Meia-noite com uma lua cheia no pico do céu transforma esse lugar em uma vila abandonada, fantasmagórica. Daqui de onde estou, devido à altura considerável, posso ver toda a vila. A maioria das casas é simples, feitas de madeira, eram irregulares, umas maiores que as outras de formas estranhas como peças de um jogo que foram forçadas a se encaixarem. Poucas são de pedra e nessas moram os mais ricos. As ruas são estreitas e pouco iluminadas, mas havia uma avenida larga que cortava a vila ao meio e no centro dela havia a praça, com um chafariz seco e sujo, cercada pela igreja, pela prefeitura e por alguns pequenos mercados..
E é da prefeitura que sai a única alma humana capaz de provar que alguém vivia naquela vila.
O prefeito caminha atrapalhado, posso ver a mão que carrega o lampião tremer, fazendo as sombras dançarem formando figuras monstruosas no chão e na parede. Nunca soube o nome dele, pois quando há alguém para pronunciá-lo é quando estou dormindo, mas sempre achei esse homem muito engraçado. Parecia um porco: gordo, baixo, de pele rosada e com a covardia estampada na cara, muito semelhante ao que era arrastado por ele até a entrada da vila.
O porco, grande e rosado, foi amarrado numa árvore a alguns passos do arco de entrada. Depois disso o prefeito se afasta uns vinte metros e espera. Um ritual que ele fazia toda lua cheia assim como seus antecessores também, e também, assim como eles, o homem gostaria de correr de volta para a prefeitura nesse momento como um porco fugindo do abate.
Desço até uma árvore próxima, pois estava chegando na hora. Ao meu redor a floresta estava viva como sempre. Apesar do que os humanos dizem, a floresta não dorme a noite. Posso ver um rabo de um gato selvagem caçando, posso ver pássaros vigiando seus ninhos, esquilos mantendo suas orelhas bem atentas a cada movimento, e também os ratos (estes são os meus favoritos) procurando por restos de comida ou fugindo de um dos meus irmãos.
Alguns minutos se passam. O prefeito mantém seus olhos bem abertos, focados na floresta, suas mãos roliças e suadas se apertam uma a outra. Algo próximo quebra um galho, o prefeito sufoca um grito, seu rosto fica branco e sua respiração fica ofegante. Adorava quando isso acontecia, ele se assemelha ainda mais com um porco assustado.
De repente a floresta fica silenciosa, a ponto de eu me questionar se ainda possuía audição. Mas mesmo que o vento castigasse as folhas das árvores, mesmo que todos os pássaros cantassem ao mesmo tempo, ainda sim seria possível ouvir o som do coração do pobre homem batendo contra o peito. Mais um galho se parte, dessa vez, mais alto e mais perto.
Primeiro, dois olhos surgem na escuridão, vermelhos como sangue. Depois, uma sombra cresce num sentido oposto à luz das tochas que ficam na entrada da vila. O animai sai da mata e se expõe a luz. Não importava quantas vezes o prefeito o visse, sempre seria tão assustador quanto a primeira.
Com seu pelo negro e lustroso, o lobo se aproxima calmamente do porco, sem tirar os olhos do homem. Seu tamanho era impressionante, quase do tamanho de um cavalo. Só a sua pata é capaz de cobrir meu corpo inteiro e sua boca, cheia de lâminas afiadas, me engoliria facilmente em uma ou duas dentadas. É impossível não sentir dó do porco, que a essa altura se desespera, grita e tenta se soltar da árvore. O lobo rosna, irritado com o som que o porco emitia, fazendo o prefeito se encolher ainda mais do que eu pensei ser possível.
O lobo se agacha e dá um grande salto. Com seus dentes de navalha e uma mira precisa ele abocanha o pescoço do porco. O lobo para um momento, absorvendo o gosto inebriante do sangue e se deliciando ainda mais ao ouvir os gritos de sua presa. De uma vez só, ele torce o pescoço do animal que para de lutar, já sem vida. O lobo solta o porco por um momento e lambe seu focinho, não queria desperdiçar nada. Ele olha em direção ao prefeito, mas o humano já estava desmaiado no chão. Ele se aproxima alguns passos do homem, como se estivesse curioso, ou pensando. O animal abocanha o pescoço do porco e dá meia volta. Sumindo no meio da floresta, indo para onde quer que fique a sua casa. A floresta volta a ganhar vida.
Na manhã seguinte, quando tinha acabado de pegar no sono, acordei de sobressalto com os gritos dos humanos da vila. Na entrada havia uma comoção: todos olhavam para o porco morto no chão.
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