Qual o manejo de crianças menores de 5 anos com Doença Diarreica Aguda (DDA) na Atenção Primária à Saúde (APS)?
O tratamento fundamental da diarreia aguda é a reposição de água e eletrólitos, com objetivo de prevenir ou tratar distúrbios hidroeletrolíticos, independente da etiologia [1,2,3,4]. Para orientar o manejo mais adequado, deve-se realizar avaliação clínica, incluindo exame físico completo (quadro 1), com objetivo de determinar a gravidade da desidratação [1].
Quadro 1. Avaliação clínica da diarreia.
| História clínica | Exame físico |
|---|---|
| – tempo de início, frequência das evacuações, tipo e volume; – presença de sangue; – vômito; – medicamentos em uso; – história mórbida pregressa; – comorbidades; – riscos epidemiológicos. |
– peso; – temperatura; – frequência cardíaca e respiratória; – estado geral; – sinais de desidratação. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de World Gastroenterology Organisation (2012) [1].
O quadro 2 determina a classificação, de acordo com a gravidade da desidratação, e a conduta a ser tomada em crianças entre 2 meses e 5 anos.
Quadro 2. Avaliação do estado de hidratação do paciente¹.
| ETAPAS | A (sem desidratação) | B (com desidratação) | C (com desidratação grave) | |
|---|---|---|---|---|
| Observe | Estado geral¹ | Ativo, alerta | Irritado, intranquilo | Comatoso, hipotônico, letárgico ou inconsciente* |
| Olhos² | Sem alteração | Fundos | Fundos | |
| Sede² | Sem sede | Sedento, bebe rápido e avidamente | Não é capaz de beber* | |
| Lágrimas | Presentes | Ausentes | Ausentes | |
| Boca/língua | Úmida | Seca ou levemente seca | Muito seca | |
| Explore | Sinal da prega abdominal² | Desaparece imediatamente | Desaparece lentamente | Desaparece muito lentamente(mais de 2 segundos) |
| Pulso | Cheio | Cheio | Fraco ou ausente* | |
| Perda de peso³ | Sem perda | Até 10% | Acima de 10% | |
| Decida | SEM SINAIS DE DESIDRATAÇÃO | Se apresentar 2 ou mais sinais: COM DESIDRATAÇÃO | Se apresentar 2 ou mais sinais, sendo ao menos 1 destacado com asterisco (*): DESIDRATAÇÃO GRAVE | |
¹OBSERVAÇÃO: caso haja dúvida quanto à classificação (variáveis de desidratação ou de desidratação grave), deve-se estabelecer o plano de tratamento considerado no pior cenário.
²Variáveis para avaliação do estado de hidratação do paciente que têm maior relação de sensibilidade e especificidade, segundo a Organização Mundial da Saúde.
³A avaliação da perda de peso é necessária quando o paciente está internado e evolui com diarreia e vômito.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2023) [5].
Pacientes com quadro diarreico e que apresentem temperatura igual ou maior a 39ºC devem ser investigados quanto à possibilidade de outras condições associadas, como pneumonia, otite ou infecção urinária [5].
Crianças com menos de 2 meses de idade e que apresentam 2 ou mais sinais de desidratação ou disenteria devem ser avaliadas em serviço de urgência/emergência. Caso não apresentem desidratação, sugere-se aplicar o Plano A, com reavaliação em 48 horas, ou antes, se piora clínica [6].
Crianças sem sinais clínicos de desidratação devem seguir o plano A, para prevenir a desidratação no domicílio, como descrito no quadro 3 [3,7].
Quadro 3. Plano A: para prevenir a desidratação no domicílio.
1. Oferecer mais líquido que o habitual, tanto quanto a criança aceitar, para prevenir a desidratação:
Indicação de SRO:
Orientar:
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2. Manter a alimentação habitual para prevenir a desnutrição.
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3. Dar zinco oral, 1x/dia, por 10 dias.
O zinco está disponível comercialmente, ou pode ser manipulado como sulfato ou acetato de zinco (diluição sugerida: 1%, em que 1 mL = 10 mg). |
4. Avisar retorno:
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5. Orientar o acompanhante para:
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Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2017, 2023) [3,5].
Já as crianças com desidratação, mas sem critérios de gravidade, deverão permanecer no serviço de saúde até a reidratação completa [3,7]. Orienta-se administrar, sob supervisão de equipe de saúde, durante um período de 4 a 6 horas, a quantidade recomendada de SRO, conforme descrito no quadro 4 [3,5,7].
Quadro 4. Plano B: tratar a desidratação por via oral no estabelecimento de saúde.
1. Apenas como orientação inicial, o paciente deverá receber de 50 a 100 mL/kg (média de 75 mL/kg) para ser administrado no período de 4 a 6 horas. O quadro abaixo sugere o volume médio a ser ofertado.
