Psicologia Social II

Sobre o Extraordinário do Futebol

João Gabriel Sartor da Silveira

Domingo, 05 de março de 2023
Porto Alegre, 16h


Nesse dia de garoa fina e intermitente acontecia na quadra de cimento da Redenção um
jogo típico e ao mesmo tempo singular de futebol, que eu joguei, vivi, suei e presenciei.
O jogo estava acirrado e contava com todos os tipos de pessoa, um menino com um
crucifixo no pescoço (a mãe era crente e ficou cuidando dele de longe, sentada em um
banco), um grupo de três meninos, dois com camisas do Inter e um com a camisa do
Grêmio, que jogaram descalços no concreto áspero, dois adolescentes amigos que se
xingavam por qualquer mínimo detalhe fora do esperado que acontecesse no jogo, um
outro menino menor, bem arrumado e muito rápido e finalmente, a cereja do bolo, um
morador de rua que pediu licença pra jogar conosco.
Esse foi o fato que tornou um jogo de futebol típico na Redenção em singular. O amigo
estava claramente bêbado e com as roupas sujas e um pouco rasgadas, mas isso pouco
importava para mim, para o menino do crucifixo, para os colorados e para o gremista,
para os adolescentes ou para o menino bem arrumado. Ele jogou conosco, primeiro foi o
goleiro do time que eu jogava contra e depois de não se dar muito bem na posição, foi
para a zaga, só que não estava muito ágil para fazer a marcação e depois ficou de pivô e
pifava os jogadores para marcar os gols. Durante o jogo ele tentava driblar e quase caia,
tropeçava sozinho, se divertia, gritava e ria muito.
Nessa altura eu já estava cansado e fui para o gol para descansar e eu via como as crianças
não faziam distinção nenhuma em relação a ele ou a algum outro menino (mas ficavam
muito brabas se alguém errasse um passe ou não tocasse pra elas) e como um adolescente
inclusive o abraçou depois de um gol. Não posso negar, tudo isso foi muito mágico para
mim.
Nós vimos nosso amigo chegando tímido na quadra, comentando o jogo e dando risada
dos lances errados, até que ele consegue criar coragem e pede para jogar. E exatamente
esse momento é o extraordinário, é o momento de torção, onde não é mais ali, para mim
ou para os outros meninos que jogavam, um morador de rua, bêbado e com as roupas
sujas, vemos mais um jogador, que corria e driblava (mesmo muito atrapalhado) e que
brincava a vida enquanto houvesse nela alguma oportunidade.
Sem dúvida alguma não preciso aqui me estender sobre a dureza da vida nas ruas, ou
como catar latinhas para sobreviver é penoso, insalubre e injusto, nem mesmo preciso
falar do fantasma da fome que assola, ou da praga do alcoolismo que é verdadeiramente
um escape voraz e mortal para a cruel realidade.
Nada disso se torna necessário para que qualquer um que leia esse relato entenda a
potência desse momento de diversão, de risada, de jogo e de brincadeira, mas também a
potência do futebol como cultura nacional , como esporte que leva alegria, choro e
emoção para tanta gente, como imaginação de uma criança que sonha em ser jogadora e
dar uma vida mais digna para si, para seus pais e para sua comunidade e como brincadeira,
que permite afastar, por um tempinho que seja, as vicissitudes e a dureza da vida cotidiana
civilizada e, basicamente, neurótica.

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