Deve-se realizar antibioticoterapia profilática em mordeduras por animais?

O uso de antibiótico para profilaxia de infecção em mordeduras por cães ou gatos é controverso e não deve ser realizado de rotina. A prescrição deve avaliar a gravidade do ferimento, o animal responsável pela mordedura e as comorbidades do paciente [1,2,3,4]. As indicações de profilaxia antibiótica estão descritas no quadro 1. 

Quadro 1. Indicação de profilaxia em mordeduras animais.

Gatos Cães e pequenos animais de estimação*
Profilaxia indicada Ferimento com ruptura da pele e presença de sangue. Ferimento com ruptura da pele com presença de sangue associado a:
– envolvimento de estrutura óssea, tendão, articulação ou estruturas vasculares; OU
– ferimento profundo (puntiforme), esmagamento ou dano significativo ao tecido; OU
– ferimento visivelmente contaminado (presença de sujidade ou dente do animal na ferida).
Considerar profilaxia Ferimento profundo (puntiforme) sem presença de sangue. Ferimento com ruptura da pele com presença de sangue associado a:
– envolvimento de área de alto risco, como mãos, pés, face, genitais, próximo a estruturas cartilaginosas ou uma área de má circulação; OU
– pessoa com risco de infecção grave (presença de diabetes, imunossupressão, asplenia ou doença hepática descompensada).
* Não há literatura específica para profilaxia antibiótica em mordidas por animais domésticos não convencionais como coelhos, roedores, porquinhos-da-Índia, esquilos. Sugere-se utilizar as mesmas indicações da mordedura por cães.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2022), adaptado de Nice (2020), Dynamed (2018) e Kimberlin et al. (2021) [1,4,5].

Quando indicada, a profilaxia antibiótica deve ter duração entre 3 e 5 dias [1, 2, 3, 4]. Os esquemas indicados estão descritos no quadro 2. 

Quadro 2. Profilaxia antibiótica para mordeduras de animais.

Adultos¹ Crianças
Primeira escolha – Monoterapia
– Amoxicilina+clavulanato 500/125mg, 8/8h – Amoxicilina+clavulanato 25mg/kg/dia, 8/8h
Segunda escolha – Associação
– Doxiciclina 100mg, 12/12h; OU
– Sulfametoxazol-trimetoprima 800/160mg, 12/12h; OU
– Cefuroxima 500mg, 12/12h; OU
– Ciprofloxacino⁴ 500-750mg, 12/12h; OU
– Levofloxacino⁴ 750mg, 24/24h.
Associado a:
– Metronidazol 400-500mg, 8/8h; OU
– Clindamicina 300-450mg, 8/8h.
– Doxiciclina² 100mg/dose, 12/12h; OU
– Sulfametoxazol-trimetoprima³ 8-12mg/kg/dia (trimetoprima), 12/12h; OU
– Cefuroxima 10-15mg/kg, 12/12h; OU
– Ciprofloxacino⁴ 10-15mg/kg, 12/12h; OU
– Levofloxacino⁴ 8-10mg/kg, 12/12h.
Associado a:
– Metronidazol 10mg/kg, 8/8h; OU
– Clindamicina 10mg/kg, 8/8h.
Terceira escolha – Monoterapia
– Moxifloxacino 400mg, 24/24h. Não recomendado.
¹ Não há estudos sobre profilaxia de mordeduras animais na gestação.
² Uso com cautela em crianças menores de 8 anos devido a possibilidade de alterações dentárias. Esquema de escolha em crianças entre 12 e 18 anos que tem contraindicação ao uso de amoxicilina+clavulanato.
³ Esquema de escolha em crianças menores de 12 anos que tem contraindicação ao uso de amoxicilina+clavulanato.
⁴ Uso com cautela em crianças. Tanto em crianças como adultos, deve ser utilizado na impossibilidade do uso de outras opções medicamentosas mais eficazes e/ou seguras.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2022), adaptado de NICE (2020), Stevens et al. (2014), Baddour e Harper (2021), Dynamed (2018) e IBM Micromedex (2022, 2022) [1,2,3,4,6,7].

Sugere-se reavaliação da ferida em 48 horas [4,8]. Acidentes envolvendo mordeduras por animais devem ser avaliados também quanto à indicação de profilaxia da raiva humana (veja aqui link) e do  tétano (veja aqui link).

 

Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.

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Referências:

  1. National Institute for Health and Clinical Excellence (NICE). Human and animal bites: antimicrobial prescribing. London; 4 Nov 2020 [citado em 25 Maio 2022]. NICE guideline, NG184. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng184/chapter/Recommendations.
  2. Stevens DL, Bisno AL, Chambers HF, Dellinger EP, Goldstein EJC, Gorbach SL, et al. Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis. 2014 July;59:e10–52. Doi 10.1093/cid/ciu444.
  3. Baddour LM, Harper M. Animal bites (dogs, cats, and other animals): evaluation and management. Waltham (MA): UpToDate; 25 Mar 2021 [citado em 25 Maio 2022]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/animal-bites-dogs-cats-and-other-animals-evaluation-and-management?topicRef=110529&source=see_link.
  4. Dynamed. Mammalian bite [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 1995 [atualizado em 2018, citado em 25 Maio 2022]. Disponível em:  https://www.dynamed.com/condition/mammalian-bite.
  5. Kimberlin DW, Barnett ED, Lynfield R, Sawyer MH, editors. Red book: 2021–2024: report of the Committee on Infectious Diseases. 32a ed. Itasca, IL: American Academy of Pediatrics; 2021.
  6. IBM Micromedex. Sulfamethoxazole/Trimethoprim. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 12 Apr 2022 [citado em 25 Maio 2022]. Disponível em: https://www.dynamed.com/drug-monograph/sulfamethoxazole-trimethoprim.
  7. IBM Micromedex. Amoxicillin-Clavulanate. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 27 Jan 2022 [citado em 25 Maio 2022]. Disponível em: https://www.dynamed.com/drug-monograph/amoxicillin-clavulanate.
  8. Bula-Rudas FJ, Olcott JL. Human and animal bites. Pediatr Rev. 2018 Oct;39(10):490-500. Doi 10.1542/pir.2017-0212.

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Deve-se realizar antibioticoterapia profilática em mordeduras por animais? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 25 Maio 2022 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/deve-se-realizar-antibioticoterapia-profilatica-em-mordeduras-por-animais-2/.

 


                  
                  

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