Como fazer a abordagem inicial na APS de casos suspeitos de arboviroses (Dengue, Zika e Chikungunya)?
O cenário epidemiológico das arboviroses no Brasil é caracterizado pela circulação simultânea dos quatro sorotipos do vírus Dengue (DENV) e dos vírus Chikungunya (CHIKV) e Zika (ZIKV). Os sintomas das três doenças podem ser muito semelhantes, não sendo possível o diagnóstico etiológico apenas com base no quadro clínico [1,2]. A arbovirose mais comum no território nacional é a dengue, portanto, devido à semelhança dos sintomas, em especial no quadro inicial, a abordagem inicial até o diagnóstico específico deve ser sindrômica. E recomenda-se a adoção de medidas para manejo clínico de dengue, uma vez que esse agravo apresenta elevado potencial de complicações e morte quando comparado à zika e chikungunya [2, 3]. O manejo recomendado é resumido na Figura 1.
Figura 1 – Fluxograma para avaliação e manejo de casos suspeitos de Dengue, Zika ou Chikungunya
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [2,4].
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A definição de caso suspeito para cada uma das arboviroses é descrita no Quadro 1.
Quadro 1 – Definição de caso suspeito de Dengue, Chikungunya e Zika
| Doença | Definição de caso suspeito |
|---|---|
| Dengue | Indivíduo que resida em área onde se registram casos de dengue ou que tenha viajado nos 14 dias antes do início dos sintomas para área com ocorrência de transmissão ou presença de Aedes aegypti. Deve apresentar febre, usualmente entre 2 e 7 dias, e duas ou mais das seguintes manifestações: náusea/vômitos; exantema; mialgia/artralgia; cefaleia/dor retro-orbital; petéquias/prova do laço positiva; leucopenia. Crianças: proveniente de (ou residente em) área com transmissão de dengue, com quadro febril agudo, usualmente entre 2 e 7 dias, e sem sinais e sintomas indicativos de outra doença. |
| Chikungunya | Indivíduo residente ou que tenha viajado para áreas com transmissão nos últimos 14 dias antes do início dos sintomas ou que tenha vínculo epidemiológico com caso importado confirmado. Deve apresentar febre de início súbito maior que 38,5ºC E artralgia ou artrite intensa de início agudo, não explicado por outras condições. |
| Zika | Pacientes que apresentem exantema maculopapular pruriginoso acompanhado de UM dos seguintes sinais e sintomas: febre; hiperemia conjuntival/conjuntivite não purulenta; artralgia/poliartralgia; edema periarticular. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [1].
Sempre que possível, a investigação etiológica preferencial deve ser feita por métodos diretos (respeitando-se o momento adequado para cada teste), já que existe a possibilidade de reação cruzada da sorologia IgM entre ZIKV e DENV [1]. Para mais informações sobre os exames específicos para diagnóstico de dengue, clique aqui. Após a confirmação laboratorial dos primeiros casos de uma área, os demais casos agudos de dengue podem ser confirmados por critério clínico-epidemiológico, exceto em gestantes, crianças, pacientes com manifestações neurológicas, idosos, pacientes com comorbidades descompensadas, imunossuprimidos e óbitos, que devem ser confirmados por critério laboratorial [1]. O diagnóstico diferencial não é baseado apenas na presença ou na ausência dos sintomas, mas também na sua cronologia e intensidade [1,5]. O Quadro 2 resume as principais características clínicas que diferenciam as arboviroses.
Quadro 2 – Principais características clínicas de Dengue, Zika e Chikungunya
| Sinais/sintomas | Dengue | Zika | Chikungunya | |
|---|---|---|---|---|
| Febre | Intensidade | Alta (>38ºC) | Ausente ou febre baixa (≤ 38ºC) | Alta (>38ºC) |
| Duração (dias) | 2-7 | 1-2 | 2-3 | |
| Exantema | Surgimento | 3º ao 6º dia | 1º ao 2º dia | 2º ao 5º dia |
| Mialgia (frequência) | +++ | ++ | ++ | |
| Artralgia (frequência) | + | ++ | +++ | |
| Edema articular | Frequência | Raro | Frequente | Frequente |
| Intensidade | Leve | Leve | Moderada a grave | |
| Conjuntivite | Raro | 50-90% | 30% | |
| Cefaleia | +++ | ++ | ++ | |
| Linfonodomegalia | + | +++ | ++ | |
| Discrasia hemorrágica | ++ | Ausente | + | |
| Acometimento neurológico | + | +++ | ++ | |
| Leucopenia | +++ | ++ | ++ | |
| Linfopenia | Incomum | Icomum | Frequente | |
| Trombocitopenia | +++ | + | ++ | |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2023, 2024) e Brito e Cordeiro MT (2016) [1,2,5].
