Como deve ser realizado o esquema para profilaxia da raiva humana pós-exposição?

Na ocorrência de acidentes envolvendo mordedura por animais, a definição do esquema para profilaxia da raiva humana pós-exposição (PEP) deve ser precedida de avaliação baseada nos critérios descritos na Figura 1 e no Quadro 1.

Figura 1 – Fluxograma de avaliação da profilaxia da raiva humana

 profilaxia da raiva humana fluxograma

Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2022,2024) [1,2].

Para fazer o download do fluxograma clique aqui

Quadro 1 – Critérios para a avaliação de acidentes com ferimentos leves e graves por animais

ACIDENTES LEVES CONDIÇÃO DO ANIMAL AGRESSOR
Cão ou gato sem suspeita de raiva no momento da agressão
E
passível de observação por 10 dias
Cão ou gato clinicamente suspeito de raiva no momento da agressão
OU
não passível de observação por 10 dias
Animais domésticos de interesse econômico ou de produção (bovinos, bubalinos, equídeos, caprinos, ovinos, suínos) Morcegos e outros animais silvestres (inclusive os domiciliados)
Ferimentos superficiais, pouco extensos, geralmente únicos, em tronco e membros (exceto mãos, polpas digitais e pés);
podem acontecer em decorrência de mordeduras ou arranhaduras causadas por unha ou dente.
Lambedura de pele com lesões superficiais.
Lavar com água e sabão.

Não iniciar profilaxia.
Observar o animal durante 10 dias após a exposição1.
– Se o animal permanecer sadio no período de observação, encerrar o caso.
– Se o animal morrer, desaparecer ou se tornar raivoso, iniciar imediatamente esquema profilático com 4 doses da vacina.

Esquema de administração:
– Nos dias 0, 3, 7 e 14, pela via IM ou ID4.

Lavar com água e sabão.

Iniciar profilaxia com 4 doses da vacina.

Esquema de administração:
– Nos dias 0, 3, 7 e 14, pela via IM ou ID4.

Lavar com água e sabão.

Iniciar profilaxia com 4 doses da vacina.

Esquema de administração:
– Nos dias 0, 3, 7 e 14, pela via IM ou ID4.

Lavar com água e sabão.Iniciar profilaxia com soro (SAR ou IGHAR)3 e 4 doses da vacina.

Esquema de administração do soro:
– O soro deve ser administrado no dia 0 ou o mais rápido possível e, no máximo, até 7 dias da aplicação da primeira dose da vacina. Após esse prazo, o soro  é contraindicado.

Doses:
– Soro antirrábico (SAR): 40UI/kg de peso.

OU

– Imunoglobulina humana antirrábica (IGHAR): 20UI/kg. de peso.

E

Esquema de administração da vacina:
– Nos dias 0, 3, 7 e 14, pela via IM ou ID4.

ACIDENTES GRAVES CONDIÇÃO DO ANIMAL AGRESSOR
Cão ou gato sem suspeita de raiva no momento da agressão
E
passível de observação por 10 dias
Cão ou gato clinicamente suspeito de raiva no momento da agressão
OU
não passível de observação por 10 dias
Animais domésticos de interesse econômico ou de produção (bovinos, bubalinos, equídeos, caprinos, ovinos, suínos e outros) Morcegos e outros animais silvestres (inclusive os domiciliados)
– Ferimentos nas mucosas, cabeça, face, pescoço, mãos, polpas digitais e/ou nos pés.
– Ferimentos profundos, múltiplos ou extensos, em qualquer região do corpo.
– Lambedura de mucosas mesmo que intactas.
– Lambedura de pele onde já existe lesão grave.
– Ferimento profundo causado por unha de animal.
– Ferimento causado por mamíferos silvestres (como morcegos, micos, macacos, raposas, quatis, gambás, capivaras, cachorros do mato, felídeos selvagens, javalis).
Lavar com água e sabão.

Não iniciar profilaxia.
Observar o animal durante 10 dias após exposição. 1,2

– Se o animal permanecer sadio no período de observação, encerrar o caso.

– Se o animal morrer, desaparecer ou se tornar raivoso, iniciar profilaxia, administrando o soro (SAR ou IGHAR)3 e 4 doses da vacina.

