Precisamos falar sobre igualdade de gênero no Instituto de Artes da UFRGS

#PrecisamosFalarSobreGêneroNoIA

Dezembro de 2017

A pesquisa sobre igualdade de gênero no Instituto de Artes, em sua fase inicial, foi realizada ao longo de novembro de 2017, conta com dados do Núcleo Acadêmico e Núcleo de Administração e Recursos Humanos do Instituto de Artes, e sua sistematização foi realizada pelo Grupo de Pesquisa em Estudos de Gênero, Corpo e Música da UFRGS, coordenado pela profa. Isabel Nogueira (DEMUS).

Esta pesquisa se insere nos objetivos do projeto He for She, projeto criado pela ONU Mulheres e do qual a UFRGS se tornou signatária em 2017. O projeto He for She tem como objetivo engajar homens e meninos para novas relações de gênero sem atitudes e comportamentos machistas, ampliando o diálogo sobre os direitos das mulheres através das seguintes estratégias: atenção (educação, sensibilização e conscientização); argumentação (impacto através de políticas e planejamento); ação (captação de recursos e outras ações).

A área de estudos de gênero já tem uma trajetória de estudos de mais de trinta anos, envolvendo reflexões teóricas interseccionadas com diversas áreas do conhecimento e se ocupa em estudar, entre outras coisas/ temas/ questões/ problemas, os processos que motivam e/ou causam as invisibilidades de mulheres na produção e divulgação do conhecimento, propondo novas estratégias.

Em outras palavras, entendemos que os problemas relacionados à representatividade e invisibilidade de gênero não tratam de uma não existência da produção de mulheres nas áreas do conhecimento, muito menos de falta de competência, domínio ou excelência das mulheres em seus campos de atuação; mas da invisibilização desta produção por meio de mecanismos estruturantes e complexos que impedem e/ou impõe restrições ao acesso e ao reconhecimento.

Estes mecanismos são também invisibilizados dentro da sociedade, e olhar para eles e discuti-los é o primeiro passo para que se possa em pensar ações afirmativas e a discussão de possibilidades de mudança desta situação.

Ao mesmo tempo, as epistemologias feministas propõem o questionamento do saber cientifico como puramente objetivo e racional, entendendo que todas as pessoas estão implicadas em seus objetos de pesquisa, e neste sentido se entende gênero como um dos primeiros marcadores políticos que atravessa toda a forma de ser e estar no mundo.

No entanto, a discussão sobre a generificação de práticas e conhecimentos se torna mais importante do que ressaltar uma essência feminina única que congregaria a todas as mulheres, no sentido de possibilitar às mulheres o exercício de papeis diversos e híbridos, de acordo com as suas vontades e desejos.

Em um primeiro momento se buscou realizar o levantamento dos números entre homens e mulheres, professoras e professores, alunos e alunas, no Instituto de Artes da UFRGS.

Pensar em ações afirmativas para a inclusão de mulheres, observando de que forma os cursos podem ser atrativos e inclusivos é então uma tarefa de toda a comunidade universitária, mas além disto, precisamos também pensar as práticas cotidianas, e como a generificação de papeis e tratamentos se observa no dia a dia em sala de aula e no convívio dentro da universidade.

Em um próximo momento, buscaremos pensar sobre as diferenças entre obras de compositoras e compositores no repertorio adotado nos concertos, nas salas de aula e nos exemplos das disciplinas; na relação entre autoras mulheres e autores homens nos livros adotados e/ou citados nas disciplinas, nas obras de mulheres e homens nas exposições e mostras cênicas, nas curadorias, nas e nos palestrantes convidados e convidadas para eventos e em todos os lugares de destaque ou protagonismo, bem como nas taxas de permanência e evasão de alunos e alunas nos cursos do IA.

Entendendo que a ausência de modelos onde espelhar-se é um dos elementos mais citados pelas mulheres artistas como inibidores subliminares de sua participação neste universo, convidamos a pensar sobre possíveis formas de atuação para minimizar esta falta e esta desigualdade.

Ainda, convidamos a pensar sobre a participação das mulheres nas salas de aula, sobre como são ou não convidadas e incentivadas a manifestarem-se, e em como suas vozes e perguntas são ou não ouvidas nestes espaços.

Propomos, a partir dos dados obtidos, a pensar sobre a generificação e aceitação dos lugares das mulheres dentro da música, pois, como afirma Lucy Green, os papeis de cantora e/ou professora são ainda hoje mais aceitos socialmente para as mulheres, como comprova o levantamento realizado no IA.

Entendendo que estas barreiras se manifestam de diversas formas, realizamos ainda o levantamento de alunos e alunas aprovadxs na prova especifica da música de 2017, e os números demonstram um maior percentual de aprovação dos alunos homens, com relação ás candidatas mulheres.

Convidamos ainda a pensar sobre a generificação praticada através da linguagem, pois o uso da linguagem tradicionalmente tida como neutra na língua portuguesa gera sentimentos de exclusão e não pertencimento aos campos.

Ao mesmo tempo, os estudos de gênero buscam descontruir os conceitos de heteronormatividade e cisnormatividade como padrão neutro, entendendo que todas as orientações devem ser respeitadas.

Algumas sugestões para pensar sobre práticas cotidianas, a ser discutidas pelo Instituto e acrescidas de outras: pensar em cotas para acesso; pensar em bancas compostas por ao menos uma mulher para avaliação das candidatas; propor disciplinas que tratem dos temas de música e gênero e arte e gênero; incentivar as alunas para uma maior participação nas salas de aula e nas atividades artísticas; evitar o uso de brincadeiras sexistas; incluir compositoras nos programas de instrumento e canto buscando a paridade, assim como artistas mulheres nas mostras e exposições; realizar festivais e workshops específicos para mulheres; buscar a paridade na formação das mesas em congresso e eventos; pensar em formas de possibilitar a permanência de mulheres no curso.

O levantamento realizado será divulgado para toda a comunidade do Instituto de Artes via cartazes, rodas de conversa e reuniões abertas de colegiados e conselho.

Convidamos ainda para uma roda de conversa sobre paridade nas relações de gênero no Instituto de Artes a realizar-se no dia 19 de dezembro as 15h30 no prédio do IA.