Prata da Casa

Obras para flauta doce escritas por compositores ligados à UFRGS

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Projeto Prata da Casa

A origem do projeto

O projeto “Prata da Casa” teve sua origem em meados de 2009, quando, motivada pela constatação de que havia um expressivo, quase intrigante, número de obras para flauta doce criadas por compositores ligados à UFRGS, decidi tentar reunir todas estas obras em um único acervo. Por trás desta constatação estavam meu interesse e engajamento na criação e divulgação da música brasileira para flauta doce, tanto como flautista quanto como professora de flauta doce da UFRGS. A idéia de um projeto de pesquisa foi tomando corpo e ganhou confiança com os dados apresentados na tese de doutorado da flautista e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Daniele Cruz Barros, que conduziu o mais extenso e profundo estudo já realizado sobre o repertório brasileiro para flauta doce, intitulado “A Flauta Doce no século XX: o exemplo do Brasil” (2007). Segundo Daniele Barros, 70% do repertório brasileiro para flauta doce escrito a partir da década de 1990 foi composto no Rio Grande do Sul, especialmente dentro da UFRGS. Este era o impulso que faltava para que o Prata da Casa tomasse vida. Como não me sentir desafiada a conhecer este repertório na sua totalidade? Como não querer conhecer as motivações dos compositores e as condições que possibilitaram o surgimento de tantas obras?
Sabemos que o repertório brasileiro para flauta doce é muito recente e vem se desenvolvendo junto com a trajetória do instrumento no Brasil, principalmente a partir da segunda metade do século XX. Porém esse repertório ainda representa uma parcela muito pequena do que se escuta nas salas de concerto. Segundo Franco e Landim (2006) este fato deve-se à “má ou quase inexistente divulgação dessas obras, influenciada pela falta de instrumentistas interessados neste repertório, a ausência de obras editadas, o pouco interesse de editoras na divulgação, a falta de gravações por instrumentistas e a falta de conhecimento por parte de alunos e professores”. Estas condições fazem com que a comunidade musical, e conseqüentemente o público em geral, desconheça esse repertório, que acaba se perdendo no tempo. De modo geral, as obras são executadas apenas na sua estréia, em caráter local e para um público reduzido, sem chegar ao público mais amplo de flauta doce ou mesmo ao grande público. Assim como as obras, que circulam principalmente no ambiente em que foram criadas, o mesmo acontece com os CDs e DVDs gravados e as pouquíssimas partituras editadas. Neste sentido, além do já citado trabalho de Daniele Cruz Barros, merecem destaque trabalhos publicados como os de Betiza Landim e Daniele Carrijo (Duo Brasil) e Paula Callegari (Universidade Federal de Uberlândia), que procuram trazer a público informações sobre o repertório brasileiro para flauta doce.

