“Nós, moços que somos, temos sede de luz, de luz que espanque altivamente as trevas de nosso horizonte e que, qual estrela a guiar o caminheiro errante, nos conduza ilesos aos portos da Ciência.”
A Redação, “O Exemplo”, O Exemplo, 11 dez. 1892, p. 1.

A fundação e primeira fase do jornal O Exemplo se deu no estabelecimento de Calisto Felizardo de Araújo (1819-1909), profissional que atuava em uma barbearia na Rua dos Andradas, nº 247, na capital gaúcha. Este local, já importante centro de integração da população negra da época, passou a servir como sede das reuniões do grupo fundador e escritório do jornal nesse primeiro momento.
Dentre os fundadores, encontram-se 2 filhos de do Sr. Calisto: Florêncio Calisto Felizardo da Silva (07/11/1863 – ????) e Esperidião Calisto Felizardo da Silva (13/12/1864 – ????). Florêncio, o primogênito, no final da primeira fase do jornal compra o espaço sede do periódico, até então propriedade de seu pai. Aprendeu o ofício da barbearia e, apesar de não possuir título, exerceu a função de dentista até entrar no serviço público, onde atuou na secretaria do Conselho Municipal, além de ter recebido a patente de Tenente-secretário do 1º batalhão da reserva da Guarda Nacional do Rio Grande do Sul. N’O Exemplo, assumiu o posto de secretário em diversos âmbitos.
Esperidião, por sua vez, integrou a direção material do jornal durante seu primeiro ano de funcionamento. Assim como o irmão, aprendeu o ofício de barbeiro junto ao pai, seguindo na profissão por mais tempo e adquirindo barbearia própria nos arredores da área conhecida antigamente como Colônia Africana. Na década de 1920 ingressou no funcionalismo público como bibliotecário do Centro Cívico Cultural José do Patrocínio. Após isso, foi porteiro da Junta Comercial Municipal e secretário do Centro Republicano Júlio de Castilhos.

Na construção d’O Exemplo, desempenharam papel fundamental, em especial, 2 famílias de destaque da sociedade porto-alegrense. Uma delas carregava o sobrenome Bittencourt, onde focamos no papel desempenhado principalmente por Sérgio Aurélio de Bittencourt e Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior, filhos de Aurélio Viríssimo de Bittencourt, que na época da fundação do jornal ocupava o cargo de Secretário de Estado, auxiliando financeiramente, desta forma, nas primeiras impressões do periódico e servindo como modelo de conduta a ser seguido pela população negra da época.
Sérgio Aurélio de Bittencourt (07/10/1869 – 05/12/1904), o mais velho dos irmãos Bittencourt, atuou como redator n’O Exemplo, além de ter sido secretário da Sociedade Beneficência Porto-Alegrense, Tenente-secretário no 7º Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional e funcionário na Secretaria do Interior. Faleceu precocemente aos 35 anos de idade, com apenas 1 ano a menos que seu irmão, Aurélio Viríssimo de Bittencourt Júnior (28/02/1874 – 30/07/1910). Conhecido como Aurélio Júnior, após fundar O Exemplo partiu para São Paulo, onde se formou bacharel em Direito, vindo a exercer o cargo de Juiz Distrital, novamente no RS, em 1897. Em 1901 teve seu primeiro filho, Dario de Bittencourt, que viria a ser diretor do periódico em sua fase final.

Alfredo Cândido de Souza (15/07/1866 – 06/03/1934) é referenciado como o principal autor do nome do jornal, apesar de ter desempenhado papel mais discreto no periódico como integrante da direção material, secretário da diretoria gestora em 1894 e integrante da comissão de redação em 1897. Em 1891 foi nomeado porteiro da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, onde aprendeu e aperfeiçoou seus conhecimentos em farmácia, fato que resultou na sua atuação como farmacêutico em 1895 e diretor da farmácia da Santa Casa no ano seguinte. Seis anos depois de receber a patente de Tenente da Guarda Nacional na Comarca de Porto Alegre, em 1909, foi elevado ao cargo de Capitão-Cirurgião.

Arthur Ferreira de Andrade (04/05/1871 – 11/03/1925), advogado e considerado um homem pardo, segundo seu atestado de óbito, foi um dos primeiros membros e fundadores do Jornal O Exemplo. Após a criação do jornal, aos 21 anos de idade, Arthur assumiu a direção da redação do periódico, um grande desafio que desempenhou com excelência até 1894, quando saiu do cargo. Apesar disso, manteve a relação de colaborador com o jornal até o fim de sua vida, tendo falecido com 53 anos de idade. Durante a sua vida atuou em várias agremiações de Porto Alegre, além de ingressar na Guarda Nacional e filiar-se ao Partido Republicano Rio-Grandense.
Em sua formação Arthur, estudou no Colégio Gomes, educandário particular que formava os filhos da elite, e posteriormente, em 1902, ingressou na recém fundada Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, apesar de atuar como advogado já desde o final do século 19. Também foi funcionário público, iniciando nos Correios em 1891, onde subiu de cargo até aposentar-se.

Arthur Pinto Gama (24/09/1863 – 11/02/1922), também descrito em seu atestado de óbito como homem de cor mista, foi eleito pelos acionistas d’O Exemplo em 1894 como presidente da diretoria do jornal para gerir o periódico. Pouco se sabe sobre sua escolarização, apenas que era auto-didata, o que fez com que fosse o primeiro dos membros do jornal a ingressar no serviço público, como escrevente do Arsenal de Guerra. Em 1885 assumiu o cargo de praticante junto à Pagadoria Provincial, transformada em Tesouro do Estado com a República, tendo atuado também como acionista da Caixa dos Funcionários Públicos. Aposentou-se com 35 anos de serviço público como diretor de seção, tendo recebido nesse meio tempo diversas gratificações e promoções em reconhecimento à qualidade de seu trabalho. Destaca-se que seu casamento foi realizado na Igreja Nossa Senhora do Rosário, o que demonstra a sua aproximação com a irmandade.

Marcílio Francisco da Costa Freitas (21/02/1876 – 06/04/1928), considerado homem de cor mista, era o mais jovem dentre os fundadores d’O Exemplo, possuindo 16 anos na data de criação do jornal. Marcílio manteve o vínculo com o periódico até o final de sua vida, aos 52 anos de idade. Assim como vários de seus colegas do jornal, teve formação no ambiente tipográfico, atuando desde a adolescência nas oficinas de periódicos como a Folha Nova e O Mercantil e posteriormente como revisor de provas no Jornal do Comércio e no Correio do Povo. Além disso, foi aprovado nos exames preparatórios na Faculdade de Direito de Porto Alegre e ingressou como servidor público nos Correios em 1895. Fez carreira na Alfândega, obtendo o cargo de guarda-mor e exerceu cargo de confiança no Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro.


