Mulheres em movimento no passado e presente

De leitura agradável, o ensaio de Carla Rodrigues é bastante simpático. Carla é filósofa, professora de Ética da UFRJ e pesquisadora de epistemologias feministas. O feminismo apresentado no texto é histórico, crítico, vasto, plural, com a presença de mulheres guerreiras brasileiras, que são invisibilizadas na História do Brasil.

O texto de abertura apresenta uma historiografia não linear. Segundo Carla, a invisibilidade das mulheres na História promoveu a produção de uma “historiografia própria”, “fazendo do ato de contar a própria trajetória um ato de resistência” (p. 11). Por meio de fios de condução, retoma muitas protagonistas. O primeiro é o das #Resistências (formato utilizado pela autora) das mulheres negras contra a escravidão.  Neste, destacam-se: Luiza Mahin, uma das líderes da Revolta dos Malês, de 1835; Tereza de Benguela, rainha escravizada e líder do Quilombo Quariterê; Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Lelia Gonzalez; mulheres negras de coletivos como Slam das Minas, selo editorial Feminismos Plurais.

“Feministas são vastas quanto os oceanos e estão em permanente movimento para reduzir os continentes masculinos de poder. A história da política feminista respira por estas ondas que se erguem, acumulam, quebram e varrem. A força dos feminismos está na sua dialética infinita como horizonte”.

(p. 62)

No fio seguinte, #Escrever, Editar, Publicar, Carla destaca a publicação de textos feministas no Brasil. Entre as protagonistas, estão: Nísia Floresta, com a tradução da obra histórica de Mary Wollstonecraft, Direitos das mulheres e injustiça dos homens; Rose Marie Muraro, autora e editora de muitos livros sobre a temática das mulheres; Heloisa Buarque de Holanda, Danda Prado, Maria Amelia de Almeida Teles, Guacira Lopes Louro.

No terceiro fio, #Internacional e Decolonial, a autora afirma ser importante um olhar crítico sobre nossos conhecimentos, fontes, referenciais, para não ficarmos em uma condição de dependência intelectual e não negligenciarmos os próprios saberes. No último fio, #Construção e Desconstrução do Conceito de Gênero, Carla reflete acerca dos avanços e limites da categoria gênero e apresenta autoras e suas contribuições para pensar esse percurso, além dos desafios dentro e fora das universidades, pesquisas, áreas do conhecimento.    

No segundo ensaio que compõe a obra, a autora afirma que as mobilizações feministas de 2015 são parte da quarta onda feminista. Segundo ela, as ondas não são inteiramente novas ou independentes, são forças históricas e vivas. Como protagonistas estão as mulheres negras, lésbicas, trans, intelectuais; integrantes da Primavera das Mulheres, da Marcha das Vadias, da Marcha das Mulheres Negras e da Marcha das Margaridas e protagonistas do #foratemer e #ficaquerida.

Carla constrói uma metáfora das ondas do mar: “São movimentos que começam a subir a partir da calmaria instável para se lançar contra a dureza da misoginia, da violência, do preconceito velado; ora submerge, ora volta à superfície” (p. 40). As ondas feministas modificam-se diante do que chama de plasticidade do machismo no Brasil. Apresenta como desafio permanente a construção de alianças entre os feminismos e entre as gerações e cita o exemplo da França, que viu a aproximação entre marxistas e pós-estruturalistas, “ambas correntes reconhecendo que as diferenças de abordagem não são maiores do que as proximidades. Pensar o sexo como discurso, como fazem as pós-estruturalistas, não impede que se acrescente a isso a percepção das marxistas de que gênero, raça e classe e lugar de origem são marcadores de discriminação e também se sustentam em um discurso hegemônico”. (p. 60).

No decorrer das considerações finais estão presentes reflexões sobre a palavra “problema”. Segundo a pesquisadora, as mulheres são, historicamente, causadoras de problemas ao questionarem as desigualdades da ordem instituída. “As democracias representativas são hoje, na sua grande maioria, oligarquias sustentadas sobre a ideia de que há uma diferença clara e distinta entre quem pode ser governado e quem pode governar” (p. 66). Carla retoma a ideia de Judith Butler de uma ontologia do corpo, uma espécie de distribuição desigual da precariedade da vida a partir do gênero, da raça, da classe e da sexualidade. Para ela, a violência estatal escancara a ideia de corpos que merecem viver e corpos que merecem morrer, e estes últimos são corpos de mulheres, gays, lésbicas, pessoas trans, jovens negros, entre outras. Carla dialoga com outros autores e nos auxilia a pensar os desafios para uma democracia real ou, como afirma Butler, radical.

Ter contato com os ensaios de Carla foi uma experiência instigante por se tratar de uma importante pensadora do feminismo no Brasil, e por sua obra proporcionar uma maior visibilidade da vida e das contribuições de importantes mulheres brasileiras. Sua linguagem é fluída e nos proporciona uma compreensão da história do feminismo no Brasil e seus desafios. 


Resenha do livro Breve História Crítica do Feminismo no Brasil, de Carla Rodrigues, publicado pela Oca Editorial (Lisboa, 2019)

Sobre a resenhista:

Camila Tomazzoni Marcarini é professora formada em Letras, atualmente doutoranda do PPG em Educação da UFRGS. Estuda temas como universidade, feminismo, formação humana, ética e política.

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