O ano de 1991 marca a fundação do MHG – Movimento Homossexual Gaúcho em Porto Alegre, que logo viria a se tornar o Nuances – Grupo pela Livre Expressão Sexual. Sete anos mais tarde, em 1998, o primeiro número do jornal da organização era lançado. Um artigo de opinião na primeira edição já anunciava a publicação como “mais um integrante da luta”, e uma “forma de interlocução com a sociedade”. Nos anos seguintes, o jornal seria um canal de comunicação, divulgação de ações institucionais e de notícias sobre movimento social, espaço de visibilidade para a população LGBTQI+ e para outras pautas de interesse do grupo.
Não queremos ser normais.
Jornal do Nuances, Ano 1, n. 1, janeiro 1998
Com uma postura sempre combativa e questionadora, a “bichice transgressora” do Nuances almeja estar sempre fora da norma cisheteropatriarcal. Aceitar as pessoas em sua diversidade é a premissa da “livre expressão sexual” que nomeia o grupo, e dá a tônica do jornal nos seus 21 anos de existência. A exposição “Jornal do Nuances: fora do armário e nas ruas de Porto Alegre” busca divulgar a rica coleção produzida nesse período pelo grupo e oferecer um panorama das possibilidades oferecidas pelas fontes que tratam das vivências LGBTQI+.
Nuances pelo Nuances

Ao longo de sua trajetória, o Nuances promoveu a diversidade sexual e de gênero, colocando “o pé na porta” e saindo do armário. As matérias do jornal evidenciam a ação política do grupo nesse período, com destaque para a linguagem provocativa que chama a atenção de quem folheia o periódico. Mais do que só frases de efeito, o objetivo era realmente mostrar o que as nuanceiras estavam fazendo por aí questionar as normas sexuais hegemônicas.

Os temas mais recorrentes
Parada Livre
Essa é, de longe, a maior atração do Jornal do Nuances. A cobertura das Paradas em Porto Alegre e, pouco a pouco, no interior do estado, colorem as edições do jornal antes e depois do dia do evento. É muita preparação para um domingo que combina festa e protesto! O destaque vai para as fotos da marcha e para o relato do dia de atividades. As chamadas mostram que, ao longo dos anos, de cerca de 100 pessoas que compareceram à primeira Parada em 1997, esse número só aumentou!

As fotos do evento também são incríveis!

Entrevistas
Muita gente já passou pelas páginas do Jornal do Nuances, seja assinando artigos de opinião ou sendo entrevistado pela equipe do jornal. Personalidades, políticos, acadêmicos (as), artistas e pessoas reconhecidas na cena regional e nacional comentavam sobre seu trabalho, sobre a militância e sobre temas culturais, respondendo a perguntas nada discretas!

História e Memória
Que o jornal Lampião da Esquina foi um importante expoente da imprensa homossexual no final da década de 1970 já é ponto comum entre as pessoas que estudam homossexualidades. A novidade é que o Jornal do Nuances se via como herdeiro da trajetória do Lampião e, na maioria de suas edições, reproduzia uma página do antigo jornal entre suas matérias, muitas vezes relacionando as questões da militância da época com o que o Lampião reivindicava. Outras formas de trazer o aspecto da memória para o jornal eram artigos que tratavam das sociabilidades LGBTQI+ em Porto Alegre em décadas anteriores, com fotos e narrativas que buscavam mostrar a história da comunidade.

Projetos do Nuances
O Nuances já fez muita coisa nesses anos de atividade. Livros, seminários, cursos, projetos de prevenção ao HIV, documentário… Por sorte, boa parte dos projetos desenvolvidos nesses anos está documentada no jornal, assim como a maioria dos atos políticos organizados pelo grupo. É uma boa forma de conhecer a história recente do movimento LGBTQI+ em Porto Alegre e a sociedade brasileira de modo geral!

É UÓ!
Na coluna social do Jornal do Nuances o close é certo! A seção foi tema de debate entre a equipe da publicação. Por fim a vontade de ver “quem” circulava e “onde” venceu, e a maioria das edições conta com cliques de eventos acadêmicos, da Parada Livre, de festas e boates da noite de Porto Alegre e região! Reconhecer amigos nas páginas do jornal numa época pré redes sociais, smartphones e selfies deixa a coluna, aos olhos contemporâneos, ainda mais interessante!

