Entre liberais e conservadores, revolucionário?

Liberal, conservador, revolucionário, totalitário, nacionalista etc. são todos chavões utilizados em muitas explicações sobre o pensamento de Hegel. Isso ajudou a gerar uma confusão generalizada a respeito da própria filosofia hegeliana. Por exemplo, a longa censura ao filósofo no século XX, derivada da acusação de ser fonte teórica do nacional-socialismo. Felizmente isso parece ter chegado ao fim, mas aparentemente sem que com isso sumisse a utilização dos velhos chavões. Isso é sentido nos trabalhos recentes sobre o autor, que, na sua maioria, ou reivindicam a posse da “verdade” do pensamento de Hegel, ou tentam torná-lo up-to-date. Em meio a isso, muitas versões de um Hegel conservador e de um Hegel liberal surgiram. Domenico Losurdo pretende fugir dessa polaridade em Hegel e a liberdade dos modernos.

O autor pretende apresentar uma versão não simplificadora de Hegel e faz isso articulando um rico material teórico. Com isso, tenta mostrar a singularidade do pensamento hegeliano frente a diversos outros pensadores da tradição filosófica. O problema é que, com isso, parece conduzir às vezes a caricaturas desses outros pensadores: um Burke com tendências autoritárias; um Locke socialmente insensível. Na tentativa de mostrar a complexidade teórica que marca a filosofia de Hegel, Losurdo acaba por simplificar a de uns tantos outros.

Poderíamos pensar que essa seria uma tentativa de afastar quaisquer leituras dualistas sobre Hegel. Contudo, e isso já era de se imaginar pela filiação de Losurdo, a tentativa é a de complexificar as nuances teóricas do próprio socialismo. A adoção hegeliana por tal programa é a tese a que Losurdo, com muita sutileza, nos conduz. Aquilo que parecia inicialmente ser a tentativa de elucidar um pensamento filosófico específico se revela ser a de mostrar as complexidades de um programa teórico-político amplo. O pensador complexo que foi Hegel aparentemente ajudaria nessa tarefa.

Talvez a interpretação que Losurdo possui da tese hegeliana da realidade do racional e da racionalidade do real seja a mais significativa nesse sentido. Essa tese, que foi acolhida sob diferentes perspectivas tanto pela ala “progressista” quanto pela “conservadora” dos primeiros hegelianos, é, segundo Losurdo, “odiada pelos reacionários e malvista também pelos liberais”, mas “encontra acolhida favorável ou entusiasta no campo revolucionário”.

A razão disso é que o autor enxerga, tanto em “reacionários” quanto em liberais”, o que chama de “recusa do moderno” e “culto a heróis”. Isso representaria a valorização de um tempo que se passou em detrimento do tempo atual e sua realidade socialista cada vez mais possível. Diferente daquela nostalgia, a tese da unidade entre racional e real legitimaria a tentativa de efetivação dos ideais que pairavam sobre certa época. Essa tese, segundo Losurdo, “é parte integrante da preparação ideológica do 1848”.

“Naturalmente, a tese hegeliana da unidade entre racional e real se manteve no âmbito da tradição de pensamento que se originou com Marx apenas na medida em que permaneceu de pé o difícil equilíbrio entre legitimidade do moderno e balanço crítico da modernidade, que é característico de Marx e que ele claramente herdou de Hegel.”

p.376

Em diversos momentos, o autor parece conceber tanto liberais quanto conservadores como concorrentes no interior do mesmo programa, a saber, um programa antirrevolucionário. Isso nos indica que os argumentos de Losurdo, na verdade, não se diferem daqueles concebidos pela ala progressista dos primeiros hegelianos, com adeptos como Karl Marx e Ferdinand Lassalle, ambos citados pelo autor de forma bem positiva.

De modo geral, então, tudo isso permite ao leitor questionar se o procedimento a que Losurdo nos conduz passa ao escrutínio de sua própria intenção, qual seja, a de apresentar uma versão não reducionista da filosofia de Hegel. Sua contribuição com isso parece ser mais bem encarada se a entendermos como uma defesa de uma perspectiva específica a respeito do papel da filosofia hegeliana no interior de outra tradição, ou seja, daquela mais amplamente difundida por Marx.


Resenha do livro Hegel e a liberdade dos modernos, de Domenico Losurdo, publicado pela Boitempo (São Paulo, 2019)

Sobre o resenhista:

Luiz Filipe da Silva Oliveira é mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora e doutorando em Filosofia na UFRGS. Dedica-se a pesquisas sobre ontologia e subjetividade na Filosofia Clássica Alemã.

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