Todos os casos suspeitos, confirmados ou não, devem ser obrigatoriamente notificados à Vigilância Epidemiológica do município [1,2]. O registro das notificações de dengue e chikungunya deve ser realizado no Sinan Online, por meio da Ficha de Notificação/Investigação de dengue e chikungunya . As notificações de Zika devem ser registradas na Ficha de Notificação Individual/Conclusão. Os óbitos e casos graves são de comunicação imediata, devem ser comunicados em até 24 horas para a esfera superior do sistema [1].
Além das 3 arboviroses descritas, o diagnóstico diferencial inclui uma ampla gama de doenças. A probabilidade do diagnóstico varia conforme o contexto epidemiológico local, a exposição e os sintomas apresentados [2,6]. Pode-se dividir os principais diagnósticos diferenciais sindromicamente conforme o Quadro 3.
Quadro 3 – Principais diagnósticos diferenciais divididos sindromicamente
| Quadro sindrômico | Diagnósticos diferenciais |
|---|---|
| Síndrome febril aguda | – Influenza e outras viroses respiratórias; – COVID-19; – Enteroviroses; – Hepatites virais ; – Infecção aguda pelo HIV; – Malária; – Febre tifóide; – Febre do Oropouche. |
| Síndrome febril hemorrágica | – Hantavirose; – Febre amarela; – Leptospirose; – Malária grave; – Riquetsioses. |
| Síndrome febril exantemática | – Rubéola; – Sarampo; – Escarlatina; – Eritema infeccioso; – Exantema súbito; – Infecção aguda pelo HIV; – Enteroviroses; – Mononucleose infecciosa; – Parvovirose; – Citomegalovirose; – Febre do Mayaro; – Doenças não infecciosas: farmacodermias, doença de Kawasaki, doença de Henoch-Schonlein. |
| Síndrome dolorosa abdominal | – Apendicite; – Obstrução intestinal; – Abscesso hepático; – Abdome agudo; – Pneumonia; – Infecção urinária; – Colecistite aguda. |
| Síndrome do choque | – Meningococcemia; – Septicemia; – Meningite por Haemophilus infuenzae tipo B; – Febre purpúrica brasileira; – Síndrome do choque tóxico; – Choque cardiogênico (miocardites). |
| Síndrome meníngea | – Meningites virais; – Meningite bacteriana; – Encefalites. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2023, 2024) [1,2].
Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.
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Referências:
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde. 6a ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2023.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Doenças Transmissíveis. Dengue: diagnóstico e manejo clínico: adulto e criança [Internet]. 6a ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 [citado 1o de março de 2024]. 81 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/dengue/dengue-diagnostico-e-manejo-clinico-adulto-e-crianca.
- World Health Organization. Handbook for Clinical Management of Dengue [Internet]. Geneva: WHO; 2012 [citado 1o de março de 2024]. 124 p. Disponível em: .
- Ministério da Saúde (Brasil). Dengue: classificação de risco e manejo do paciente [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2024 [citado 1o de fevereiro de 2024]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/dengue/dengue_classificacao_risco_manejo_paciente.pdf/view.
- Brito CAAD, Cordeiro MT. One year after the Zika virus outbreak in Brazil: from hypotheses to evidence. Rev Soc Bras Med Trop. outubro de 2016;49(5):537–43.
- Thomas SJ, Rothman AL, Srikiatkhachorn A, Kalayanarooj S. Dengue virus infection: clinical manifestations and diagnosis [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2022. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/dengue-virus-infection-clinical-manifestations-and-diagnosis.
Como citar o documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Como investigar casos suspeitos de arboviroses (Dengue, Zika e Chikungunya)? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 11 Mar. 2024 [citado em dia, mês abreviado e ano]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/como-fazer-abordagem-inicial-na-aps-de-casos-suspeitos-de-arboviroses-dengue-zika-e-chikungunya/
Publicador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS
