Falando sobre afrobolivianidades

Tio Juanchín, Tia Raymunda, Tio Vicente, awincho Chan-Chan… Entre piqchadas de folhas de coca, caminhos percorridos na Tocaña e experiências pessoais da negritude, podemos reconhecer as diferenças, identidades e modos de existência afrobolivianos que estão para além da epiderme? De minha parte, vejo que as construções coloniais de raça, desde a plantation até os dias de hoje, só produziram esquemas de dominação nos quais as diferenças e os modos de ser, contrários ao ideologema racial, foram impedidos de falar sobre si, de expressarem seus modelos perceptivos e afetivos.

Neste sentido, Luis Fernando de Jesús Reyes Escate vem apresentar as narrativas que questionam os modelos raciais desde uma perspectiva que leva em conta os encontros, tanto os do próprio antropólogo – ao reconhecimento de sua afroperuanidade – como as possibilidades de devir, de fluxos identitários, que não possuem começo nem fim. Por isso, Negros Devires: seguindo as trajetórias de negritudes materiais na Bolívia pode ser lido no âmbito de uma abordagem que valoriza a experiência pessoal e seus efeitos sobre a Antropologia.

Aportando diferentes momentos de sua vida, desde a infância à academia, e, por sua vez, enquanto pesquisador do que é ser negro?, Luis, em sua narrativa, produz uma interessante incursão ao interior da Bolívia, buscando mostrar o que é “estar em campo” – fato crucial para a Antropologia –, no esforço em deslocar-se de uma posição estrita de pesquisador (que ele não deixa de ser) para uma forma de interlocução que o toma enquanto aliado das negritudes.

Postura, diga-se, já largamente acionada em diferentes estudos e vivências antropológicas: Luis enfrenta, “em campo”, o clássico “familiarizar o estranho” e “estranhar o familiar”. Disto, o autor não foge em nenhum instante. Porém, os fluxos de negritudes (que, para mim, vão além dos “materiais” que ele evoca) só podem provocar outros devires, outros fluxos, caminhos reversos da percepção racializada.

Podemos, neste livro, reconhecer possibilidades políticas de resistência e de luta pela negritude? Sim, principalmente nas pessoas interlocutoras da pesquisa, que traçam os caminhos, tecem as redes de conexões por onde passa Luis, o jovem afroperuano que vai sendo afetado por esses encontros, pelos movimentos e mensagens que o cotidiano e as pessoas o indicam/convidam.

Nas diferentes afecções possíveis, pelos devires, na leitura, as falas das pessoas nos brindam: lembrando os tios e as tias com quem o autor conviveu durante um tempo e que, a meu ver, são o cerne do livro, vemos que, por exemplo, ao falar com a Tia Marta sobre essencialismos raciais, Luis toma a seguinte resposta: “Tu achas que os negros têm que ser de uma maneira só?”. Ainda, do Tio Juanchín, recebe a seguinte interpelação: “…nós também podemos ensinar, não é?”.

Mas o relato mais impressionante e potente vem de Tio Vicente:

“Os negros… a primeira vez que eles chegaram na Bolívia, foram trazidos como escravos da África… Então, em 1825, com a independência da Bolívia, todos os negros e índios foram libertados. Foi assim que as pessoas negras que trabalhavam nas minas procuraram se mudar para outros lugares… em 1852, com a reforma agrária, quando nos tornamos livres mais uma vez, a Tocaña se tornou nosso pequeno canto da África na Bolívia.”

p.92-3

Luis sugere que o intermédio da relação que construiu junto aos tocañeros na Bolívia se deu pelo seu corpo, mas, ao referir seu sobrenome Reyes, os negros de Tocaña logo o familiarizaram, pois muitos ali possuem o sobrenome Rey, afirmando, portanto, uma negritude, uma proximidade que o tornou um “igual, mas diferente”, o que, certamente, vai além da corporeidade.

Embora o autor tenha apreendido importantes relações e narrativas sobre as categorias sociais, raciais e políticas, de uso recorrente nas interpelações do chamado Estado plurinacional Boliviano – deposto, no ano de 2019, numa manobra que envolve setores da elite local e de outros países, membros de igrejas neopentecostais e (para)militares contra os povos indígenas (maioria na Bolívia) –, a insígnia da Nação e o ideologema da raça são de difícil desconstrução, tanto lá quanto cá. De nossa parte, perguntaremos: que aprendizagens são possíveis ao vermos as diferenças não como opositivas mas, sim, como construtivas, potentes?

Por fim, podemos aportar ao livro várias reflexões e críticas, tanto teóricas como da realização da etnografia, o que, por sua vez, não diminuem as valiosas narrativas trazidas pelas/os interlocutoras/es do autor. Elas sugerem que uma importante constatação – a de que “não se trata de ser… mas de devir” (p. 115) – evoca, ao invés da identidade pura e concreta, os fluxos de diferenciações que não tomam modelos fixos. Assim, vamos apreendendo, com os tios e as tias, para além da etnografia, os negros devires.


Resenha do livro Negros Devires: seguindo as trajetórias das negritudes materiais na Bolívia, de Luis Fernando de Jesús Reyes Escate, publicado pela Editora da UFRGS (Porto Alegre, 2018)

Sobre o resenhista:

João Daniel Dorneles Ramos é cientista social, mestre em Sociologia, doutor em Antropologia Social (UFRGS) e pesquisador-ativista junto a coletivos afro-brasileiros, religiosidades de matriz africana, quilombolas e coletivos ameríndios.

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