A ditadura militar não só influenciou a sociedade após a década de 1980 como também teve grande influência sobre a história da Educação Física como disciplina escolar e como ciência. Atualmente a discussão e a reflexão sobre o período de autoritarismo e repressão por que passou o Brasil entre os anos 1964 e 1985 se tornam novamente recorrentes, uma vez que manifestantes e governantes defendem o regime vigente nesse período como exemplo a ser seguido.
A obra de Marcus Aurelio Taborda de Oliveira é muito mais que um livro de relatos, ele faz um levantamento acadêmico muito rico em informações sobre a história da Educação Física Escolar e as influências que sofreu da ditadura civil-militar no Brasil. Por ser escrita por um acadêmico, a obra aborda de forma incansável e com muito aprofundamento histórico e filosófico a história dessa disciplina. Assim como eu, o autor não é formado em Educação Física, mas como um bom cientista e historiar ele utiliza métodos que permitem seu aprofundamento na área.
O livro se divide em três partes bem definidas: (1) a primeira apresenta de forma sistematizada o conhecimento levantado sobre a Revista Brasileira de Educação Física e Desporto – o autor faz uma profunda análise do que foi publicado durante o período da ditadura nesse periódico (que é uma publicação oficial do Ministério da Educação e Cultura); (2) na segunda parte, o autor faz uma abordagem quase antropológica para nos colocar frente a memórias e relatos dos professores, respeitando a estética, a ideologia, a missão e as aspirações destes e fazendo um paralelo aos dados já trabalhados na revista; (3) por fim, mas não menos importante, a terceira seção, que foi, possivelmente, o momento de maior imersão: o autor traz outros estudos e faz, com uma escrita muito mais leve e sensível, uma boa discussão sobre o tema. O livro é finalizado com um capítulo sobre futebol e ditadura que é, para mim, um dos melhores.
De forma objetiva, na primeira parte, declarada pelo autor como uma crítica acadêmica, descobrimos que as publicações da Revista Brasileira de Educação Física e Desporto são ricas em conhecimento e detalhamento, sendo voltadas à aptidão corporal e à manutenção da saúde individual. Ainda hoje há, dentro da educação física, discussões sobre a área: alguns defendem uma visão epistemológica mais voltada à cultura corporal do movimento em sua forma global (esportes, desempenho, participação e escola), e outros se voltam para a área social, priorizando muito mais o conhecimento teórico (sociologia do esporte, antropologia do corpo e métodos pedagógicos teóricos da Educação Física na escola). A discussão é longa e se aprofunda nas raízes epistemológicas da área. Para o autor, a educação física escolar estava muito mais voltada à detecção de talentos e ao cultivo da aptidão física, com objetivo de desenvolver atletas que se sobressaíssem, fazendo uma boa propaganda do regime.
Pelos estudos apresentados na última parte, fica evidente a importância que os governos militares atribuíam ao avanço no esporte, principalmente ao futebol, que seria o grande esporte nacional. Para isso, a “ditadura militar ajudou a inventar tradições ou a afirmar tradições inventadas”, fortalecendo muitos clubes para uma dimensão de grandeza e tradição.
Pelos estudos apresentados na última parte, fica evidente a importância que os governos militares atribuíam ao avanço no esporte, principalmente ao futebol, que seria o grande esporte nacional. Para isso, a “ditadura militar ajudou a inventar tradições ou a afirmar tradições inventadas”, fortalecendo muitos clubes para uma dimensão de grandeza e tradição.
Sugiro calma aos que enfrentarão este livro de mais de 400 páginas, pois é uma leitura acadêmica: interessante, mas muitas vezes arrastada. O autor apresenta várias referências e discute com maestria todas as fontes – ao meu gosto há quase um excesso de citações diretas, o que deixa muitas vezes a leitura travada. Contudo, por ser muito bem escrita, a leitura da obra flui. Conhecer a história e como ela influenciou o que somos e sabemos hoje é fundamental para vivermos em uma sociedade justa e plural.
Resenha do livro Educação física escolar e ditadura civil-militar no Brasil (1968-1984): entre a adesão e a resistência e outros estudos, de Marcus Aurelio Taborda de Oliveira, publicado pela Editora da UFPR (Curitiba, 2018)
Sobre o resenhista:
Emmanuel Souza da Rocha é fisioterapeuta pela Unipampa e doutorando em Ciências do Movimento Humano pela UFRGS