Rompendo as barreiras do dualismo: monismo advaito e sua conectividade como uma contribuição indiana para as RI
Baseado no artigo Rethinking the Absence of post-Western International Relations theory in India: ‘Advaitic monism’ as na alternative epistemological resource, este seguinte texto tem dois objetivos. O primeiro se trata da apresentação do conceito de monismo advaita e o que ele significa. O segundo ponto se dá na comparação desse conceito com a lógica dualista do pensamento científico ocidental tradicional. Este texto não tem a proposição de ser uma resenha do artigo em que se baseia, pois ele não se propõe a analisar todos os conteúdos inseridos nele. O propósito, então, é uma apresentação e introdução do conceito indiano a fim de que haja maior compreensão do arcabouço epistemológico hindu e uma contribuição para esse tipo de conteúdo em português, o que é raro.
Origens do pensamento advaita e anacronismos
Originado no oitavo século da era comum, o conceito da doutrina Advaita faz parte de um grande arcabouço filosófico da antiga civilização indiana. Tendo o Shankara como um dos seus maiores elaboradores, ele estabeleceu centros de excelência advaita e teve alguns discípulos que ajudaram a espalhar essa visão pela sua região. No entanto, como a maioria do pensamento advaita permaneceu no campo religioso e da filosofia religiosa, o artigo supracitado tem o objetivo de trazê-lo para o campo das Relações Internacionais (RI).
Além disso, é importante frisar que os autores (Deepshikha Shahi e Gennaro Ascione) reconhecem que ao fazer isso, uma certa dose de anacronismo será embutida no processo. Eles chegam a dizer que
a própria tensão de realocar um conceito antigo em uma estrutura cujas coordenadas são provindas de terminologias modernas complementares, como “epistemologia” ou “metodologia”, força nossa imaginação para uma reconfiguração espaço-temporal desse conceito por meios de uma tradução semântica ex-post (p. 6, tradução nossa).
É desse substrato rico e não-familiar ao Ocidente que surgem as principais colaborações do mundo não-ocidental para a teoria das RI. Porém, uma pergunta surge entre os autores: como, então, encaixar os conceitos do monismo advaita dentro do arcabouço tradicional das RI? Antes de tudo, faz-se necessário explicar o que é monismo e o que é a doutrina advaita.
Definições de monismo e de Advaita
Para definir o que é monismo, os autores, em primeiro lugar, conceitualizam o que não é monismo. Para isso eles usam os exemplos do dualismo e do holismo. O dualismo, sendo a base do pensamento científico ocidental, é balizado pela preposição da “separação do sujeito do objeto de pesquisa” (p.7). O holismo, por sua vez, é quando se assume que “as partes de um todo estão em íntima interconexão, a ponto de elas não poderem existir independentemente do todo, ou não podem ser entendidas sem referência ao todo, e o ‘todo’ é visto como maior que a soma de suas ‘partes’” (p.8). Diante dessas duas definições, o monismo se caracteriza como “uma visão filosófica na qual uma variedade de coisas existentes pode ser explicada em termos de uma única realidade ou substância” (pp.17-18). Então, os objetos não somente apresentam uma continuidade ontológica, mas como, também, pertencem a uma mesma realidade basilar.
A questão do Advaita é mais complexa. Em primeiro lugar, deve-se ter em mente que o Advaita é somente uma das três principais correntes filosóficas indianas. O Dvaita, representando o dualismo; o Vishishtadvaita, o monismo qualificado; e o Advaita, o monismo. Segundo os autores, enquanto o Dvaita mostra que existe “uma existência separada de dois tipos de realidade – material (física) e imaterial (espiritual)” (p.17), o Vishishtadvaita atende mais a uma compreensão do todo como uma resultante das interações das partículas.
Postas essas diferenciações, o monismo Advaita (cuja tradução significa não-dualidade), acredita que toda a realidade é ligada por uma realidade-núcleo do Ser, o Brahman. O Brahman é uma “única conectividade oculta – debaixo das diversidades objetivas e subjetivas ao redor do globo” (p.10). No entanto, não devemos pensar que essa conectividade única anula todo o tipo de diversidade ou diferença. O que o monismo advaita oferece é “nível percebido mais abaixo de ‘realidade ambígua’ […] que existe com o Brahman (a realidade central básica) em sua raíz” (p.10). O mundo que conhecemos, ou seja, a realidade percebida de forma direta, é composta pelo Jiva (o self corpóreo) e o Atman (o self auto-reflexivo), os quais são apenas expressões externas do Brahman. Mas como esse conceito seria útil para a epistemologia e ontologia das RI?