A trajetória do projeto

No princípio, o projeto se apresentava como um processo relativamente curto, focado na localização, identificação e catalogação das composições para flauta doce, resultando na criação um banco de obras, de modo a contribuir para a divulgação e circulação deste repertório, bem como a preservação do patrimônio musical da UFRGS e o incentivo à criação de novas peças. Entre os compositores, encontramos professores e ex professores do Departamento de Música, alunos e ex-alunos do curso de Música, numa integração orgânica e musical de Extensão, Graduação e Pós-Graduação. Foi inspirado nos compositores que o título do projeto surgiu. Afinal, eles eram a nossa “prata da casa” no que diz respeito à flauta doce.
Em sua primeira fase, iniciada em 2009, o projeto contou com Aline Pause Güntzel, minha aluna do curso de Música e bolsista de Iniciação Científica, e teve como principal objetivo o levantamento das obras existentes, feito junto a flautistas e compositores, em seus acervos pessoais. A obra mais antiga encontrada foi “Ventos Incertos” (1970), de Bruno Kiefer, e partir dela pudemos observar um aumento crescente na composição de novas peças, principalmente a partir dos anos 1990, confirmando o que se observa mudo afora: que historicamente a criação de obras se deu majoritariamente por meio da interação entre compositores e intérpretes. Desde a década de 1970, quando Isolde Frank introduziu o ensino de flauta doce no Departamento de Música da UFRGS, este tem se caracterizado como tendo bases sólidas, visando a formação de flautistas e professores de flauta doce com amplo conhecimento do repertório, incluída aí a produção contemporânea para o instrumento.
Pudemos também perceber que muitas das peças continham dedicatórias, em sua maioria a flautistas, reforçando a ideia de que os compositores escrevem suas peças para uma demanda dos músicos, formando uma parceria com os intérpretes. Veio daí uma das primeiras conclusões da pesquisa, a de que a formação em flauta doce dentro da UFRGS tem contribuído para fazer dela um pólo de produção de obras para este instrumento. Uma vez concluído o levantamento, que apontou 52 peças para flauta doce, foi elaborada a ficha técnica das obras, contendo informações sobre cada peça de maneira clara e padronizada, com a intenção de disponibilizá-la mais tarde na página do projeto. Na medida em que foram ficando prontas, as fichas preenchidas foram enviadas aos compositores, para revisão, correção e acréscimo de comentários, se necessário. A ficha técnica, por ser o elemento mais importante de todo o projeto, merece uma descrição mais detalhada, como veremos mais adiante, na Parte I.
Paralelamente à elaboração das fichas, vimos ser necessário definir um sistema de catalogação das obras, com o propósito de organizar o acervo para consulta. Optou-se por adotar o critério de instrumentação, por sua objetividade e porque entendemos que os principais interessados no acervo seriam flautistas e professores de flauta doce. Partindo de sistemas adotados por editoras de partituras, amplamente conhecidos por flautistas, chegamos a quatro grandes categorias: flauta(s) a cappella, música de câmara com outros instrumentos, flauta(s) e orquestra, e flauta e meios eletroacústicos. Sempre pensando na agilidade da consulta, subdividimos as duas primeiras categorias em várias sub-categorias, como se verá adiante.
Em 2010, com o processo de revisão das fichas em andamento, a cargo dos compositores, começamos a observar o conjunto do acervo, procurando traçar sua trajetória. Desta observação do todo e reflexão sobre ele e também como um fechamento desta primeira fase do projeto, resultou o trabalho intitulado “Prata da Casa – Obras para flauta doce escritas por compositores ligados à UFRGS”, que foi apresentado por Aline Pause Güntzel e Lucia Carpena no IV Encontro Nacional de Flauta Doce, em Recife, e publicado nos anais do encontro, em 2011. O IV Encontro foi promovido pela UFPE e coordenado por Daniele Cruz Barros.
Como desdobramento natural do projeto, a divulgação do repertório do Prata da Casa por meio de concertos também fez parte desta etapa da pesquisa e se deu no mesmo IV Encontro Nacional de Flauta Doce. Intitulado “Novos caminhos para a flauta doce”, abordou as novas trajetórias para o instrumento, explorando o repertório contemporâneo e a música de concerto brasileira para flauta doce. O concerto foi realizado pelo Flautarium – Conjunto de Flautas Doces da UFRGS, integrado na época por Aline Güntzel, Cibele Pereira, Greizi Kirst e Vladimir Soares, coordenado por Lucia Carpena. No concerto, o grupo apresentou três peças do acervo do Prata da Casa: “Desvendando a luz” (2002), de Martin Heuser; “Poemas da Terra” (1976), de Bruno Kiefer, e “Variações sobre a Daphne de Van Eyck” (1998), de Felipe Adami. Foram incluídas ainda uma peça representativa do repertório nacionalista brasileiro de flauta doce, “Moacaretá” (1974), de Sérgio Vasconcelos Corrêa, duas canções populares brasileiras, “Rosa”, de Pixinguinha, e “Jura”, de Sinhô, além de um choro de Zequinha de Abreu, “Pintinhos no terreiro”. Finalizando o programa, uma peça representando a música sul-riograndense, “Mercedita”, de Ramón Sixto Ríos. Neste concerto, percebemos o interesse do público pela música composta no extremo sul do Brasil e os comentários indicavam a grata surpresa pela qualidade e diversidade do repertório apresentado. Terminada a primeira grande etapa do projeto, de localização, identificação e catalogação, das 52 obras compostas entre 1970 e 2010, pudemos então partir para o estudo de um recorte específico do repertório, o das peças para flauta e instrumentos de teclado (cravo ou piano).
As dez composições estudadas revelaram a prevalência da formação flauta doce e piano, refletindo a tendência do repertório no século XX. O uso do cravo ainda é tímido, porém crescente. Há composições atonais, neoclássicas, com uso de técnicas expandidas, minimalistas e de inspiração nos ritmos e modos da música tradicional brasileira, numa diversidade de influências que contribui para a riqueza do repertório do nosso instrumento. A reflexão sobre recorte resultou no artigo “As obras para flauta doce e instrumentos de teclado do projeto ‘Prata da Casa – Obras para flauta doce escritas por compositores ligados à UFRGS”, publicado na revista Ensaio, do Conservatório de Tatuí, em agosto de 2013.
Em paralelo ao recorte citado, o projeto seguiu com sua proposta original, a de disponibilizar seu banco de obras. E o meio mais adequado encontrado para isso foi a criação de uma página na internet, para garantir o acesso livre e fácil que o ambiente virtual proporciona. Além de divulgar o acervo, também queríamos que as fichas pudessem ser baixadas do site e impressas pelo usuário, para que ele tivesse seu próprio catálogo em casa. Este foi sem dúvida o grande foco de 2012 e 2013, e foi necessário que um bolsista da área da Ciência da Computação se juntasse à equipe de trabalho, para a formatação da página. O bolsista Fábio Magalhães começou a trabalhar em meados de 2012 e, juntamente com Aline Pause Güntzel, iniciamos o processo de desenvolvimento da página, discutindo questões como identidade visual, praticidade no uso, quantidade de informações a serem veiculadas. A tarefa revelou-se complexa em todos os sentidos; em 2013 o bolsista Fábio Magalhães saiu do projeto, sendo substituído por Marcelo Paz Gonçalves, também aluno da Ciência da Computação. Paralelamente à criação do site, Marilene Andrade, artista plástica e funcionária técnico- administrativa da UFRGS, começou a criar o logotipo do projeto, que daria identidade visual a todo o material relacionado ao projeto e seria colocado como marca d’água em todas as fichas disponibilizadas no site, com a possibilidade de download e impressão. No mesmo ano de 2013 ocorreu a entrada da bolsista Letícia Arnold no projeto. Ela, que era minha aluna do curso de Música da UFRGS, substituiu Aline Pause Güntzel, que havia concluído o curso e iniciado o mestrado em flauta doce na Alemanha. Com Letícia e Marcelo na equipe, pudemos concluir o complexo processo de construção em andamento e lançar o site no Salão de Iniciação Científica, atingindo nosso grande objetivo: usar o meio virtual para divulgar o acervo de obras para flauta doce compostas na UFRGS. Estava tudo lá, em www.ufrgs.br/pratadacasa!
Mas a ideia de um livro-catálogo em papel continuava povoando nossos sonhos e tomou força e corpo em 2014, quando a Pró-Reitoria de Pesquisa da UFRGS aprovou a solicitação da impressão do material. Rodrigo Soares Paim, aluno do curso de Artes Visuais da UFRGS, se integrou à equipe e juntamente com Letícia, começamos a criar a estrutura do livro. Procuramos unir em um mesmo volume as fichas das obras e outras informações que complementassem o universo do Prata da Casa, como as biografias dos compositores, a bibliografia e a discografia disponíveis sobre o repertório encontrado. A esta altura, já eram 62 peças catalogadas, demonstrando que o Prata era vivo e dinâmico. Como padrinhos desta etapa do projeto, convidamos a flautista e pesquisadora Daniele Cruz Barros e o compositor Fernando Lewis de Mattos para escreverem textos de apresentação, onde o leitor poderia entender melhor o que é o Prata da Casa e o que seu acervo representa.