Esquema de administração do soro:
– O soro deve ser administrado no dia 0 ou o mais rápido possível e, no máximo, até 7 dias da aplicação da primeira dose da vacina. Após esse prazo, o soro é contraindicado.

Doses:
– Soro antirrábico (SAR): 40UI/kg de peso.

OU

– Imunoglobulina humana antirrábica (IGHAR): 20UI/kg de peso.

E

Esquema de administração da vacina:
– Nos dias 0, 3, 7 e 14, pela via IM ou ID4.

Lavar com água e sabão.

Iniciar profilaxia com soro (SAR ou IGHAR)3 e 4 doses da vacina.

Esquema de administração do soro:
– O soro deve ser administrado no dia 0 ou o mais rápido possível e, no máximo, até 7 dias da aplicação da primeira dose da vacina. Após esse prazo, o soro é contraindicado.

Doses:
– Soro antirrábico (SAR): 40UI/kg de peso.

OU

– Imunoglobulina humana antirrábica (IGHAR): 20UI/kg de peso.

E

Esquema de administração da vacina:
– Nos dias 0, 3, 7 e 14, pela via IM ou ID4.

Lavar com água e sabão.Iniciar profilaxia com soro (SAR ou IGHAR)3 e 4 doses da vacina.

Esquema de administração do soro:
– O soro deve ser administrado no dia 0 ou o mais rápido possível e, no máximo, até 7 dias da aplicação da primeira dose da vacina. Após esse prazo, o soro é contraindicado.

Doses:
– Soro antirrábico (SAR): 40UI/kg de peso.

OU

– Imunoglobulina humana antirrábica (IGHAR): 20UI/kg de peso.

E

Esquema de administração da vacina:
– Nos dias 0, 3, 7 e 14, pela via IM ou ID4.

Lavar com água e sabão.

Iniciar profilaxia com soro (SAR ou IGHAR)3 e 4 doses da vacina.

Esquema de administração do soro:
– O soro deve ser administrado no dia 0 ou o mais rápido possível e, no máximo, até 7 dias da aplicação da primeira dose da vacina. Após esse prazo, o soro é contraindicado.

Doses:
– Soro antirrábico (SAR): 40UI/kg de peso.

OU

– Imunoglobulina humana antirrábica (IGHAR): 20UI/kg de peso.

E

Esquema de administração da vacina:
– Nos dias 0, 3, 7 e 14, pela via IM ou ID4.

CONTATO INDIRETO
Não são considerados acidentes de risco:

– Acidentes com agulhas durante aplicação de vacina animal.
– Contato em pele íntegra com secreções ou excreções do animal, ainda que raivoso ou de caso humano.
– Lambedura da pele íntegra.
– Manipulação de utensílios potencialmente contaminados.
– Tocar ou dar de comer para animais.

Lavar com água e sabão.

Não indicar profilaxia.

Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2014, 2019, 2022, 2024), Silva (2017) e Duncan et al. (2022)[1–6].
ID: intradérmica; IGHAR: imunoglobulina humana antirrábica; IM: intramuscular; SAR: Soro antirrábico.
¹ Orientar o paciente a informar a Unidade de Saúde imediatamente se o animal morrer, desaparecer ou se tornar raivoso, pois pode ser necessária a aplicação do soro.
² Sempre avaliar os hábitos do cão e gato e os cuidados recebidos. Pessoas agredidas por cão e gato que, com certeza, não têm risco de contrair a infecção rábica podem ser dispensadas do esquema profilático. Por exemplo, animais que vivem dentro do domicílio (exclusivamente), não tenham contato com outros animais desconhecidos, que somente saem à rua acompanhados dos seus donos e que não circulam em área com a presença de morcegos. Se o animal for procedente de área de raiva controlada, não é necessário iniciar o esquema profilático. Em caso de dúvida, iniciar o esquema de profilaxia indicado.
³ Existindo clara identificação da localização da(s) lesão(ões), recentes ou cicatrizadas, deve-se infiltrar o volume total indicado. Quando não for possível infiltrar toda dose, aplicar o máximo possível e a quantidade restante, a menor possível, aplicar pela via intramuscular, podendo ser utilizada a região glútea. Atentar para aplicação em local anatômico diferente da aplicação da vacina. Quando as lesões forem muito extensas ou múltiplas, a dose do soro a ser infiltrada pode ser diluída, o menos possível, em soro fisiológico, para que todas as lesões sejam infiltradas.
⁴ Nos serviços nos quais a administração for feita por via intramuscular (IM), deve-se aplicar a dose total do frasco-ampola para cada dia; que varia de entre 0,5 mL ou 1,0 mL, conforme o laboratório produtor. O local de aplicação pode ser no deltoide ou vasto lateral da coxa (em crianças menores de 2 anos), não aplicar no glúteo. Nos serviços nos quais a administração for feita por via intradérmica (ID), a dose é de 0,2 mL para cada dia (fraciona-se o frasco-ampola). Considerando que, pela via ID, o volume máximo a ser administrado é de 0,1 mL, serão necessárias duas aplicações de 0,1mL cada/dia, em regiões anatômicas diferentes, podendo ser na inserção do músculo deltoide ou no antebraço.
Não é necessário reiniciar a profilaxia de pacientes faltosos. Nesses casos, aplicar o(s) imunobiológico(s) restante(s) no dia em que o paciente comparecer à unidade e continuar o esquema, mantendo os intervalos das doses subsequentes de acordo com o intervalo do esquema originalmente proposto[1].

ATENÇÃO! Nunca administrar a vacina antes da data aprazada.

Reexposição

Em pessoas que realizaram profilaxia pré-exposição (PrEP) [1]:

  • O soro (SAR ou IGHAR) não está indicado.
  • Independente do intervalo de tempo, se recebeu esquema completo, indica-se profilaxia nos dias 0 e 3.
  • Se foi aplicada apenas uma dose de profilaxia pré-exposição, essa deve ser desconsiderada e o esquema de profilaxia, indicado para o caso, deve ser iniciado.

Veja as indicações de profilaxia pré-exposição aqui.

Em pessoas que já realizaram profilaxia pós-exposição (PEP):

Pessoas com reexposição ao vírus da raiva, que já tenham recebido PEP anteriormente, devem ser submetidas a novo esquema profilático, de acordo com as seguintes indicações [2,4,6]:

  • O soro (SAR ou IGHAR) não está indicado de forma geral. No entanto, poderá ser utilizado se houver dúvidas sobre PEP prévia. Também é sempre  indicado  em pacientes imunodeprimidos. Nesses casos, recomenda-se que sejam realizados soro, vacina e avaliação sorológica após o 14º dia da aplicação da última dose.
  • Até 90 dias da última PEP:

– Se a pessoa realizou o esquema anterior completo: não indicar profilaxia.

– Se a pessoa realizou o esquema incompleto: completar o número de doses faltantes.

  • Após 90 dias da última PEP:

– Se a pessoa realizou o esquema anterior com pelo menos 2 doses: administrar mais 2 doses, nos dias 0 e 3.

– Se a pessoa realizou apenas 1 dose: deve-se desconsiderar o esquema anterior e realizar a PEP conforme o Quadro 1.

Devem ser avaliados, individualmente, os pacientes que receberam muitas doses da vacina (esquema completo de PEP e vários esquemas de reexposição), visto que o risco de reações adversas às vacinas aumenta com o número de doses aplicadas. Nesses casos, se possível, deve-se solicitar a avaliação sorológica do paciente [1,2,4,6].

Informações Complementares 

  • A história vacinal do animal agressor não constitui elemento suficiente para a dispensa da indicação do esquema profilático da raiva humana [2,4,6].
  • Sempre que houver indicação, tratar o paciente em qualquer momento, independentemente do tempo transcorrido entre a exposição e o acesso à unidade de saúde [4,6].
  • Não há contraindicação específica para a profilaxia pós-exposição considerando a gravidade e a evolução fatal da doença. As vacinas podem ser administradas em crianças de qualquer idade, gestantes, lactantes, pessoas com doenças intercorrentes e imunocomprometidos, incluindo pessoas vivendo com HIV/aids [6,7].
  • Não se recomenda a sutura de ferimentos. Quando for absolutamente necessário, aproximar as bordas com pontos isolados. Havendo necessidade de aproximar as bordas, o soro antirrábico, se indicado, deverá ser infiltrado 1 hora antes da sutura [6,7].
Todo atendimento por acidente com animal potencialmente transmissor da raiva deve ser notificado por meio da Ficha de Investigação de Atendimento Antirrábico Humano, independente da indicação de receber vacina e/ou soro [2].

