Diário de um câncer de mama

O que significa ter uma resposta resiliente a um evento adverso? Significa ser capaz de enfrentar uma situação difícil de forma positiva, não desconsiderando o risco vivido, mas aproveitando as oportunidades e ensinamentos que essa situação traz. Esta resenha trata disso e sobre como essa forma de reagir a uma situação negativa é muito variável para cada indivíduo – e sobre o quanto mergulhar na experiência do outro permite ao leitor refletir sobre si.

Do peixe ao lindo brinde: enfrentando um câncer de mama é uma espécie de diário que narra a trajetória da autora desde a descoberta de um câncer de mama até o final de seu tratamento. É um livro que não esconde seus marcadores sociais: gênero, classe, nível educacional. A autora é professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Denise Ruschel Bandeira. 

Apesar da formação, não há nada que indique que Denise esteja aplicando na própria vida princípios da Psicologia da Saúde. E ainda assim, é isso que inadvertidamente ela relata. A resiliência é frequentemente empregada em situações de doença, e envolve a aceitação da condição, a adesão ao tratamento e a adaptação às mudanças.

“De início, não sabia onde isso iria parar, mas era mais forte que eu. Então resolvi deixar fluir. Continua sendo mais forte, necessário. Dizem que auxilia no enfrentamento da doença. Mas não é algo que eu tenha “me receitado”. Para mim está sendo assim: só sentar e escrever. Faz bem. Dizem também que o livro fará bem a pessoas que estejam enfrentando tudo isso.”

(p. 48)

O livro demonstra a força e ao mesmo tempo a gentileza da autora para consigo mesma ao longo do processo. Saber “ouvir o próprio corpo”, “valorizar o ser mulher”, “aprender a tolerar a espera” são alguns dos subtítulos do texto que dizem muito sobre a capacidade de se observar e se aceitar nessa nova configuração. 

O processo de elaboração do livro parece tratar-se de uma “cura pela escrita”, ao invés da “cura pela fala”, proposta por Freud. Em um momento a autora menciona a satisfação de poder perder os cabelos sozinha em um hotel durante uma viagem de trabalho e elaborar esse momento sem outros por perto. A protagonista consegue se divertir com as mudanças corporais e encontrar sentidos para o processo de adoecimento.

Na apresentação do livro, a autora supõe que o leitor seja uma leitora, em função da temática do câncer de mama. Possivelmente sem perceber, a narrativa coloca a leitora (embora eu particularmente recomende o livro aos leitores do sexo masculino também) numa posição de comparação. Ao acompanhar a forma direta de Denise se conduzir no processo de investigação e tratamento do câncer, “fazendo o que tinha que ser feito”, a leitora se questiona: será que eu faria da mesma forma? 

O modo de enfrentar uma doença é algo muito íntimo e peculiar. A autora ressalta que não se considera um modelo a ser seguido e a narrativa é realmente isso: um relato do vivido, com algumas sugestões. No entanto, a clareza e objetividade do pensamento da protagonista são comoventes. Em um momento, diz se sentir “em uma cancha reta”, não sendo permitido olhar para os lados. 

A razão para essa corrida focada parece ser o apreço pela vida, que curiosamente se mostra também no processo de adoecimento e tratamento. Ao invés de evitar ou negar os sentimentos desagradáveis, Denise os relata e segue buscando outros momentos prazerosos, respeitando o corpo e a si mesma no processo. 

O câncer, que já foi palavra tabu, aparece com naturalidade no livro, que em nenhum momento se torna piegas ou autoindulgente. Ainda que seja um livro autobiográfico, e não um guia de enfrentamento à doença, ele é uma bela forma de a leitora/ o leitor compreender e até se preparar para a doença. Seu maior benefício é trazer à discussão um processo geralmente ocultado ou excessivamente dramatizado.

Resenha do livro Do peixe ao lindo brinde: enfrentando um câncer de mama, de Denise Ruschel Bandeira, publicado pela Metamorfose (Porto Alegre, 2020)

Sobre a resenhista:

Denise Balem Yates
é psicóloga, doutora em Psicologia e coordenadora executiva do Centro de Avaliação Psicológica e do Programa de Orientação a Práticas Parentais da UFRGS.

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