João Simões Lopes Neto (1865-1916) só foi reconhecido nacionalmente como expoente do regionalismo gaúcho em 1949, com o lançamento da edição crítica de Contos Gauchescos e Lendas do Sul (o primeiro lançado originalmente em 1912; o outro, em 1913). A publicação de Teatro completo de Simões Lopes Neto (TCSLN), em uma coedição da editora Movimento e do Instituto Estadual do Livro (IEL), é mais um ato no reconhecimento tardio do criador de Blau Nunes, agora na sua persona de dramaturgo.
Esse reconhecimento teve seu primeiro impulso ainda em 1990, quando o pesquisador Cláudio Heemann (1930-1999) organizou uma antologia com seis obras dramáticas do autor pelotense. Sabia-se da limitação daquela publicação, tanto que nominada de Volume 1 à espera de um Volume 2 que nunca veio à luz. De lá para cá, uma série de descobertas ampliaram o acervo teatral do autor: em 2005, por exemplo, a opereta Os Bacharéis foi publicada pelo Instituto João Simões Lopes Neto e encenada pelo diretor Élcio Rossini.
TCSLN reúne 12 textos para teatro, entre comédias, cenas breves, uma burleta (comédia musical), uma revista e uma opereta, escritas entre 1896 e 1915. Assim como nas crônicas que Simões Lopes Neto publicava nos jornais de Pelotas, inexistem em sua obra teatral a lida e o imaginários campeiros. Para o palco, suas tramas são em geral simples, o humor é o tom dominante, e o formato de entretenimento para grande público é evidente. Talvez não seja exagero supor que Simões Lopes Neto fosse uma microcelebridade em sua cidade, graças à exposição que seu talento teatral lhe garantia.
Antes de discutirmos algumas de suas produções teatrais, vale elogiar três dos textos que abrem a edição. O teatro de Simões Lopes Neto, escrito em 1990 por Heemann, contextualiza a obra do dramaturgo e tece considerações sobre alguns dos textos dramáticos. A reconstituição musical de Os Bacharéis, de Márcio de Souza (professor do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas), nos aproxima do esforço de reviver a opereta a partir das partituras originais compostas pelo maestro Manoel Acosta y Olivera em 1894. O teatro completo de Simões Lopes Neto, de Carlos Jorge Appel, narra o processo de investigação que culminou com a constatação de que Nossos Filhos, inicialmente reconhecida como obra autoral de SLN, era na verdade uma tradução que ele fizera para o texto Nuestros hijos, do uruguaio Florencio Sánchez (1875-1910).
“Mesmo nos momentos em que sua consistência literária apresenta-se com menor inteireza, a vocação cênica é inegável”
Cláudio Heemann, 1990
Aos textos! As criações de Serafim Bemol (pseudônimo que SLN usava no teatro) podem decepcionar quem nelas procura transcendência ou registro de nossas tradições e folclore. Outro ponto importante é que um tema como a então recente Revolução Federalista (1893-1895), notícia internacional por sua sanha sangrenta, não aparece em cena. A leitura atenta, porém, além do registro de etiquetas e estruturas sociais, de expressões idiomáticas, de escolha de temas, de truques de cena e do mise-en-scène (aqui no sentido da movimentação dos artistas pelo cenário), nos oferece alguns pontos de interesse e de reflexão.
Em O Bicho (1898), fica claro o hábito popular de apostar na loteria dos animaizinhos. Mixórdia! (1894-1895) relativiza o poder absoluto do progresso. Os bacharéis (1894) ridiculariza a pose dos doutores e pega leve na manipulação política. O fogo cômico da produção dramática de SLN é alimentado por frequentes apartes (quando o ator expressa o que pensa em voz alta, ouvido apenas pelo público) e incontroláveis jogos de palavras. O gosto pelos trocadilhos é evidente, e estes aparecem às vezes na mesma peça, na boca de mais de um personagem. Alguns exemplos: em A viúva Pitorra (1896 e 1898), digerir e dirigir; em A Fifina, “…a torcida chupou o querosene e pronto, nem mossa! Que massa de mulher! E eu que já pensava na missa. Meça-se uma destas!”. Na p. 199 de Os Bacharéis, é overdose: “que peixão! E que puxão me dá esta paixão!” e “manos, eu fito neste fato, um feto… de direito criminal”.
A Fifina é um texto, digamos, sapeca. Em uma fala, o personagem Capistrano ensina que, referindo-se ao ato de ler em voz alta, “as meninas dão mais serviço à língua que os rapazes, Estes, é o contrário: trabalham mais de queixo”. Em A viúva Pitorra, Ramão descreve sua companheira de viagem comendo uma banana: “Segura assim… descasca… leva à boca e vai empurrando, empurrando e engolindo ao mesmo tempo!” Nada que nos escandalize atualmente, mas, a depender do encenador e da ênfase que era dada, faria a farra do público.
A cena breve Jojô e Jajá e não Ioiô e Iaiá (1901), classificada pelo autor como “Cebolário destemperado”, já teve traços de teatro do absurdo identificados por alguns (leia-se o comentário de Heemann na p. 21). Não chegamos a tanto. São apenas dois personagens que, no esforço repetitivo e inútil de se suicidarem, brincam com as palavras, com o público, com a condição de artista, com o destino de quem não consegue levar uma vida focada, estraçalhado por seus vários talentos. Coerente com o perfil do autor, que foi jornalista, conferencista e escritor, mas também empresário que criou uma mineradora, uma destilaria e uma fábrica de cigarros (da popular marca Diabo), entre outros empreendimentos malsucedidos.
Por isso soa como irreverência brilhante quando Jojô subverte a poesia Ilusões da Vida, do venerável e imortal Francisco Otaviano (1825-1889) – colocamos o adendo de SLN em itálico:
Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
E porque só fumou fumos ardidos
E do bom fumo marca Diabo se esqueceu.
Resenha do livro Teatro completo de Simões Lopes Neto, de João Simões Lopes Neto, publicado pela Editora Movimento (Porto Alegre, 2018).
Sobre o resenhista:
Renato Mendonça é jornalista e crítico teatral. É Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFRGS. Foi editor de teatro no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, por 15 anos. Coeditor do site Agora Crítica Teatral de 2015 a 2019.