Já vi um anoitecer límpido de verão na praia do Laranjal. Céu azul-marinho, lua cheia, branca e luminosa junto à Lagoa dos Patos. Uma moeda na areia grossa, formigas miúdas, folhas de figueira, tudo era aparição. O grito das crianças e o latido dos cachorros podiam ser tocados. (RAMIL, 2008, p.28)

Imerso no mundo da música desde sua adolêscencia, Vitor Ramil é famoso por suas composições que tematizam, dentre outros assuntos, o regionalismo, algo que faz de forma criativa e inovadora. O cantor lançou seu primero disco, “Estrela, estrela”, aos dezoito anos de idade e desde então tem feito grandes contribuições para a cena MPB, como o álbum ‘Ramilonga – Estética do Frio”, ganhador do Prêmio Açorianos, em 1997, na categoria de Melhor Disco de MPB/Samba. No entanto, Ramil não se limitou à música, tendo dado ínico à sua carreira de escritor em 1995 com o lançamento de seu primeiro livro, Pequod, o qual chegou a ser publicado na França. Este livro cuja história se baseia nas memórias do autor, foi o ponto de partida para as reflexões de Vitor RamiI acerca da identidade sul-riograndense, o que culminou no ensaio “A Estética do Frio”, adaptado de uma conferência dada pelo escritor em Genebra, no ano de 2003. Nascido em Pelotas, o autor toma a cidade como base de suas composições e escritos, mas de forma adaptada, o que se exemplifica no anagrama “satolep”, título de seu segundo livro, publicado em 2008 pela editora Cosac Naify.

A narrativa trata da história de Selbor, um fotógrafo que, no seu aniversário de trinta anos, sente a necessidade de retornar à sua cidade natal, Satolep, depois de anos afastado dela, como forma de completar o “grande círculo” da sua vida. Neste ponto, o livro possui um quê autobiográfico: Vitor Ramil, após viver alguns anos no Rio de Janeiro durante a década de 1980, decide abandonar a capital carioca – quente e afastada do Sul, como o local que Selbor antes habitava – e retorna para o Rio Grande do Sul, onde começa a pensar sobre a posição do estado frente ao resto do país e as questões identitárias que dela decorrem. Já nos anos 2000, tem ínicio o engenhoso trabalho do autor na composição de Satolep (2008), o qual era para ser um livro de contos, escritos a partir do álbum de fotos supostamente feito por Brisolara, em 1922, organizado por Clodomiro Carrinconde. No entanto, optou-se por transformar o livro em um romance, de capítulos curtos, intercalados com minificções relacionadas às 28 fotos de Pelotas que estampam as páginas pretas da obra, cujo significado se torna mais evidente do meio para o final da história.

Durante a jornada de Selbor, o leitor se insere na história como uma espécie de flâneur delirante, trilhando os caminhos frenéticos da personagem principal na cidade envolta pelo nevoeiro. Névoa, aliás, que paira também sobre o tempo da narrativa, a qual não se passa em uma data específica. Ainda assim, é possível se situar quanto ao contexto histórico por meio das célebres figuras que aparecem durante a história, como Simões Lopes Neto.
Esse tem o papel essencial na trajetória de Selbor, algo que fica evidente desde as primeiras cenas no Café Aquário, em que o escritor se junta ao personagem principal e conta sua história de vida, ajudando-o, também, a se reestabelecer em Satolep. É no diálogo com João Simões que o fotógrafo é introduzido à lenda do Negrinho do Pastoreio, peça chave na busca indefinida do personagem.

Foi aí que eu perdi, foi por aí que eu perdi…, ia pensando, percebendo-me naturalmente encaminhado pelo cotidiano na direção do sol capaz de secar minha primeira camisa. (RAMIL, 2008, .275)

A procura de Selbor assume a ausência de contornos de Satolep até o momento em que ele se depara com os textos do Rapaz, os quais correspondem a diferentes pontos de vista da mesma “Satolep em ruínas’ (RAMIL, 2008, p.7). Dessa forma, o leitor é introduzido ao elemento fantástico da obra: os textos correspondem a fotos que ainda haviam de ser tiradas por Selbor, se tornando um enigma a ser decifrado de forma obsessiva por ele. Neste processo, o fotógrafo descobre a cidade e a si mesmo, pois, como lhe diz Simões Lopez Neto: “o homem faz a cidade, a cidade faz o homem”(RAMIL, 2008, p.47).

Assim, Vitor Ramil nos conduz pela trajetória de Selbor de forma a fazer com que fiquemos imersos na névoa, tal qual o personagem, sem certeza do que é real ou não. Além disso, suas raízes musicais ficam evidentes na maestria com que nos embriaga com metáforas, as quais apenas um músico poderia colocar em palavras com tanta genialidade e beleza, como faz com a da “primeira camisa”. O final do livro nos deixa com uma sensação de angústia, pois nos faz questionar se, assim como Selbor, não podemos evitar nosso destino.

Referências

MOREIRA, Carlos André. Névoa, umidade e imagens. ClicRBS, 03 jun. 2008. Disponível em <a href=".”>. Acesso em 28 jun. 2019.
RAMIL, Vitor. Satolep. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

© Fotos tiradas por Amanda Fernandes Alves. Tiradas em Pelotas, entre 2017 e 2019.

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