Leonardo Augusto Peres (ODELA)

Da esquerda para a direita: Yader Parajón, Carolina Hernández e Ariana Mcguire. Fonte: Sul21.
No dia 31 de agosto de 2018, o Comitê Gaúcho de Solidariedade com a Nicarágua organizou, nas dependências da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, o Painel “Lutas Sociais e Violência de Estado na Nicarágua”. O evento foi parte da parada porto-alegrense do Caravana Internacional de Solidariedade à Nicarágua, que incluiu ainda coletiva de impressa e debate com movimentos sociais e defensores dos direitos humanos na Assembleia Legislativa do Estado, no dia 30 de agosto; seminários e encontros no dia 31 de agosto; e encontros e um sarau no dia 1º de setembro.
Três jovens nicaraguenses falaram no painel moderado pela professora Ana Mercedes Sarria Icaza, da Escola de Administração da UFRGS. Eles denunciaram a violência e as arbitrariedades do governo de Daniel Ortega. Ariana Mcguire descreveu o processo de ocupação das universidades nicaraguenses como reação à violência governamental usada contra manifestantes pacíficos. Destacou o papel da lei antiterrorismo do país, aprovada às pressas no parlamento orteguista, na prisão de diversos de seus companheiros estudantes. Clamou pela solidariedade do movimento estudantil brasileiro para com o nicaraguense, que está sendo duramente reprimido.
Yader Parajón, por sua vez, deu um depoimento emocionante sobre a morte de seu irmão por um atirador de elite das forças militares do governo enquanto tentava levar suprimentos a uma das universidades ocupadas. Apontou que uma das táticas de Ortega foi entregar alimentos e bebidas contaminadas para fazer adoecer e, consequentemente, debilitar os estudantes que ocupavam esses espaços. Por fim, Carolina Hernández explicou que há quase uma década os movimentos de mineração artesanal lutam contra o governo de Ortega, e que seu líder está preso há pelo menos cinco anos. Além disso, a luta é contra as grandes mineradoras, em prol de práticas de mineração alternativas que agridem menos o meio ambiente e geram riqueza para as comunidades locais que tradicionalmente desempenham essa atividade econômica. A mensagem de sua fala é de que a violência do Estado nicaraguense não é nova, mas vem sendo praticada há algum tempo pelo governo de Ortega.
Após esses representantes dos movimentos sociais nicaraguenses terem dado seus depoimentos, os professores Daniel Lacerda, da Escola de Administração da UFRGS, e William Héctor Gómez Soto, sociólogo nicaraguense que trabalha na Universidade Federal de Pelotas, fizeram comentários ao contexto violento daquele país. Ainda que solidários ao sofrimento ímpar dos membros da Caravana –e de todo o povo nicaraguense atualmente– suas falas traçaram paralelos que demonstram que o fenômeno da violência política é recorrente na América Latina, tanto no tempo quanto no espaço: Daniel destacou o caso brasileiro do assassinato da vereadora Marielle Franco, e William comentou o histórico violento da ditadura Somoza na Nicarágua.
Os participantes do painel lamentaram que esse tipo de violência parta de um governo que chegou ao poder se dizendo sandinista e de esquerda. Assim, alguns setores da esquerda brasileira e de outros países da América Latina relutam em condenar as arbitrariedades orteguistas. Argumentaram que Ortega, entretanto, se alinha aos interesses do sistema capitalista.
De qualquer forma, a violência de Estado é condenável, independentemente de onde parta, mas especialmente de grupos que se dizem defensores do povo, da igualdade e da luta por melhores condições de vida –e que na prática, no entanto, não defendem esses valores. Ademais, as forças e pressões pela inclusão no sistema internacional capitalista em conformidade a seus preceitos e ditames é, são, por si só, violentas.
Os três ativistas nicaraguenses temem por sua segurança quando retornarem ao seu país de origem, certos de que serão enquadrados na lei antiterrorismo e presos, ou pior. Pedem que olhemos em seus olhos e digamos que eles são jovens defendendo seus colegas, seus familiares, suas comunidades, não terroristas. E pedem que não nos esqueçamos de seus rostos e de seus nomes. Yader, Carolina e Ariana: não esqueceremos.