Canção popular brasileira é Literatura, sim!

Uma verdade: a música popular brasileira é forte, é bela, e isso não é novidade!, aponta José Miguel Wisnik nas linhas iniciais do ensaio A gaia ciência: literatura e música popular no Brasil. Agora, o que pode soar como novidade – ainda – é dizer que canção é literatura. Pois sim, canção é literatura! Não é à toa que Elis & Tom, álbum/disco de 1974, está entre as leituras obrigatórias do vestibular da UFRGS.

Em alguns ambientes acadêmicos, entender que canção é literatura, assim, de forma confortável, ainda não é simples. Acredito que uma possível explicação para essa afirmação pode ser encontrada nesse mesmo ensaio de Wisnik, ao dizer que umas das principais características da canção popular brasileira é a permeabilidade entre “cultura alta” e “produções populares”, o que estabelece uma relação escorregadia entre “música de entretenimento e música informativa e criativa”. Devido a essa observação, a canção pode ser vista como um objeto de estudo instável.

“Dizer que música popular brasileira é forte e bela é mais verdade do que novidade”

Em contrapartida, o autor também diz que a música popular do Brasil é uma nova forma da “gaia ciência” de Nietzsche, ao comparar nosso saber poético musical com a grande tradição provençal do século XII, na medida em que afirma que a nossa canção é concebida enquanto um “saber alegre” – agudeza intelectual e “inocência na alegria”. Entenda melhor essa explicação nas palavras de Wisnik: “O fato de que o pensamento mais ‘elaborado’, com seu lastro literário, possa ganhar vida nova nas mais elementares formas musicais e poéticas, e que essas, por sua vez, não sejam mais pobres por serem ‘elementares’, tornou-se a matéria de uma experiência de profundas consequências na vida cultural das últimas décadas”.

Ao apresentar alguns dos principais responsáveis dessa nova “gaia ciência”, Wisnik fala sobre Vinicius de Moraes, aquele que migrou do livro para a canção; Tom Jobim e a bossa nova; João Gilberto e sua dicção, o grão da voz gilbertiana que, conforme Luiz Tatit, influenciou grandes cancionistas brasileiros, como Caetano Veloso, Chico Buarque, Roberto Carlos, Jorge Ben.

Bom, foi justamente a partir desse ensaio de Wisnik que eu entendi que canção é literatura, lá em 2017, o que me levou a redigir um trabalho de conclusão de curso sobre Maria Gadú. Escolhi essa cancionista por quatro grandes motivos: primeiramente, por apreciação pessoal; segundo, porque percebi que quase não se fala em mulheres compositoras, assim como em diversas áreas do mundo artístico, cultural e intelectual, por conta do patriarcalismo; terceiro, porque ela tem grandes influências de Caetano, Chico, Gil, Milton…; quarto, porque se trata de uma cancionista contemporânea.

Eu (e o Brasil inteiro) conheci Maria Gadú por sua canção “Shimbalaiê”. Acredito que por ter um tom de música de entretenimento, acabou entrando na chave da produção midiática, o que levou a compositora à fama. Bom, gostei da canção, acompanhei todos os álbuns desde 2009 até 2015. Quando decidi estudar Maria Gadú, em 2018, voltei em suas canções e percebi um grande grau de evolução e maturidade ao ponto de compreender que suas canções eram literatura.

A primeira percepção que tive ao reouvir suas canções foi: Maria, na verdade, sempre esteve, também, na chave da música informativa e criativa, pois no mesmo álbum de “Shimbalaiê” estava “Dona Cila”, canção que se tornou objeto de estudo do meu TCC, junto com “Vaga” e “Tecnopapiro”, ambas do álbum Guelã, de 2017.

Para Wisnik, “a relação entre canção popular e literatura, no Brasil, se ela de fato existe como atração magnética numa parte respeitável dessa produção, não se deve a uma aproximação exterior em que melodias servem de suporte a inquietações ‘cultas’ e letradas, mas à demanda interior de uma canção que está a serviço do estado musical da palavra, perguntando à língua o que ela quer e o que ela pode”.


Resenha do livro A gaia ciência: literatura e música popular no Brasil, de José Miguel Wisnik, publicado pela Oca Editorial (Lisboa, 2019)

Sobre a resenhista:

Carla Tassinari é licenciada em Letras Português, Inglês e Literatura pela Universidade Feevale. Cantora, compositora, poeta, feminista e professora, faz Especialização em Literatura Brasileira pela UFRGS.

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