*Somente utilizar a idade quando desconhecer o peso da criança. A quantidade aproximada de SRO necessária (em mL) também pode ser calculada multiplicando-se o peso da criança (em kg) por 75. – A quantidade de solução ingerida dependerá da sede do paciente. Assim, se a criança quiser mais SRO do que a quantidade citada, dar mais. |
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| 2. Demonstrar como administrar a solução de SRO: – Dar, com frequência, pequenos goles de líquidos usando copo ou colher. – Se a criança vomitar, aguardar 10 minutos e depois continuar, porém mais lentamente. Caso vômitos persistentes, use ondansetrona:
– Continuar a amamentar no peito sempre que a criança o desejar. |
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| 3. Durante a reidratação, reavaliar o paciente seguindo as etapas do quadro 2.
– Se desaparecerem os sinais de desidratação, utilize o Plano A (quadro 3). |
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| 4. O Plano B deve ser realizado no estabelecimento de saúde. O paciente deve permanecer no estabelecimento de saúde até a reidratação completa.
Em situações excepcionais, se mãe/pai/responsável precisar ir para casa antes de terminar o tratamento: – orientar a preparar a solução de SRO em casa; |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2017, 2023) [3,5].
Casos de desidratação grave devem ser manejados de acordo com o Plano C, descrito na figura 1, em serviços de urgência/emergência [3]. Contudo, na disponibilidade de acesso intravenoso ou de sonda nasogástrica, recomenda-se iniciar a reidratação antes da transferência. Se não houver a possibilidade de transferência e a criança aceitar via oral, recomenda-se observação por pelo menos 6 horas após a reidratação, a fim de se assegurar que o responsável possa manter a hidratação administrando a solução de SRO por via oral (Plano A – quadro 3) [3,7].
Figura 1. Plano C: a desidratação grave por via endovenosa no estabelecimento de saúde/hospital.

Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2017,2023) [3,5].
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O uso de antibióticos não é indicado na maioria dos casos. Seu uso é recomendado apenas se:
- diarreia com sangue nas fezes (disenteria) E:
– idade < 3 meses [8]; OU
– comprometimento do estado geral, febre alta persistente, dor abdominal e/ou tenesmo [8]; - crianças com diarreia aguda e condições crônicas subjacentes, incluindo aquelas com anemia falciforme ou imunodeficiência e com risco de desenvolver disseminação grave ou extraintestinal [8];
- diarreia aguda e isolamento de patógenos específicos como Shigella, Escherichia coli enterotoxigênica (mas não produtora de toxinas do tipo Shiga), Escherichia coli, V. cholerae, Yersinia enterocolitica e Entamoeba histolytica [8];
- diarreia aguda por Campylobacter colitis: a antibioticoterapia só é eficaz se administrada nos primeiros 2 dias, desde o início dos sintomas [8];
- diarreia aquosa com desidratação grave em paciente com 2 anos ou mais, proveniente de região com registro de casos de cólera [8,5].
O principal agente etiológico em casos de disenteria é a Shigella spp. [9,10] e pode haver evolução desfavorável, com septicemia. Por isso, recomenda-se tratamento [3,7,9]. Para saber mais sobre o tratamento da disenteria, veja aqui [10].
Além disso, como a cólera pode evoluir com desidratação grave, devido à diarreia volumosa e causar distúrbios hidroeletrolíticos, recomenda-se tratamento para crianças com 2 anos ou mais que apresentem diarreia aguda e sinais de desidratação grave e são procedentes de regiões em que há registros de cólera [3,7,11]. No entanto, no Brasil não há registro de casos autóctones de cólera desde 2005 [11].
Alguns especialistas recomendam a administração de vitamina A a populações com risco de deficiência dessa vitamina, já que parece haver associação dessa conduta com a redução de risco de hospitalização e mortalidade por diarreia, especialmente em crianças desnutridas [9]. Ressalta-se que o Ministério da Saúde, por meio do Programa Nacional de Suplementação de vitamina A, recomenda a suplementação profilática de vitamina A para todas as crianças de 6 a 59 meses de idade e megadose de vitamina A, se houver desnutrição e a criança não tiver tomado nos últimos 30 dias [3].
Apesar de nem sempre ser possível determinar o agente etiológico da diarreia aguda [1], a maioria dos casos é autolimitada, exames complementares não são necessários [2,4,12]. Esses exames devem ser reservados para situações em que haja risco de complicações, como generalização do processo infeccioso ou de seu prolongamento, quando a tentativa de se isolar o agente etiológico é necessária para a instituição de terapêutica específica [2,4,12] e incluem:
- lactentes muito jovens;
- desnutridos graves;
- imunodeprimidos.