Veja aqui como realizar avaliação da profilaxia do tétano e antibioticoterapia profilática em mordeduras por animais.

 

Confira outros materiais que abordam o tema Profilaxia:

 

Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.

A telessaúde, ao promover apropriação tecnológica sustentada em evidências, atua como eixo organizador de sistemas de saúde centrados nas pessoas. A telemedicina é uma inovação que tem o potencial de transformar a Atenção Primária à Saúde (APS), otimizar seu funcionamento, conectar pessoas e viabilizar o acesso universal, equânime e integral, qualificando o SUS! Vamos juntos?

Referências:

  1. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde. Nota Técnica no 8/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS. Informa sobre atualizações no Protocolo de Profilaxia pré, pós e reexposição da raiva humana no Brasil. [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022. Disponível em: https://sei.saude.gov.br/sei/controlador_externo.php?acao=documento_conferir&codigo_verificador=0024943068&codigo_crc=FD5CF44A&hash_download=a0264e5812d891fceab45ba2ecf31eefacc97d78c7721130e9b162f3cbcd8a158a5ba540966ca95987302cb5e33c25b884c772f9d5634df3dbfa4d4ad0d4f626&visualizacao=1&id_orgao_acesso_externo=0. 
  2. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde [Internet]. 6 ed. rev. Vol. 3. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2024 [citado 18 de outubro de 2024]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/vigilancia/guia-de-vigilancia-em-saude-volume-3-6a-edicao/view. 
  3. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica. Esquema para profilaxia da raiva humana com vacina de cultivo celular [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2019 [citado 18 de outubro de 2024]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/esquema_profilaxia_raiva_humana.pdf. 
  4. Silva ER. Guia prático de atendimento antirrábico no Rio Grande do Sul [Internet]. Porto Alegre: Secretaria da Saúde do Estado do Rio Grande do Sul; 2017 [citado 18 de outubro de 2024]. Disponível em: https://www.cevs.rs.gov.br/upload/arquivos/201710/13165919-guia-pratico-de-atendimento-antirrabico-no-rs-2017.pdf. 
  5. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, Duncan MS, Giugliani C. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5o ed. Porto Alegre: Artmed; 2022.
  6. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica. Normas técnicas de profilaxia da raiva humana [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2014 [citado 18 de outubro de 2024]. Disponível em: https://www.cevs.rs.gov.br/upload/arquivos/201611/24154724-normas-tecnicas-de-profilaxia-da-raiva.pdf. 
  7. World Health Organization. WHO expert consultation on rabies: third report [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2018 [citado 18 de outubro de 2024]. (WHO technical report series;1012). Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/272364. 

 

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Como deve ser realizado o esquema para profilaxia da raiva humana pós-exposição?  Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 21 nov. 2024 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/profilaxia-da-raiva/.

Publicador

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS

Organização

Elise Botteselle de Oliveira¹

Laura Ferraz dos Santos¹

Luíza Emília Bezerra de Medeiros¹

Ana Cláudia Magnus Martins¹

Rudi Roman¹

Juliana Nunes Pfeil¹

Rodolfo Souza da Silva¹

Natan Katz1,2

Roberto Nunes Umpierre1,2

Autoria

Victória Tiyoko Moraes Sakamoto¹

Fabiane Elizabetha de Moraes Ribeiro¹

Franciele Savian Batistella¹

Revisão Técnica

Elise Botteselle de Oliveira¹

Laura Ferraz dos Santos¹

Revisão Textual e Normalização

Bruna Rodrigues da Silva¹

Felícia Volkweis¹

Diagramação

Laura Willke de Moraes¹

Instituições

¹Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS

²Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Social.