A história de um filme e de seus contextos

Resultado de pesquisa realizada pela historiadora Alice Dubina Trusz, Verdes Anos – Memórias de um Filme e de uma Geração contextualiza o filme dirigido por Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase e lançado em 1984 dentro de um período de grandes transformações políticas, sociais e culturais, e demonstra seu impacto na cena da produção cinematográfica do Rio Grande do Sul. Lançado em 2016, o livro deu início à linha de publicações da Cinemateca Capitólio numa parceria entre a Secretaria da Cultura de Porto Alegre e a Editora da UFRGS.


“Houve um tempo em que havia ‘pouco mais que nada pra pensar’. Pelo menos alguns assim viveram os seus ‘verdes anos’ nos primórdios da cinzenta década de 1970 no Brasil, descobrindo a ‘lei dos corpos’ a ‘céu aberto’. No início dos 1980, uma ‘malucada toda ahippiando’ decidiu transformar em filme o que havia aprendido ‘no meio do salão’ e mostrar como, dançando, conseguiu ‘pular o muro’. Hoje, trinta anos depois, eles amadureceram e têm muito mais para contar.”

Trecho da obra

O processo de um ano de entrevistas com 27 envolvidos na realização do filme e de busca em arquivos por informações sobre os bastidores e a repercussão do lançamento de Verdes Anos levaram Trusz a dividir o livro em dois blocos. Chamados pela autora de visto de fora e visto de dentro, o primeiro bloco resgata o contexto social e cinematográfico do período, a repercussão do lançamento do filme em reportagens e críticas e depoimentos da época que falam sobre o longa-metragem a partir de um aspecto afetivo, enquanto o segundo apresenta os relatos individuais daqueles que participaram ativamente do processo de produção.

Também foram incluídos o conto homônimo de Luiz Fernando Emediato que deu origem ao roteiro e as imagens de cena e bastidores das filmagens. Ao entrelaçar a história do filme com a memória sobre ele, complementando as visões de fora com as visões de dentro, a autora retoma Verdes Anos a partir do contexto em que ele estava inserido ao mesmo tempo que dá voz para que seus realizadores apresentem as lembranças sobre o próprio passado a partir de um olhar do presente.

Assim, ao apresentar o filme a partir desses pontos de vista externos, Trusz consegue captar o espírito de um tempo de reabertura política, recessão econômica e entusiasmo com a produção cinematográfica gaúcha, situando o papel e a repercussão de Verdes Anos dentro deste quadro. Ao resgatar tanto os depoimentos da época de realizadores do filme e intelectuais quanto as críticas (que demonstram uma recepção variada a Verdes Anos), a autora enriquece as perspectivas das formas com que ele foi encarado enquanto retrato de uma geração.   

Trusz também dá espaço a esta multiplicidade de pontos de vista ao privilegiar os olhares internos sobre o filme a partir dos relatos da equipe. Divididos em onze tópicos, como Os encontros, A participação no Festival de Cinema de Gramado, A produção independente e A produção cultural anos 1970-80: experiências e legado, os depoimentos promovem uma ampla discussão sobre as relações entre fazer artístico, juventude e autoritarismo. Em sua multiplicidade de versões e percepções tanto sobre o contexto cultural e político da época quanto sobre as relações – incluindo as discordâncias – entre o grupo de realizadores do filme, os relatos destacam os impactos das dinâmicas interpessoais e econômicas sobre este projeto cinematográfico, fortalecendo a sinceridade do livro enquanto documento histórico.

Resenha do livro Verdes Anos – Memórias de um Filme e de uma Geração, escrito por Alice Dubina Trusz e publicado pela Editora da UFRGS (Porto Alegre, 2016).

Sobre o resenhista:

Guilherme Fumeo Almeida é Doutorando no PPGCOM-UFRGS.   Bacharel em Comunicação Social/Jornalismo e mestre em Comunicação e Informação pela mesma instituição. No momento, desenvolve tese de doutorado sobre o cinema brasileiro realizado durante a ditadura militar.

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