Vivências de autores com deficiência visual

Iniciarei esta resenha deixando uma questão clara: não serei nada imparcial na análise desta obra. Portanto, este texto, muito mais do que uma análise literária, se constituirá em um relato de emoções que a leitura me despertou.

Mas acredito que esse aviso é redundante. Afinal, não consigo imaginar outra forma de escrever sobre o livro Histórias de Baixa Visão. É uma obra produzida com a emoção de quem vivencia a experiência do mundo por meio de novas percepções, que não apenas a visual. Logo, o livro é isto: uma coletânea de narrativas carregadas de subjetivismo, de despertares, de reflexões.


“O principal objetivo deste livro, além de dar voz a cada um dos 23 autores, é divulgar a questão da baixa visão e suas infinitas possibilidades e características”.


Mariana Baierle, organizadora do livro

Gostaria de fazer um relato pessoal ilustrando como são os autores e sua relação com o tema. Em uma noite, fui com Mariana em uma escola de Jovens e Adultos de Porto Alegre, o CMET Paulo Freire, para conversarmos com os alunos sobre o livro. Uma aluna perguntou sobre a bengala verde, e Mariana deu uma aula expositiva sobre o tema, mostrando sua importância para o deslocamento, o motivo de ser verde e situações inusitadas que a bengala não conseguia evitar, como uma janela aberta, um galho baixo ou um buraco na rua não percebido no tocar da bengala. E ia falando, caminhando com a bengala, e os alunos impressionados.

Este momento, que aliou conhecimento, experiências e sensações, é o que perpassará nas vinte e três narrativas, sendo vinte delas escritas por pessoas com deficiência visual, cegas ou com baixa visão, dois especialistas da área e uma mãe de um rapaz com baixa visão, o Jean Luc. Os contos são distribuídos em cinco partes, organizados pelo teor predominante dos textos.

Estava tão empolgado em apresentar as minhas sensações do livro que me esqueci de descrevê-lo. Mas, para quem vai lê-lo, isso não é esquecido. Rafael Martins, Rafael Braz e Mariana fazem uma bela descrição nas primeiras páginas, apresentando o projeto gráfico do livro. Eu vou apenas citar o início, para dar uma ideia:


“A capa, a contracapa, as orelhas e a lombada do livro Histórias de Baixa Visão apresentam o verde escuro como cor de fundo. Do topo para a base, a tonalidade do verde fica gradualmente mais clara. Todos os textos estão escritos em cor branca, ressaltando o contraste com o fundo verde e facilitando a leitura. A cor da capa foi escolhida pelos autores para fazer referência à bengala verde, instrumento de orientação e mobilidade que está sendo difundido no Brasil e em outros países e que pretende identificar as pessoas com baixa visão que a utilizam.”

Passando aos textos, na parte I – Descoberta e Ressignificação da Baixa Visão – temos seis narrativas que abordam os desafios enfrentados e os percursos da perda de visão. Os relatos fizeram-me admirar André pela sua resistência ao professor e por compartilhar – com Renato, Gabriel e Maicon – suas superações; imaginei-me na sala de exames de vista com Rafael e participei das descobertas de Paola, mãe de Jean Luc.

Na parte II – Trajetórias– são cinco narrativas que nos levam a perceber como vai se constituindo uma forma de viver onde as percepções e os sentidos são reestruturados, reelaborados, explorados para a superação da perda, total ou parcial, da visão. São emocionantes as vivências pedagógicas trazidas por Adilso e Eliane e as trajetórias percorridas por Regina, Raquel e Rita de Cássia, mostrando os desafios enfrentados desde a infância.

Na parte III – O uso da bengala: entre a negação, a aceitação e a autonomia –, Franciele, Marilena e Mariana colocam um debate presente, e ainda não consensual inclusive, entre pessoas com baixa visão sobre a importância da bengala verde e seu uso como reconhecimento social e ajuda na autonomia das pessoas com baixa visão. Além da bengala, a audiodescrição, o braille, os leitores de tela e, fundamentalmente, a interação e a troca de informações com outras pessoas com deficiência visual são possibilidades que se abrem para uma maior inclusão social.

Na parte IV – Episódios difíceis, cômicos ou inusitados com a baixa visão–,temos sete narrativas que apresentam um pouco do dia a dia dessas pessoas que conseguem transformar os contratempos diários em aprendizados. Viajei para Boston com Filipe, me encantei com Ariane e sua paixão pelas leituras, fiquei feliz com a libertação de Grazieli, angustiado com a experiência de Adenirce, refleti com Gilberto, vi-me sorrindo com a história de Rafael e senti muito entusiasmo com os ensinamentos fotográficos de Teco.

E, finalmente, na parte V – Além do que não se pode ver e ouvir: baixa visão e as intersecções com a surdocegueira –, temos o relato das experiências pedagógicas de Fernanda e Heniane, que são duas estudiosas na área e que trabalham com essa temática em suas vidas profissionais e acadêmicas.

São vinte e três narrativas que trazem as estratégias criadas e as particularidades apresentadas para que a deficiência visual não apenas seja vencida, mas, principalmente, se torne uma possibilitadora de novos olhares e novas sensações. O livro, portanto, deve ser lido sem pressa, apreciando-se cada relato, pois não raro são coincidentes, mas muito particulares, e a riqueza está nisso, nessas reações e reflexões que são trazidas e que foram vivenciadas, foram percebidas, tornando-o único e rico de ensinamentos.

Resenha do livro Histórias de Baixa Visão, organizado por Mariana Baierle e publicado pela Editora CRV (Curitiba, 2018)

Sobre o resenhista:

José Luiz Machado é servidor técnico-administrativo da UFRGS e mestre em Engenharia de Produção.

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