Programa de Extensão Movimento Educação e Saúde Mental – MEDUSA

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Ensino

Estágios em Psicologia (Básico e Ênfase em Psicologia Social e Políticas Públicas)

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Pesquisa

Pesquisa-intervenção sobre Saúde Mental na Universidade

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Extensão

Grupos de Acolhimento, Oficinas, Rodas de Conversa, Produção de Materiais de Educação Permanente, Ações de Apoio

Por que falar sobre saúde mental na universidade?

Uma pesquisa realizada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes, 2019), com aproximadamente 400 mil estudantes das 63 Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) do Brasil, evidenciou a existência no ambiente universitário de uma procura por orientação e acompanhamento psicológico que não pode ser ignorada. Do total de participantes, 23,7% refere que problemas emocionais ou psicológicos têm gerado dificuldades nos estudos, com um número significativo sendo de indígenas aldeadas e de pessoas com deficiência. O número é mais significativo ainda quando consideramos as dificuldades emocionais de um modo geral, sendo que mais de 80% da amostra indica tais dificuldades, referindo sintomas como ansiedade e insônia, e sentimentos de solidão, desamparo e desânimo. Em torno de 8% refere ideação suicida (Andifes, 2019).

A entrada na universidade, por si só, requer cuidados em virtude das muitas mudanças que esse fato provoca na vida dos/as estudantes. A vida acadêmica se torna ainda mais complexa quando pensamos na inserção de estudantes-trabalhadores e nas mudanças étnico-raciais e socioeconômicas promovidas pelas ações afirmativas nas universidades. Demandas como o excesso de carga horária de estudo, a adaptação ao novo contexto, novas rotinas de sono e alimentação, demandas de organização do tempo e estratégias de estudo, o nível de exigência das disciplinas cursadas para a formação profissional, a difícil equação entre trabalho, família e estudos, emergem em nossos grupos de acolhimento sob a forma de angústias e ansiedades traduzidas na culpabilização individual do fracasso acadêmico. As/os estudantes, embora problematizem condições institucionais e estruturais que favorecem o fracasso, tomam para si tal responsabilidade ou culpa, o que gera um intenso sofrimento psíquico.   

A culpabilização individual do fracasso acadêmico pode ser compreendida como um dos efeitos do processo de naturalização do sofrimento psíquico, pois se poderia considerar como “normal” passar por adversidades e dificuldades na universidade, chorar, sofrer, ficar angustiada/o com provas e trabalhos. Em um dos encontros do projeto MEDUSA, uma estudante questionou: por que não é normal não estar cansada e sobrecarregada? Essa pergunta nos convoca a pensarmos em outro aspecto das questões de saúde mental na universidade: as práticas sociais individualistas, produtivistas e concorrenciais no âmbito acadêmico.

Segundo alguns autores e autoras que viemos estudando, o conhecimento científico só é reconhecido como tal se tem valor de troca, se pode ser mercantilizado. A mercantilização, na universidade, é um processo mediado pelos mais variados instrumentos de aferição da qualidade da produção científica e, em última instância, da atribuição de valor ao pesquisador ou candidato/a a pesquisador/a. Currículos lattes extensos, artigos publicados em periódicos altamente qualificados, programas de pós-graduação hierarquizados a partir de pontuações que se tornam cada vez mais inalcançáveis. Tudo isso se reflete nas relações acadêmicas, como os participantes do projeto MEDUSA indicam nas relações verticalizadas entre estudantes de iniciação científica, pós-graduandas/os e orientadoras/es. Além dessa hierarquização e afastamento nas relações interpessoais, o produtivismo acadêmico materializa a violência do sistema capitalista, no qual só os que produzem (mais e com ‘qualidade’) conseguem ascender nessa hierarquia, promovendo o individualismo e a livre concorrência entre aqueles e aquelas que deveriam ser parceiros na construção do conhecimento.

Por essas e outras questões do cotidiano nas universidades, que afetam diretamente a vida da comunidade acadêmica, especialmente dos/as estudantes, que este Programa de Extensão existe e se pretende um movimento, nunca acabado, de pensar e problematizar as relações entre educação e saúde mental. Venha participar desse movimento nas diferentes ações que propomos em nossa universidade!

É impossível não associarmos “o” MEDUSA com “a” Medusa, da mitologia grega. O MEDUSA tem nos provocado a olhar nos olhos da Medusa, sem nos petrificar. Ou, se nos petrificamos, tentamos compreender o que tanto nos amedronta, nos intimida e produz sofrimento. E, para não nos tornarmos estátuas de pedra, criamos nesses espaços movimentos de contar, compartilhar e construir histórias. Parafraseando Ailton Krenak, para adiar o fim [tornar-se pedra], seguimos contando mais algumas histórias.

Moises Romanini, Grace Tanikado e Carolina Ritter, no capítulo “Movimento Educação e Saúde Mental: reflexões sobre a atuação da Psicologia no Ensino Superior”, publicado no ebook “Percursos e experiências da Psicologia na e com a Educação no Rio Grande do Sul” (CRPRS, 2022)

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