Informação gerada no passado acessível no presente

Se não existisse memória, todo o processo de acúmulo do conhecimento estacionaria permanentemente na fase da aquisição. A memória dá o sentido de identidade, pois, ao sabermos o que fomos, confirmamos o que somos, dando-se a noção de continuidade.

A obra Memória: interfaces no campo da informação traz um conjunto de 10 artigos que tratam dos conceitos e das relações entre memória, informação e Ciência da Informação. Organizada com a contribuição de pesquisadores em torno do tema, evidencia a profunda imbricação entre memória e informação. A apresentação fica a cargo do renomado pesquisador Rafael Capurro.

Se o que interessa para a Ciência da Informação é a informação registrada, a memória é, por sua vez, o passado registrado, o qual nos confere a identidade.

“A subjetividade nos processos informacionais, já que não é possível nem ao emissor (quando for humano), nem ao receptor estar desvinculado das emoções, torna a informação, a partir dessa ótica, um produto exclusivamente humano e, portanto, um artefato.”

p.62

Os textos trazem algumas luzes para bibliotecários, arquivistas, museólogos e cientistas da informação refletirem sobre as questões sociais que os cercam e, acima de tudo, sobre a relevância da intervenção desses profissionais nos debates sociais – em especial na memória explicitada nos documentos que denotam as escolhas, os apagamentos, os silenciamentos e as relações de poder.

As aproximações conceituais entre memória e Ciência da Informação são relativamente recentes, datadas do século XX. Assim, a “Ciência da Informação que se ocupava apenas com documentos científicos passa a ter um interesse nos objetos produzidos no cotidiano das relações sociais: cartas, fotografias, filmes, esculturas religiosas…” (p. 55).

Os textos dão um enfoque para a categoria da memória social, a qual se entende por“textos com foco nos registros da informação como memória socialmente construída, representada e compartilhada por um grupo, estejam eles institucionalizados ou não” (p. 97).

Alguns artigos versam sobre estudos, pesquisas e a relevância do tema, constatando um aumento significativo dessa abordagem nos últimos anos.

A memória tem características multifacetadas e polissêmicas tendo distintas conotações de acordo com as áreas do saber. Na História, vista como um fator identitário de um povo, de uma comunidade. Na Arquitetura, associada à ideia dos monumentos comemorativos; na Neurociência, como faculdade do cérebro que conserva e reproduz conhecimentos; nos Estudos Literários, narrativas que compilam fatos vividos pelo autor. Na Ciência da Informação, seriam informações passadas que, analisadas sob uma perspectiva de tempo, podem ser ressignificadas no presente.

Há, portanto, dois conceitos – memória e informação – que ocupam lugar central na base da fundamentação teórica da área disciplinar da Ciência da Informação.


Resenha do livro Memória: interfaces no campo da informação, organizado por Eliane Braga de Oliveira e Georgete Medleg Rodrigues e publicado pela Editora da UnB (Brasília, 2017)

Sobre a resenhista:

Patrícia Saldanha é bacharel em Biblioteconomia, mestranda no PPG em Ciência da Informação da UFRGS e atua com os temas de narrativas, memórias e feminismo.

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