Porto Alegre, 26 de março de 2021
O NEPARPSI – Núcleo de Extensão e Pesquisas Antirracistas do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS – vem a público, por meio desta nota, repudiar veementemente os atos de intolerância e discriminação racial ocorridos durante o 9º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CBEU) por parte da mediadora da rede de conversa 101459 às bolsistas que apresentavam o trabalho “Promoção da Saúde da População Negra em Tempos de Pandemia”. A apresentação trazia reflexões sobre as ações desenvolvidas pelo Projeto “Saúde da População Negra e a Integração com Serviços de Saúde”, desde 2019. Embasadas nas discussões de Paulo Freire sobre extensão universitária e nas contribuições de bell hooks sobre a Pedagogia Engajada, o coletivo apresentou as atividades virtuais de grupo de leituras de autoras negras para estudantes de escolas públicas e a produção de podcasts com trabalhadoras negras da saúde.
Após apresentar o trabalho, as bolsistas foram surpreendidas com o desconhecimento sobre a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, por parte da mediadora da sessão temática. A professora mencionada questionou qual seria a pertinência do projeto, partindo de afirmações de senso comum e racistas, tais como, não haver necessidade de atenção à promoção de saúde para a população negra já que “somos todos iguais”, brancos, amarelos, negros, indígenas. O motivo de nossa indignação foi potencializado por tratar-se de uma docente de universidade pública e da área da saúde. Após intenso debate levantado pelas bolsistas, apresentando indicadores sociais e discussões teóricas, a mediadora declarou que o projeto não trabalha com questões relacionadas à saúde, mas com empoderamento para meninas negras.
Antes de dar por encerrada as discussões, a professora mediadora ainda reduziu as ações do projeto a atividades que proporcionam às participantes identificar-se com “princesas negras”. Realmente essa experiência foi muito violenta e racista. O trabalho apresentado na Rede de Conversa é desenvolvido com adolescentes, e, o material trabalhado é de literatura produzida por autoras negras que problematizam, com arte e poesia, a complexidade e os desafios da negritude. A professora realmente não estava disposta a escutar o trabalho apresentado. Negligência? Indiferença? Ignorância sobre iniquidades raciais?
A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra é resultado de intensa luta dos movimentos negros, protagonizada principalmente por mulheres negras, com base nas desigualdades sociais, econômicas e culturais presentes no nosso país. Tem por objetivo garantir maior equidade na efetivação do direito humano à saúde nos aspectos de promoção, prevenção, tratamento e atenção, voltado para a melhoria das condições de saúde da população negra.
O racismo impõe marcas segregadoras que implicam restrições aos direitos da população negra, operando com invisibilidade e preconceito. Deste modo, reconhecemos que os acontecimentos no 9º CBEU reforçam a postura não reflexiva da branquitude e sua resistência em reconhecer os efeitos negativos que o racismo produz na população negra. A postura da professora de não considerar os argumentos trazidos pelas alunas e, na sequência, elogiar o posicionamento de um estudante de medicina, homem branco, acerca do tema, é a representação do pacto narcísico da branquitude. Maria Aparecida Bento (2002) define esse pacto como um acordo silencioso entre pessoas brancas que se aplaudem e se apóiam sob qualquer circunstância, garantindo a reprodução dos privilégios da branquitude.
Entendemos que esta situação vivida por nossas bolsistas e voluntárias, das quais três são mulheres negras, não se trata de uma experiência única, relativa apenas a essa docente e a um estudante. Cabe salientar que o estudante branco falou em apoio ao projeto apresentado, contudo, não percebeu que os elogios a ele dedicados demonstravam a violência das relações de saber-poder produzidas pela interseccionalidade entre racismo e sexismo.
Naquela sala virtual, os argumentos embasados teoricamente e na prática extensionista-vivencial de jovens negras não foi suficiente para que a professora compreendesse o trabalho desenvolvido. Contudo, aquele jovem estudante branco de medicina foi reconhecido como portador de intelectualidade e de saber. Desta forma, aquela conduta reflete o modo com que a sociedade seleciona quem pode ter o conhecimento apreciado e validado. Triste experiência de se viver num Congresso de Extensão que teve em sua programação tantas contribuições importantes de práticas antirracistas. A programação do 9º CBEU expressou o comprometimento da organização do evento em problematizar, de forma crítica e propositiva, os graves problemas sociais de violação de direitos humanos no Brasil e na América Latina. A temática do enfrentamento ao racismo esteve presente durante todo o evento. Por isso mesmo, ficamos mais indignadas.
Sabemos que ainda temos muito que avançar no enfrentamento ao racismo, mas é inadmissível que o ambiente universitário continue reproduzindo os privilégios e a violência da branquitude acrítica que, no campo da saúde, se agrava com a perspectiva biomédica de ignorar toda a vasta produção de evidências sobre os impactos do racismo como uma Determinação Social da Saúde (DSS). Podemos pensar o quanto a temática do racismo ainda é vista como algo do campo dos direitos humanos, das ciências sociais, mas que não se relaciona com as práticas de formação e “cuidado” em saúde, afinal, “somos todos iguais” biologicamente.
Desta forma, é importante destacar que o racismo é uma estrutura de organização do mundo (Almeida, 2020; Moore, 2012) que precisa ser constantemente monitorado. São necessárias práticas antirracistas consistentes e permanentes. Assim, pedimos que a UFMG e o 9ª CBEU tomem atitudes para enfrentamento do Racismo Institucional que esteve presente nas redes de conversas do evento para que esse tipo de episódio se torne cada vez menos frequente, tanto no âmbito acadêmico, quanto na sociedade.
Sugerimos a análise e estudo do documento Guia de Enfrentamento do Racismo Institucional, organizado por Geledés – Instituto da Mulher Negra[1], bem como o estudo do referencial teórico utilizado para a escrita desta nota como suporte, pois são materiais importantes para a criação de estratégias institucionais de combate ao racismo. Fica o alerta para que nos futuros eventos acadêmicos sejam feitas formações com docentes sobre o racismo institucional que atravessa todas as práticas da universidade.
Por fim, solicitamos uma devolutiva sobre os encaminhamentos tomados pela organização do 9º CBEU.
Atenciosamente,
Coletivo de docentes, estudantes e parceiras dos serviços públicos de saúde integrantes do NEPARPSI – Núcleo de Extensão e Pesquisas Antirracistas/UFRGS
Email: neparpsi@gmail.com
Site: https://www.ufrgs.br/neparc/
Referências
ALMEIDA, Silvio Luiz de. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte (MG): Letramento, 2020.
BENTO, Maria Aparecida. Branquitude e branqueamento. In:BENTO, Maria Aparecida da Silva; CARONE, Iray (Orgs.). Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2002.
MOORE, Carlos. Racismo e Sociedade: novas bases epistemológicas para entender o racismo. Belo Horizonte: Nandyala, 2012.
WERNECK, Jurema. Racismo Institucional e a Saúde da População Negra. Saúde e Soc. 2016; 25(3):535–49.
[1] https://www.onumulheres.org.br/wp-content/uploads/2016/04/Guia-de-enfrentamento-ao-racismo-institucional.pdf