O prazer feminino é uma revolução

A masturbação e o prazer feminino ainda são tabus nas conversas, nas escolas, no cinema e também na literatura. Não é à toa que a maioria dos livros pouco aborda a temática. Não é à toa, também, que, ao começar a ler no ônibus Clitória, escrito por Adriana Mondadori, senti a pressão de estar naquele ambiente com um texto que se pode considerar disruptivo, mesmo que ninguém tenha falado algo.

Em uma obra chamada Descentramentos/Convergências Ensaios de Crítica Feminista, de Rita Terezinha Schmidt, que já li há mais de ano, percebi (com espanto, por não ter percebido antes) o quanto as personagens femininas são apagadas e silenciadas. A vida sexual e o desejo dessas mulheres, assim como a intelectualidade e outros tantos aspectos complexos de nossa existência, praticamente não existem nos enredos. Em Clitória, entretanto, tive a oportunidade de conhecer uma narrativa sensível, delicada, deliciosa e, sobretudo, real sobre sexo, orgasmo, masturbação, cuidado e autoconhecimento.

“Quanto tempo dura o orgasmo? O que sentimos?
Dizem que são segundos, e a sensação incorpórea é indecifrável.”

Com 35 poemas e ensaios, a obra precisa ser lida no ônibus para provocar a estrutura social que silencia o feminino, mas também em voz alta, na quietude do quarto, em um momento íntimo de reflexão. A fluidez das palavras combina em tudo com a sensualidade do corpo e a sensação de êxtase provocada pelo prazer. Além disso, as diversas metáforas feitas com as flores – a flor que dá nome à obra, segundo a autora, é de origem asiática e desperta a libido de quem a contempla – conferem a esse momento, por tanto tempo e ainda condenado, beleza e naturalidade. É um outro jeito de olhar, um contraponto necessário ao conceito de pecado que paira sobre uma prática tão humana.

O livro também apresenta alguns elementos da poesia concreta em que o ritmo da leitura conversa com a imagem visual formada pelas palavras.

Os poemas são acompanhados de ilustrações, igualmente delicadas, de traços finos. Em muitos deles – diferentemente das tantas imagens grotescas, criadas pela pornografia, que temos de sexo, em que a violência parece ser a chave para o orgasmo feminino, o que não se confirma na realidade –, o prazer é representado como uma construção; o prazer é a sensação de estar em casa, é a conexão entre a natureza humana e o ambiente, entre os(as) parceiros(as). Mas o prazer também é potente, selvagem, transformador. “A tarde chegara com a garoa escabelada pelo vento entre a infinitude das equações, os tensos fatos históricos e os tênis espalhados no tapete beijavam e despiam” é um trecho do poema Defloração.

No prólogo, que em Clitória se intitula Preliminares, Adriana conta que os ensaios surgiram “de rodas de conversas permeadas por cafés, vinhos e morangos, risos e rosas, lágrimas e aromas femininos”. Ela ainda diz que “escrever sobre uma sensibilidade única e múltipla, néctar, originada de várias formas, explicar o inexplicável, foi uma descoberta incrível”.

A capacidade de nomear sentimentos e sensações tão profundos e até hoje tão pouco explorados é o grande mérito da obra. Ler Clitória foi um momento de apreciar a cadência das palavras, entender o ritmo que elas produzem ao serem verbalizadas, como elas podem representar o movimento do corpo da mulher. Foi, da mesma forma, um momento de parar, refletir e valorizar a sexualidade feminina e de pensar como isso pode contribuir para a formação e o empoderamento revolucionário de uma mulher.


Resenha do livro Clitória, de Adriana Mondadori, publicado pela Editora Metamorfose (Porto Alegre, 2019)

Sobre a resenhista:

Bárbara Lima é estudante de Jornalismo da UFRGS e bolsista no Jornal da Universidade.

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