Atividades de experimentação da Curricularização da Extensão 2022_1
Visita à ONG Thêmis (04/07/2022)
Impressões e afetações sobre visita Themis – Walquíria Victória Marschner
“A vida foi minha primeira formação”, essa foi uma das falas que mais me tocou enquanto eu ouvia a trajetória e o movimento da Themis, narrada por duas mulheres componentes dessa ONG admirável. Saber que mesmo em uma dimensão pequena em relação a alta demanda existam serviços que tornem os direitos das mulheres mais acessíveis e transparentes para elas, especialmente as mais vulneráveis, é satisfatório. O trabalho da Themis tensiona e acolhe, questiona e direciona, pensa e age, é um conjunto de saber e fazer que faz daquela que escuta fonte de ensinamentos enquanto o(a) sujeito ouvinte passa a mergulhar em novos territórios a partir de novas perspectivas e faz-se aprendiz frente as múltiplas histórias. É um serviço altruísta, é humano, é sensível e, acima de tudo, fundamental para fazer das vidas, em especial das mulheres, mais vivíveis.
Visita à instituição Rita Yasmin, na Restinga, em 15/08/2022.



Textos Produzidos por estudantes da disciplina

PEQUENOS GRANDES CUIDADOS
Walquíria Victória Marschner
Porto Alegre, 30 de junho de 2022.
Nossa maneira de se relacionar com a vida é irônica, buscamos sempre por mais, ansiados pelo futuro, focados em ter e saber de tudo, e assim fugimos do que tanto procuramos, aproveitar a vida. Não falo de grandiosos eventos, de coisas caras, falo de fazer dos pequenos detalhes presentes, potenciais universos para mergulharmos e nos conhecermos ainda mais. É engraçado, como tanta coisa passa despercebido por nós quando não nos permitimos viver atentamente. Já parou pra pensar que tudo que tanto procuramos poderia estar o tempo todo dentro de nós? Ou em um ocorrido da vida que simplesmente ignoramos, já que ele tinha caído na rotina. A pandemia, mais do que tudo, nos fez desejar a rotina mais boba de volta, quem imaginaria né?
Quem foi que disse que para compreender o planeta precisaríamos de teorias super elaboradas, acho que foi aí que nos perdemos, esquecemos das múltiplas linguagens disponíveis das quais podemos nos comunicar com os diferentes seres que convivem junto de nós. Aliás, já pensou quantidade de desculpas para colocar o Outro em condições desfavoráveis em nome de “poderes” maiores, mas no fundo, sem sentido algum. Essa mania de imposição sobre o outro que se alimenta a séculos na humanidade. A gente se acha tão dominante sobre a natureza e quando menos esperamos a única coisa que pode nos salvar são suas poderosas propriedades.
Quanto nos permitimos sonhar e “viajar” em nossas imaginações? Poucas vezes pensei no universo de possibilidades e misturas que se faz em mim, foram uns 16 anos imaginando que minha vida estava meio pré-determinada. Eu nunca cogitei que eu tivesse tanto a conhecer dentro de mim, antes de precisar ficar mais de uma semana sem longas interações e estímulos externos. O período inicial pandêmico foi o início de uma viagem para o interior que tinha um destino longínquo e incerto, digo isso porque ficar obrigatoriamente sozinha me fez olhar mais atentamente pra minha pessoa. Aprender a reconhecer, aceitar e conversar com minhas fraquezas e forças.
Acho que minhas perdas não se deram em uma só vez, não perdi nenhum familiar ou amigo/conhecido próximos, mas fui perdendo aos poucos determinadas relações, pequenos e grandes medos e certos hábitos. Mas isso não foi algo tão evidente, foi algo que pude perceber com o tempo, quando eu via uma mudança em mim e me questionava: mas quando foi que isso aconteceu? inclusive essa prática de conversar mais comigo mesma foi aí que eu adquiri.
Pra falar a verdade, eu passei a refletir que embora tínhamos ouvido tantas notícias de um vírus invisível que matou tantas pessoas, acho que antes dele produzimos muitas formas virais, ainda mais potentes, que devastaram e devastam nosso convívio de espécie e entre espécies. Como apontou Ailton Krenak (2020) em “uma vida inútil”, somos pequenos planetas filhos de um Grande organismo. E Vejo o funcionamento da Terra como o nosso, e o nosso como o da Terra, penso que quando extrapolamos os recursos do planeta e mesmo percebendo o descontrole não tomamos providências é análogo à quando começamos a ficar adoentados e não tomamos cuidado com nossos hábitos para melhorar nossa saúde. E acho que foi esse o principal ponto que a pandemia veio tocar, no cuidado, o cuidado com nosso planeta, tanto interior quanto exterior, se é que podemos delimitar uma barreira entre eles.