Que questões surgem para o futuro?
Essa exposição busca apresentar possibilidades de pesquisa no acervo do Núcleo de Pesquisa em História – UFRGS que abriga as edições do jornal desde 1998. Nas páginas da publicação, não faltam matérias a respeito da militância e do funcionamento do grupo, bem como artigos explicitando as posições políticas de seus membros. Muitas questões surgem para outros estudos que podem nos ajudar a compreender a dinâmica dos movimentos sociais no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, bem como as sociabilidades urbanas e as lutas pela democracia e pelos direitos humanos. Oferecer mais ferramentas e fontes de pesquisa sobre as vivências LGBTQI+ no Rio Grande do Sul e no Brasil é fundamental para complexificarmos e ampliarmos a historiografia escrita sobre o tema e sobre o país.
Para saber mais sobre o Nuances e sobre História LGBTQI+:
- Acervo do Jornal do Nuances no nphdigit@l
- Acervo do Jornal Lampião da Esquina no Grupo Dignidade
- Canal do Nuances no Youtube com o documentário “Meu Tempo Não Parou” (2008)
- CLOSE – Centro de Referência da História LGBTQI+ do Rio Grande do Sul
- Livro de Célio Golin (2017): “Nuances 25 anos. Uma trajetória inconformada com a norma”
- Tese de Fernando Barroso (2007): Jornal do Nuances, a prática midiática de uma ONG de Porto Alegre – RS para o confronto político entre o “gay classe média” e a “bicha bafona”
- Projeto HISTÓRIA DE VIDA E AÇÃO POLÍTICA: Ativistas Contam Suas Histórias com realização do Laboratório de Políticas Públicas, Ações Coletivas e Saúde (LAPPACS/UFRGS)
Ficha Técnica:
Curadoria:
Augusta da Silveira de Oliveira
Colaboração no Projeto Gráfico:
Martha Bañolas Tarragô
Jornal do Nuances, edições consultadas:
Nuances lança guia dos direitos humanos (Ano 1, n. 1, janeiro 1998); Gays exigem maior penetração (Ano 1, n. 7, s.d.); Tudo sobre a Parada Livre de 99 (Ano 2, n. 8); Conheça a doce fama de Pelotas (Ano 2, n. 11, março 2000); Nuances processa INSS (Ano 2, n. 12, abril 2000); Parada Livre 2000 (Ano 2, n. 13, julho 2000); Mas bá, quanta bichice! (Ano 3, n. 16, agosto 2001); A Nuanceira 1 (junho 2002); Parada Livre Todos os Dias! (Ano 4, n. 20, agosto 2002); Putas e travas que gozam trabalhando (Ano 4, n. 21, outubro 2002); Parada Livre agita Porto Alegre (Ano 4, n. 24, julho 2003); Lésbicas vão às ruas (Ano 4, n. 25, setembro 2003); Visibilidade lésbica em alta (Ano 4, n. 26, dez. 2003); Roteirão Guei e Lésbica atualizado (Ano 5, n. 27, março 2004); A cidade partida do jornal Boca de Rua/ Parada Livre 2004 (Ano 5, n. 28, maio 2004); Entrevista Rita Cadillac dá para o Nuances (Ano 5, n. 31, dezembro 2004; Gaty é cabra macho sim senhor! (Ano 6, n. 33, maio 2005); 9a Parada Livre em POA e se espraiando… (Ano 6, n. 34, agosto 2005); Nuances na rua! (Ano 6, n. 36, julho 2006); 10a Parada Livre parou a cidade (Ano 9, n. 38, outubro 2006); Bichas “teen” vôôôaaammm para a Europa! (Ano 10, n. 39, abril 2007); A Papa é Uóó! (Ano 10, n. 40, junho 2007); Todo mundo vai sair do armário! (Ano 10, n. 41, outubro 2007); A Parada da Cidade (Ano 10, n. 42, novembro 2007); Meu tempo não parou (Ano 10. n. 43, agosto 2008); 12a Parada Livre 2009 Cultive seus direitos! (Ano 10, n. 44, dezembro 2008); Êba! Viado na pista! (Ano 11, n. 45, junho 2015); Não vai ter golpe! (Ano 12, n. 46, abril 2016).
Realização:
