Uma crônica das dores e delícias de sermos brasileiros

Tratar o futebol como a expressão da mais genuína alma brasileira é algo que todos nós estamos acostumados a fazer. Assim como o carnaval, seu irmão mais velho, cuja trajetória parece confundir-se com a história da nação, também o futebol trilhou esse caminho, em que uma prática amplamente disseminada entre as classes populares foi vista como paixão nacional. Durante muito tempo, acreditamos na ideia de que o “nosso futebol” seria capaz de nos diferenciar das outras nações. Internamente, ele teria o condão de nos irmanar e nos igualar enquanto cidadãos que compartilham, fraternos, o mesmo berço pátrio.

Estávamos enganados. Contrariando essa visão de senso comum, foram bem poucos os atentos observadores do esporte bretão – convém lembrar, o futebol nasceu na Inglaterra – capazes de desconstruir o clichê, segundo o qual nossa pátria estaria mesmo vestida de chuteiras. Sim, é possível e necessário ver esse esporte de forma bem menos passional. É justamente isso que o livro Liga da canela preta: a história social do negro no futebol, escrito pelo historiador José Antônio dos Santos, faz por brasileiras e brasileiros. Longe de reforçar o futebol enquanto sinal máximo de nossa originalidade brasílica, a obra ressalta nossas rivalidades e desigualdades, nossas diferenças e fronteiras, destacando as práticas excludentes, elitistas e racistas que perpassam incólumes as quatro linhas da sociedade em que vivemos.

“É uma história construída sobre as bases da pesquisa documental e da revisão bibliográfica, que descortinou a organização e o trabalho coletivo da população negra no enfrentamento ao racismo e ao preconceito, vigentes nas primeiras décadas do século XX”.

p.15

Trata-se de narrativa fluída e inspirada. Bem documentada e sem notas de rodapé, a obra publicada em 2018 é uma sequência de crônicas cujo centroavante é o futebol, desde o pontapé inicial no Brasil, com direito a apito importado da Europa no final do século XIX, até sua disseminação entre praticantes oriundos dos mais diversos andares das arquibancadas sociais durante as primeiras décadas do século XX. O texto divertidíssimo revela o talento de um historiador que a todo o momento dialoga com leitoras e leitores, expõe dúvidas, suscita dilemas e questões difíceis de resolver, aponta temas e lacunas ainda não pesquisados e, assim, oferece várias dicas de pesquisa, cumprindo muito bem a finalidade de inspirar futuras investigações.

Nossos gramados nem sempre foram tão verdes quanto nos ilude nossa imaginação histórica. O livro de José Antônio é uma crônica da exclusão, do elitismo e principalmente do racismo no futebol. Lá estão os negros, filhos e netos de africanos, correndo atrás da bola em uma sociedade que adotou o futebol pouco depois de abandonar a escravidão; os imigrantes, que ainda nem falavam português; as elites nacionais, esnobes e endinheiradas, empenhadas em seu delírio de reproduzir em solo tropical os hábitos e estilos inventados em Paris e Londres. Todos esses personagens se apropriaram do futebol e adaptaram o esporte estrangeiro às condições de vida, de trabalho, de moradia, de lazer e de convivência no Brasil. Ao mesmo tempo, o foco do livro recai sobre as formas negras do futebol.

A expressão que dá título à obra – Liga da Canela Preta – deriva de uma suposta congregação de clubes de futebol formados por trabalhadores negros em Porto Alegre no início do século XX. Excluídos da liga fundada pelas elites brancas, eles teriam formado a sua própria agremiação unificada. Pelo menos era o que se acreditava. Apoiado em sólida pesquisa, o historiador José Antônio dos Santos oferece novas perspectivas sobre essa história, afirmando que “não existiu uma liga de futebol em Porto Alegre com o nome de Liga da Canela Preta”. O autor explica que “esta fábula teve sua origem a partir da fundação da Liga de Futebol Sul-Americana, em 1913, onde constavam alguns nomes de clubes negros de futebol”. Assim, “canela preta” descortina-se como expressão depreciativa utilizada por jornalistas, cronistas de futebol e pesquisadores para referir os times compostos por pretos, pardos e outros mestiços.

De fato, tal interpretação inova e complexifica nossos entendimentos sobre a dinâmica esportiva naquele período. Mas o livro não deixa de nos apresentar uma sociedade profundamente desigual em termos de classe, raça e gênero. Afinal, desde o início do primeiro tempo, o futebol foi um exercício “de homens”. As páginas escritas por José Antônio escancaram o esporte como prática de distinção das classes dominantes em relação aos subalternos. Suas linhas ressaltam as teorias científicas importadas da Europa junto com o futebol, segundo as quais os negros seriam naturalmente inferiores, sem inteligência, próximos dos animais. É uma herança daqueles dias o hábito de chamar jogadores negros de “macacos”. Lá estão também as denúncias contundentes sobre a persistência do preconceito de cor no futebol, realizadas pelos redatores negros do jornal O Exemplo e continuadas pelo famoso sambista Lupicínio Rodrigues.

A história social do negro no futebol, tal como apresentada na obra Liga da Canela Preta, é uma via de acesso para compreender a história do Brasil. Diante das tristezas presentes em uma sociedade que sempre foi desigual, é ainda mais triste observar tempos de grama seca e campos esburacados, em que a bola já não se move com a facilidade e o entusiasmo habituais. Diante de revisionismos autoritários, pós-verdades e convicções sem provas, o livro de José Antônio dos Santos surge para nos lembrar de que o conhecimento histórico se constrói com pesquisa séria e demorada. E que a maior originalidade nacional, aquela que nos diferencia dos outros países, não é a forma como praticamos o futebol. É a maneira como preferimos esconder de nós mesmos o quanto ainda somos racistas.


Resenha do livro A Liga da Canela Preta: a história social do negro no futebol, de José Antônio dos Santos, publicado pela editora Diadorim (Porto Alegre, 2018)

Sobre o resenhista:

Marcus Vinicius de Freitas Rosa
é Técnico em Assuntos Educacionais da UFRGS, com doutorado em História Social da Cultura pela UNICAMP. É coordenador do curso de formação continuada Territórios Negros: patrimônio afro-brasileiro em Porto Alegre, oferecido pela Faculdade de Educação. Faz parte do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Africanos (NEAB) e do Departamento de Estudos e Desenvolvimento Social (DEDS).

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