O encantamento das histórias pretas em quem conta e em quem ouve

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Rafaela Dutra Baptista

Contação do Afroconto na Escola Estadual Brigadeiro Silva Paes, zonal sul de POA, em 13/04/2022.

Oi pessoal, aqui é a Rafaela, estudante de Direito na UFRGS, mulher negra e moradora da Vila Cruzeiro. No dia 05 de abril de 2022 surgiu a oportunidade de me tornar bolsista do Afroconto e as dúvidas aparecem junto. Será que mando mensagem pra coordenadora me candidatando? Será que vou gostar? Dar conta? Enviei a mensagem, fiz a entrevista e… tcharam! Fui selecionada! 

As reuniões começaram a acontecer, dia 13 de abril teria contação na Escola Estadual Brigadeiro Silva Paes, localizada na Vila Cruzeiro, aqui pertinho de casa, a mesma escola em que tive minha formatura do Ensino Fundamental. O sentimento de orgulho de estar retornando ao lugar em que me formei se misturou com a ansiedade de fazer com que as crianças gostassem da experiência levada pelo Afroconto. Tivemos um encontro virtual e definimos os livros a serem lidos, eu, num surto de coragem, 7 dias depois de entrar para o projeto, me disponibilizo a contar a história “Grande Assim” do autor africano Mhlobo Jadezweni para a turma do 4° ano.

 Depois de ler a história diversas vezes, me imaginar contando, imaginar o rosto das crianças, chega a grande hora, entro na sala de aula e lá estão elas, os olhinhos brilhando, os rostinhos concentrados, cheios de curiosidade e apontamentos. Inicio me apresentando, digo que faço direito e que quero ser juíza, pra minha surpresa vários levantam a mão e dizem que também querem, um deles é negro, meu coração já fica quentinho. 

Introduzo a história e digo que se passa em um país africano, a África do Sul, em outro continente, logo eles querem saber que animal que tem na África. Me fogem as palavras, por um momento não lembro de nenhum animal. Crianças de 9 a 11 anos em 5 minutos deram as palavras, naquele momento senti que iria aprender muito com elas. A contação vai desenrolando e sinto que elas estão gostando, dúvidas surgem, me desdobro pra responder, mas fico feliz por elas estarem envolvidas com o livro a ponto de questionarem. 

Numa das partes da história o personagem principal se rega com uma mangueira, uma das crianças fala “ele é bem egoísta, desperdiçando água quando na África não se tem água”. Impactada com a fala penso em como desfazer anos de estereótipos do continente africano impostos pela mídia, digo que na África do Sul, assim como em outros países do continente, tem muitas riquezas também: cantores, filmes, praias, que nem tudo é só pobreza. Continuo a contação e quando me dou conta, a história acaba e eles batem palmas, uns queridos! Fizemos a brincadeira da música tanzaniana “Si Mamma Kaa” e eles amam! Como é bom ter energia de criança. Me despeço já com vontade de voltar! 

Em seguida havia chegado a hora da contação para a turma do 1° ano, menorzinhos e mais tímidos, porém um show de simpatia. Dani, minha colega, conta a história “O Abraço” de  Marcelino Luciano Ramos, no final, uns se abraçam aos outros, uma cena linda! Fizemos também com eles a brincadeira da música “Si Mamma Kaa” e eles deram risada. 

Antes de voltarmos para casa tivemos uma reunião com as professoras da escola e elas expressam as dificuldades do ensino presencial pós anos de ensino remoto na pandemia, querem levar uma educação antirracista aos alunos, querem que eles tenham mais momentos de cultura e diversão. E, após uma reunião produtiva, nos despedimos.

Contação do Afroconto na Escola Estadual Brigadeiro Silva Paes, zonal sul de POA, em 13/04/2022.

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