Nesses casos, os exames que devem ser solicitados são: hemograma com plaquetas, eletrólitos, creatinina, parasitológico das fezes e coprocultura, pesquisa de leucócitos fecais, sangue nas fezes e pesquisa de vírus nas fezes, pH fecal e pesquisa de substâncias redutoras [2,4,12].
Os surtos de DDA, também chamados de surtos de Doenças de Transmissão Hídricas e Alimentares (DTHA), devem ser notificados imediatamente. Configura-se surto a ocorrência de 2 casos de DDA ou mais, relacionados entre si, com histórico de exposição à mesma fonte ou de alteração do padrão epidemiológico – aumento de casos, ocorrência de casos graves, mudança de faixa etária e/ou sexo, considerando o monitoramento sistemático local [7].
Diante da suspeita de surto de DTHA, a unidade de saúde deve realizar a notificação e a comunicação à Secretaria Municipal de Saúde assim que tomar conhecimento, bem como proceder à notificação no Sinan, por meio da Ficha de Investigação de Surto – DTA como “síndrome diarreica aguda”. Nos surtos de determinadas DTHA, que estão na lista de doenças e agravos de notificação compulsória, além da Ficha de Investigação de Surto – DTA, cada caso suspeito envolvido no surto deverá ser notificado, concomitantemente, na ficha de notificação/investigação individual específica ou na ficha de notificação/conclusão [7].
Para orientações destinadas à população, acesse aqui material informativo.
Confira a seguir outros materiais que abordam o tema Diarreia:
- Como investigar pacientes com diarreia crônica?
- Qual o manejo da diarreia aguda em adultos e crianças maiores de 5 anos na Atenção Primária à Saúde (APS)?
Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.
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Referências:
- World Gastroenterology Organisation. Acute diarrhea in adults and children: a global perspective: World Gastroenterology Organisation global guidelines. Milwaukee, WI; Feb 2012 [citado em 24 fev. 2023]. Disponível em: https://www.worldgastroenterology.org/guidelines/acute-diarrhea/acute-diarrhea-english.
- Burns DAR, Campos Júnior D, Silva LR, Borges WG, Blank D, editores. Tratado de pediatria. 4a ed. Barueri: Manole; 2017. v. 1.
- Ministério da Saúde (Brasil), Organização Pan-Americana da Saúde, Fundo das Nações Unidas para a Infância. AIDPI criança: 2 meses a 5 anos: manual de quadros de procedimentos. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2017 [citado em 24 fev. 2023]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_quadros_procedimentos_aidpi_crianca_2meses_5anos.pdf.
- Marostica PJC. Pediatria: consulta rápida. 2a ed. Porto Alegre: Armed; 2018.
- Ministério da Saúde (Brasil). Manejo do paciente com diarreia: avaliação do estado de hidratação do paciente. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2023 [citado em 24 fev. 2023]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/dda/publicacoes/manejo-do-paciente-com-diarreia-cartaz.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas, Organização Pan-Americana da Saúde. Manual AIDPI neonatal. 5a ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2014 [citado em 24 fev. 2023]. Série A. Normas e Manuais Técnicos. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_AIDPI_neonatal_5ed.pdf.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância em saúde. 5a ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2021 [citado em 24 fev. 2023]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/publicacoes-svs/vigilancia/guia-de-vigilancia-em-saude_5ed_21nov21_isbn5.pdf/view.
- Duncan BB, Schmidt MI, Giuliani ERJ, Duncan MS, Giuliani C, editores. Medicina Ambulatorial: condutas de Atenção Primária baseadas em evidências. 5a ed. Artmed; 2022.
- Harris JB, Pietroni M. Approach to the child with acute diarrhea in resource-limited countries [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 19 out. 2022 [citado em 24 fev. 2023]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/approach-to-the-child-with-acute-diarrhea-in-resource-limited-countries.
- Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS-UFRGS. Deve-se utilizar antibióticos na disenteria aguda? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 4 Jan 2017 [atualizada em 21 Jun 2017, citado em 24 fev. 2023]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/ps-disenteria-aguda/.
- Ministério da Saúde (Brasil). Cólera. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 27 dez. 2021 [citado em 24 fev. 2022]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/c/colera.
- Burns DAR, Campos Júnior D, Silva LR, Borges WG, Blank D, editores. Tratado de pediatria. 4a ed. Barueri: Manole; 2017. v. 2.
Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS-UFRGS. Qual o manejo de crianças menores de 5 anos com Doença Diarreica Aguda na Atenção Primária à Saúde (APS)? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 3 Jan 2022 [atualizado em 24 fev. 2023, citado em dia, mês abreviado e ano]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/qual-o-manejo-de-criancas-menores-de-5-anos-com-doenca-diarreica-aguda-na-atencao-primaria-saude-aps/.
Publicador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS