Um livro contestação

Não se engane pelo tamanho relativamente pequeno do livro em questão: suas 90 páginas, distribuídas em cinco tópicos de discussão, são densas e instigantes. Elas permitem diversas possibilidades de aprofundamento da análise referenciando importantes estudos realizados por pesquisadoras e pesquisadores sobre a Amazônia. É aquele livro que atua como um fio de novelo que, ao ser puxado, vai te levando a diversos outros caminhos e perspectivas.

Assim é Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, de Ricardo Abramovay, um “livro contestação” que, com base em argumentos e extensos dados empíricos, procura desconstruir a constante de que para a Amazônia crescer economicamente é necessária a substituição de suas áreas florestais por atividades do agronegócio extensivo – que é o que a expansão da fronteira agrícola sobre a Amazônia Legal tem realizado com infeliz eficiência.

“É chocante o contraste entre a ousadia do Brasil democrático em preservar metade da Amazônia brasileira e a incapacidade de que esta determinação seja efetivamente respeitada.”

(p. 67)

Abramovay expõe dados macroeconômicos contrastados com dados de desmatamento e produtividade do agronegócio (p. 39) confirmando que não é preciso desmatar para fazer crescer os ganhos do setor primário, capitaneados pelas commodities. Ou seja, desconstrói o principal argumento daqueles que acreditam que a substituição de floresta e povos tradicionais por soja e maquinários agrícolas não só é possível como necessária para o crescimento econômico da região e do país. Uma falácia que, além de devastadora social e ambientalmente, concentra recursos, amplia desigualdades e é um tiro no pé para os compromissos firmados pelo Brasil nos acordos climáticos realizados, sobretudo, no âmbito da COP 21 que resultou no Acordo de Paris.

As COP são as Conferências das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, e são importantes espaços de mobilização político-científica para conhecimento das alterações do clima em escala global e, sobretudo, para firmar acordos de responsabilidade ambiental dos países. O Acordo de Paris é exemplo disto, e é o último documento norteador de compromissos estabelecidos pelos países para alcançar as metas necessárias a fim de mitigar ou reverter os impactos das mudanças climáticas. O autor cita em trechos do livro alguns dos compromissos firmados pelo Brasil, tal como zerar o desmatamento ilegal e reflorestar 12 milhões de hectares (p. 61), ambos até 2030.

O caráter “contestação” do livro é evidenciado por sua própria estrutura, organizado em parágrafos-tópicos que dão força argumentativa ao que a Amazônia foi no passado, é no presente, além do que pode e deve vir a ser no futuro. Apresenta não somente os riscos que a região de maior biodiversidade do planeta tem corrido por nossa incapacidade de gestão – savanização é um deles, e talvez dos mais graves –, mas também as possibilidades que ela nos permite enquanto rica fonte de serviços ecossistêmicos prestados, sobretudo no contexto das mudanças climáticas que já estamos vivenciando.

Para ele, o Brasil e a Amazônia têm dois principais e importantes papéis na mitigação das mudanças climáticas: interromper imediatamente o desmatamento e alcançar a meta de desmatamento zero, e fazer emergir o que o autor chama de “uma economia do conhecimento da natureza”, termo elaborado pela geógrafa e profunda conhecedora das questões amazônicas Bertha Becker. Para alcançar com êxito estes dois desafios, é necessário investir nas áreas protegidas que o país detém, âmbito em que é modelo mundial; reconhecer o papel estratégico dos povos e populações tradicionais, bem como de suas atividades e riquezas culturais; investir em ciência, tecnologia e inovação para conhecimento e aproveitamento das enormes possibilidades que a Amazônia em pé oferta em áreas como biotecnologia, manejo florestal, turismo de base comunitária e os valorosos serviços ecossistêmicos.

Portanto, ao passo que contesta o tratamento que a Amazônia tem recebido atualmente, apresenta propostas com embasamento científico e político para ressignificarmos este tratamento, visando a otimização de suas potencialidades com base na floresta em pé. Isto torna a leitura instigante ao longo do livro, porque vai nos dando elementos para construir uma outra Amazônia, e, se podemos falar em termos subjetivos, vai reavivando uma fagulha de esperança de uma Amazônia viva e pulsante, tal como ela é, ainda que diante de tantas dores, ameaças, violências e espoliações. Estas, às vezes e assustadoramente, sob olhos passivos do Estado.

O Brasil precisa conhecer para reconhecer e respeitar a Amazônia, seus povos e toda diversidade única que essa região possui. Estamos não somente perdendo vantagens e possibilidades, como colaborando para o avanço das mudanças climáticas por meio da supressão florestal de um ecossistema tão importante para o clima mundial. Isto é dizer que não só existe uma Amazônia que queremos e podemos ser, mas também que devemos ser, e o mais rápido possível.

Resenha do livro Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, de Ricardo Abramovay, publicado pela Elefante (São Paulo, 2019)

Sobre a resenhista:

Aline Radaelli
é cientista econômica (ESALQ-USP), mestra em Sociologia (UFAM) e doutoranda no Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFRGS. Integra o grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade – TEMAS.

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