O presente trabalho analisa o envolvimento de adolescentes do gênero feminino com o tráfico de drogas. A problemática foi desenvolvida a partir da interpretação do tráfico de drogas como estrutura que se assemelha àquela do trabalho formal e que,
portanto, reproduz as estruturas pautadas na divisão sexual do trabalho. Ainda, se parte de referenciais teóricos da epistemologia e criminologia feministas de modo a definir a categoria de gênero. Já em relação à adolescência, utilizam-se referenciais da psicanálise para sua definição. Metodologicamente, realizaram-se entrevistas semiestruturadas com quatro adolescentes internadas na unidade feminina da Fundação de Atendimento Socioeducativo do estado do Rio Grande do Sul, a fim de compreender, a partir de suas próprias narrativas, como ocorreu seu envolvimento com este meio. Também realizou-se entrevistas com seis funcionários que trabalham na instituição, sendo três técnicos e três agentes socioeducadores. A análise foi dividida em três eixos (motivações para o início do envolvimento no tráfico, quais eram as funções desempenhadas pelas adolescentes nesta atividade, e como elas sentiam-se, especialmente quanto àquelas que ocuparam postos considerados de prestígio na hierarquia do crime). Dessa forma, foi possível constatar que é crescente o envolvimento de adolescentes com as facções criminosas, levando-as a envolverem-se com outros delitos que não apenas aquele de tráfico. Ainda, o maior envolvimento possibilita que elas cheguem a postos que não eram comumente ocupados por mulheres, como aqueles de “gerente” e “patrão”. Assim, ainda que muitas estejam na “linha de frente” do tráfico de drogas, desempenhando tarefas de menor prestígio e maior vulnerabilidade, há casos que demonstram ser possível a ascensão de mulheres na estrutura do tráfico de entorpecentes. Dessa forma, elas ocupam cargos antes exclusivamente masculinos, como aqueles de gerência, buscando, da mesma forma que os adolescentes do gênero masculino envolvidos com a atividade, dinheiro e reconhecimento.