Para onde caminha o Prata da Casa?

Como pudemos ver, o projeto tem tido múltiplos meios de divulgação, como concertos, apresentações nos Salões de Iniciação Científica da UFRGS e encontros de flauta doce pelo Brasil, além da página na internet, palestras em encontros de compositores e artigos publicados. Este livro-catálogo vem a se somar nesta multiplicidade de meios e teve sua origem, assim como os outros, na minha curiosidade pelo conjunto das obras para flauta doce escritas dentro da UFRGS. Concluído este primeiro ciclo de trabalho, de prospecção e divulgação, entendemos que uma continuação natural do projeto inicial seria investigar os agentes deste repertório: os compositores e flautistas. Aos compositores será certamente muito instigante perguntar sobre sua formação, compreender sua relação com a flauta doce e a motivação para a composição de obras para este instrumento. Aos flautistas que estrearam as obras, muitos deles com obras dedicadas a eles, gostaríamos de saber mais sobre seu engajamento com a música brasileira, sobre a importância da relação intérprete-compositor na criação de novas obras. Muitas são as perguntas em aberto e outras tantas virão sempre que nos debruçarmos sobre o acervo do Prata da Casa. O tempo nos indicará em que ordem serão respondidas.
Desejo que, ao trazer a público este significativo número de obras, escritas num arco de tempo de cerca de 45 anos, este livro-catálogo sirva como base para futuras pesquisas no campo da flauta doce e da música brasileira. E ainda, que flautistas e compositores se sintam incentivados a dar voz a estas obras, tocando-as em seus recitais, e a criar outras tantas mais, que farão do Prata da Casa um acervo vivo, dinâmico e em expansão permanente.

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