Para além de Descartes
Apesar de ser um conceito que possibilita diversos tipos de reflexão, os autores especificam o cenário de sua possível utilização. Eles dizem que “o conceito de Advaita tem que ser tratado como um campo fértil para a teorização de RI somente na extensão que ele possibilita que as filosofias não-Eurocêntricas constituam um pleito legítimo para a epistemologia não-dualista”. Eles dizem que o dualismo (a separação ontológica do sujeito que pesquisa e do objeto pesquisado), inaugurado e reforçado pelo modelo cartesiano, oferece uma visão de mundo que naturaliza o distanciamento abstrato entre pesquisador e pesquisado, familiarizando uma hierarquia ontológica.
Então, por que especificar a utilização do monismo advaita? Os autores dizem que, assim, pode-se escapar da armadilha de tentar buscar “fontes de verdade atavísticas” quando, na verdade, é somente uma visão de mundo alternativa. Desse modo, é a prevalência do dualismo que faz com que o monismo seja um campo fértil para a produção de conhecimento nas RI. E como isso funciona? Os autores dão exemplo das relações entre o sujeito e o objeto.
No esquema epistemológico-metodológico do monismo advaita, o ‘teórico’ (o sujeito que gera a metanarrativa) e a ‘teoria’ (a metanarrativa que corresponde ao objeto) têm a possibilidade de ‘se fundir’ pois quanto mais alta a capacidade do teórico de ‘revelar’ a conectividade oculta entre formas de realidades aparentemente diversas, maior seria a proximidade do teórico em relação a realidade conectiva básica, isso é, o Brahman (p.10).
Porém, pode-se argumentar que essa “constituição mútua” entre sujeito e objeto já foi posta em prática por abordagens pós-positivistas ocidentais nas RI. O construtivismo, feminismo e teoria crítica são exemplos dessas tentativas. No entanto, o que une essas abordagens é que elas não vêm o “‘colapso’ do dualismo do sujeito-objeto […]” deixando-os presos nessa lógica. A alternativa trazida pelo monismo advaita se dá no fato que ele vê um mundo conectado a uma única realidade. Nessa realidade, o Estado e o mundo possuem o mesmo valor e significância ontológica. Portanto, diante dessa equivalência, a escolha de um ou de outro “é uma questão de escolha politicamente motivada para dar prioridade a uma entidade ontológica [….] como uma unidade de análise dominante” (p.14).
No que tange o Brahman, ele é a realidade que tanto o Estado quanto o mundo se baseiam, mesmo que seja somente uma pequena parte dela. Assim, essa “realidade oculta básica” não somente une todos os elementos do globo (de indivíduos às classes, passando pelo meio ambiente e culturas), mas ela tem o papel de defini-lo. “[…] os diversos indivíduos Estados-nacionais constituem sub-realidades pertencentes à realidade conectada global básica, e a natureza nuclear das sub-realidades e a realidade base não são ontologicamente distintas, apesar do fato de serem analiticamente diferenciáveis, já que ambas são marcadas com e manifestam a mesma única conectividade oculta” (p.15).
Conclusão
Por mais que diversas questões sejam trazidas aos debates das Relações Internacionais, as respostas serão destinadas ao mesmo destino do dualismo devido à ontologia e epistemologia dominante da ciência ocidental. Desse modo, cabe aqui listar algumas características do monismo advaita que podem gerar alternativas para esse cenário.
- O mundo é uma unidade política perpetuamente conectada.
- Apesar de haver entidades nucleares com suas respectivas realidades, todas elas pertencem a uma única realidade conectiva oculta, o Brahman.
- O estudo dessas sub-realidades não pode ser entendido como cenários rígidos e isolados, já que todos pertencem a uma conectividade maior.
- A importância dada a uma entidade política é somente através de uma escolha de prioridade analítica do pesquisador, o que abre caminhos para a pesquisa das conectividades dessa mesma entidade a fim de se aproximar do Brahman.
- A conectividade do globo não é para ser percebida, mas para ser explorada intelectualmente.
- A percepção dessa conectividade serve de ferramenta re-interpretativa da diversidade dos atores e fenômenos políticos, diminuindo as supostas barreiras entre eles.
Desse modo, segundo os autores, o próprio ato de pensar as relações dentro de uma estrutura monística de pensamento leva ao ‘colapso’ do dualismo sujeito-objeto: o monismo advaita é uma posição epistemológica na qual o sujeito é percebido como integral às relações que ele/a ativa no que tange ao objeto (p.16).