(observar as coisas mais simples e por vezes quase invisíveis aos olhos foi um hábito que eu desenvolvi melhor na pandemia, pensar na diversidade de seres que habitam em poucos centímetros quadrados, o quão afetamos e somos afetados pelo simples e ao mesmo tempo desafiador fato de vivermos)
Obs: reflexão sobre a atividade solicitada: escrever sobre o período de isolamento, perdas da pandemia e efeitos atuais.
A INUTILIDADE COMO RESISTÊNCIA
Letícia Terumi Tamai
Porto Alegre, junho de 2022.
Breve reflexão pessoal acerca dos efeitos da pandemia de coronavírus, da perspectiva de uma mulher amarela, livremente inspirada no livro “A vida não é útil” de Ailton Krenak.

Como rodas em uma engranagem, nos movimentamos nessa vida sem refletir sobre nosso papel ou as correntes que nos unem a esse maquinário. Quando surge um defeito que impede que a roda da vida continue girando, nos vemos obrigados a parar e compreender cada uma das peças que compõem esse sistema para que tudo possa voltar a funcionar normalmente.
Ser amarelo[1] no Brasil é ser invisível a maior parte do tempo, por vezes servindo de alívio cômico, como uma espécie de graxa que lubrifica e previne os atritos nas relações sociais[2]. Quando surge uma crise como a que o coronavírus nos proporcionou, passamos a ser relembrados mais incisivamente do nosso não pertencimento e do nosso estado perpétuo de estrangeiros[3] nesse país. Somos a peça ‘xing ling’[4] e defeituosa que deve voltar ao fabricante e, se possível, ser exterminada ‘Aliança’, arte de Lya Nazura (@lyanzr) para que não volte a contaminar esse lugar[5]. E assim, a roda pode voltar a girar, passando por cima de todas as contradições que fazem desse, por si só, um sistema quebrado[6]. Não é necessário discutir esse modo de vida, repensar essa organização social ou mudar qualquer coisa, pois o problema é o outro[7].

Percebemos então que, diferente de um jogo de xadrez, onde só há peças brancas e pretas, fazemos parte de um jogo muito mais complexo. E não estamos neutros nele. Se por vezes usufruímos de certos privilégios, situações como essa evidenciam a sua condicionalidade. Temos esse passaporte na medida em que somos cooptados pelo discurso da branquitude[8] e nos permitimos ser instrumentalizados para oprimir outras minorias através de falácias como o mito da minoria modelo[9], de modo que a nossa vida se torna útil e são normalizados os destinos daquelas que não são assim consideradas.
Se aceitar esse molde é a condição para o pertencimento, então devemos abraçar a nossa inutilidade[10]. A solidão desse lugar pode remeter à de um deserto mas, como nos ensina o povo Krenak, é preciso atravessá-lo.

Bolsonaro e seus apoiadores, em outubro de 2018, divulgadas pela página Perigo Amarelo no
facebook.
Referências:
[1]Amarelo: https://youtu.be/Qt6xLfJLeEA
[2]”Pastel de Flango” é Racista: https://youtu.be/rjpaTP7FcOw
[3]Estrangeiro:https://youtu.be/PqouMVM9m5w
[4]’Xing Ling”: Termo racista traduzido literalmente do chinês como “zero estrela”/“sem valor” mas
sem significado no idioma original e empregado de forma pejorativa para se referir a mercadorias de
má qualidade e a pessoas amarelas.
[5]Covid-19 (sars-cov-2): https://youtu.be/ZBtk2zCTY0M
[6]Liberalismo: https://youtu.be/FHZ67CGDqHU
[7]Orientalismo: https://youtu.be/7C4GBCgdqfA
[8]Branquitude: https://youtu.be/DCoZOr1-VTg
[9]Mito da minoria modelo: https://youtu.be/Qd6hzZI5u38
[10]Solidariedade anti-racista: https://youtu.be/qOo-MVwrpaQ
Primeira edição da disciplina eletiva “Psicologia, Direitos Humanos, Direito Ambiental e Inclusão” em 2022.
Disciplina eletiva iniciada no curso de Psicologia no semestre 2021/1, no início de 2022, durante a pandemia do Coronavírus. Ela é ofertada como extracurricular para outros cursos, tendo proposto um projeto piloto de curricularização da extensão na graduação.




