O Seminário Internacional de Integração e Desenvolvimento Regional (SIDER), é um evento presencial, que objetiva reunir os Programas de Pós-Graduação da área de Planejamento Urbano e Regional/Demografia (PLURD) para discutir ações de pesquisa e extensão de modo a gerar reflexos ambientais, sociais e econômicos que promovam o desenvolvimento nas regiões e nos lugares, além de contribuir para o desenvolvimento dos Programas que formam a Rede Aranduassu de Estudos Regionais.
Reconhecer, valorizar e aprender com os modos historicamente situados de apropriação social de processos ecológicos, mediados por distintas culturas, é o que se propõe a fazer no VIII SIDER. A intenção é reflexionar – e suplantar – a ideia hegemônica de ‘natureza a serviço do mercado’, pois nesta, a importância do território, as contradições, os conflitos da apropriação e a existência de classes sociais, torna-se invisível.
Assim, o VIII SIDER convida à revisita de significados e ressignificações das concepções de ambiente e de natureza, entendendo que o desenvolvimento pode ser pautado no diálogo com os saberes e os fazeres das comunidades locais e regionais.
O Litoral Norte do Rio Grande do Sul, um locus privilegiado com cenários de potencialidades e fragilidades naturais, ambientais e culturais, é palco de disputas sobre ambientalidade(s) e desenvolvimento(s). A exemplo, citamos a pesca cooperativa entre pescadores artesanais de tarrafa e os botos na barra de Tramandaí/Imbé, RS, parte patrimônio cultural de natureza imaterial no município de Tramandaí.
Os botos adentram o canal da Barra e perseguem os cardumes de tainhas, encurralando-os próximo aos pescadores. O boto exerce um movimento característico com a cabeça, a chamada “cabeçada” o que sinaliza o momento apropriado para a jogada da rede na água. Assim, ao jogar sua tarrafa o pescador apreende o cardume de tainhas (Simões-Lopes, 1991; Santos et al. 2018, Ilha et al., 2018, Camargo et al. 2020). Por outro lado, o boto tem sua pesca facilitada ao usar a tarrafa como elemento perturbador do cardume, capturando alguns peixes que não ficam presos nela (relato pessoal de pescadores).
Diversas ameaças de ordem econômica e social colocam em risco botos, pescadores artesanais de tarrafa, tainhas e a interação entre eles, levando à descaracterização da paisagem, à perda do território historicamente ocupado, suas memórias, práticas e saberes – a descaracterização desta ambientalidade.
A urbanização desordenada, impacta de forma negativa os principais atores da pesca cooperativa e, por consequência, toda a diversidade local. Já existem estudos científicos que relacionam as atividades humanas negativas no sistema lagunar (descarga de esgoto não tratado e a consequente poluição biológica e química) como uma ameaça para tainhas e para os botos (De Andrade et al. 2004, Sacristán et al. 2016). O uso indiscriminado de agrotóxicos e de fertilizantes químicos de forma constante nas plantações de arroz e de outros cultivos na bacia hidrográfica também são uma ameaça a toda a biodiversidade costeira que encontra na barra do rio Tramandaí o seu habitat ideal para a sobrevivência.
Esta é uma das temáticas que será abordada no VIII SIDER, por meio de um dos três trabalhos de campo previstos. Consideramos que proporcionar esta e outras vivências aos participantes, desde ambientalidades do Litoral Norte Gaúcho vai ao encontro da proposta central do evento.
Perceber in situ, de forma material e simbólica, as fricções (conceito chave para compreender o conhecimento cosmopolita sobre a natureza, onde encontros heterogêneos e desiguais podem levar a novos arranjos de cultura e poder, conforme Tsing (2004 ) e as rugosidades (o que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares, segundo Santos (2006 ), é o motivador para se propor um formato de evento com roteiros de campo, vividos no chão, como prática andante (Radaelli, 2002 ), uma categoria da experiência e não do experimental.
