores investigam as origens das técnicas extrativistas das madeiras, sobretudo a influência europeia na devastação das matas brasileiras. Concluem que a própria exploração em solo europeu ao longo de séculos fez com que a matéria prima daquele continente ficasse rara e com baixa qualidade quando em comparação com as existentes no novo mundo.
“As madeiras brasileiras não tiveram importância apenas na construção da colônia, mas foram intensamente exploradas, não só por contrabandistas de outras nações, como já citado, mas, especialmente, pelo próprio Reino português, devido ao seu grande valor comercial, já que podiam ser utilizadas na tinturaria, na construção naval e nas construções em geral”.
(p. 53)
A pesquisa apresentada avança sobre diversos tipos de documentação dos séculos XVII e XVIII em arquivos brasileiros e portugueses, tais como Cartas Régias, ofícios, decretos, alvarás, regimentos e portarias oficiais em que constam registros do uso e exploração da madeira na Bahia. Essa parte do estudo já vale a leitura, dada a qualidade dos documentos compilados pelos autores.
Percebe-se que o cuidadoso trabalho cumpre seu objetivo de entregar dados de características das madeiras daquele período, cujos pesquisadores, restauradores e profissionais técnicos que trabalham no âmbito do patrimônio edificado e cultural, tanto no Brasil quanto em Portugal, possam utilizar este livro como fonte de consulta, ou ainda, como manual e guia para que as intervenções e os restauros possam ser executados com precisão e acuidade. Assim, essa parte da pesquisa permite subsídios para intervenções pontuais sem trocas ou substituições desnecessárias de elementos executados em madeira nas edificações e nos objetos históricos.
A obra também vale como subsídio para trabalhos de pesquisadores, arquitetos, engenheiros e historiadores que necessitem aprofundar-se e embasar seus trabalhos de construção, restauro e preservação que utilizem este recurso natural, o qual necessita de grande conhecimento para manejo e usos adequados.
A questão da sustentabilidade, associada à madeira, faz com que este material seja novamente retomado como alternativa de material renovável. Seu uso, quando adequado e com conhecimentos e controle sobre sua origem, suas formas de extração e suas aplicações finais adequadas, pode colaborar com a questão ambiental. Entende-se, portanto, que essa obra também possa colaborar com essa área de atuação.
Resenha do livro Madeiras de construção do Período Colonial na Bahia: uso, exploração, venda, destinação e identificação das espécies, de Karina de Matos Araújo F. Cerqueira e Mário Mendonça de Oliveira, publicado pela Editora da UFBA (Salvador, 2019)
Sobre a resenhista:
Ana Lúcia Richter Dreyer é arquiteta e urbanista, mestre em planejamento urbano. Trabalha no Setor de Patrimônio Histórico da UFRGS, atuando em planejamento, projetos e obras para preservação e conservação dos edifícios da Universidade.