Existe um momento certo na vida para aprender? É possível adultos em idade madura adquirirem novos conhecimentos, mudarem hábitos? E como isso acontece? O livro Trajetórias de Adultos na EJA: processo educativo e mudanças bioecológicas, de Fernanda de Brito Kulmann Conzatti e Tárcia Rita Davoglio, pretende responder a essas perguntas, buscando identificar impactos provocados pelo processo educativo formal vivido por adultos maduros.
Partindo do conceito de aprendizagem ao longo da vida, as autoras acompanham de perto as trajetórias de quatro homens adultos, com idades entre 47 e 68 anos, que voltaram aos bancos da escola após um longo período de afastamento. Elas usam a experiência desses sujeitos, seus aprendizados, seus medos, suas transformações, suas histórias para discutirem os sentidos do processo educativo formal de adultos na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A abordagem está centrada no sujeito e em sua trajetória, mas esse sujeito não é encarado como um ser isolado no mundo. Ele é entendido em constante vínculo, social e afetivo, com outros sujeitos e com o contexto que o cerca, numa permanente relação dialética entre pessoa e ambiente.
“As falas apresentadas indicaram que a forma de relacionar-se com o conhecimento na idade madura é diferente daquela vivida na infância/adolescência. Os conflitos a serem solucionados têm uma nova dimensão. Ademais, os sentidos atribuídos à aprendizagem foram outros, na medida em que os contextos e tempos vividos refletiram uma nova realidade e tornaram-se produtos e produtores de um ambiente que influencia e é influenciado pelas práticas dos sujeitos envolvidos”
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As autoras usam a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano (TBDH), de Urie Bronfenbrenner, como ferramenta teórica para evidenciar como a vida escolar dos estudantes se desenvolve em uma rede de relações estabelecidas a partir da integração, permanente e fluida, de cinco sistemas que envolvem a pessoa: o microssistema, composto por família, escola, trabalho; o mesossistema, composto pelas inter-relações estabelecidas entre os microssistemas; o exossistema, que corresponde à vizinhança, aos serviços sociais, aos amigos da família; o macrossistema, caracterizado pelos valores sociais, pelas políticas públicas, pelo Estado; e o cronossistema, que inclui as condições sócio-históricas, os eventos ao longo da vida.
O livro de Fernanda e Tárcia apresenta o argumento de que a experiência escolar e o impacto que ela tem na vida dos estudantes é resultado não somente da escola, de seu projeto político-pedagógico, de seus professores ou do esforço individual dos alunos. Ela resulta das inúmeras relações que envolvem os estudantes nos cinco sistemas.
Por serem os sistemas interligados e pelo fato de os sujeitos não se desenvolverem de forma isolada no tempo e no espaço é que os efeitos do processo educativo e da aprendizagem não se limitam ao sujeito envolvido diretamente neles. Eles potencialmente atingem e modificam também o seu entorno: a escola, a família, o trabalho, a comunidade, etc.
A pesquisa constatou que aspectos externos aos sujeitos educandos foram elementos-chave no desenvolvimento positivo das experiências de retorno tardio aos bancos escolares. Entre eles, estão: o apoio da família e de amigos; o incentivo da instituição de trabalho, que liberou os estudantes mais cedo para frequentarem a escola; o recebimento de bolsa de estudos; a adequação de um horário de estudos compatível à demanda dos estudantes; a possibilidade de aumento salarial após a conclusão do curso; a proposta pedagógica adequada a educandos adultos; as relações de afeto e confiança estabelecidas com professores e demais atores escolares.
Importante destacar que o abandono precoce das escolas pelos sujeitos pesquisados ou mesmo a impossibilidade de acessar a escola na idade regular encontram algumas de suas explicações, novamente, em elementos externos aos sujeitos, como a necessidade de trabalhar muito jovem, a condição de pobreza material das famílias, a falta de infraestrutura escolar, tanto material quanto humana, um contexto histórico de baixa escolaridade na família e ambientes de aprendizagem não favoráveis.
Ao destacarem a condição sistêmica do ato educativo, as autoras evidenciam que educar pessoas adultas requer a compreensão destas e de outras imbricações, sociais e afetivas, no desenvolvimento do sujeito, de forma a oportunizar estratégias pedagógicas adequadas. Dessa forma, elas abrem um diálogo direto com leitores que se interessem pelas práticas pedagógicas que envolvam adultos, inclusive gestores públicos.
Trajetórias de Adultos na EJA: processo educativo e mudanças bioecológicas é fruto de um processo de pesquisa stricto sensu. Ele está composto por nove capítulos, além de uma introdução e de notas de encerramento. Ao longo dos capítulos, as autoras apresentam a pesquisa realizada. Para isso, os capítulos 1 e 2 se ocupam da construção teórica adotada. Ali estão algumas notas sobre a modalidade EJA e a educação de adultos, além de uma discussão teórica sobre idade adulta madura, aprendizagem e processos de desenvolvimento.
Resenha do livro Trajetórias de Adultos na EJA: processo educativo e mudanças bioecológicas, de Fernanda de Brito Kulmann Conzatti e Tárcia Rita Davoglio, publicado pela Editora Appris (Curitiba, 2018).
Sobre a resenhista:
Betânia Cordeiro é jornalista e doutoranda no PPG em Educação da UFRGS na linha de pesquisa Trabalho, Movimento Social e Educação. Estuda processos formativos relacionados à autogestão, ao trabalho associado e à educação popular.