Como orientar o isolamento domiciliar de pacientes com Mpox?

Os cuidados no domicílio para pessoas com sinais ou sintomas de Mpox (Monkeypox), sejam elas classificadas como casos suspeitos, prováveis ou confirmados, devem incluir medidas para controle de infecção, prevenção e rastreamento de transmissão para contatos e isolamento [1–5]. 

A maioria dos casos de Mpox é leve e esses pacientes deverão ser orientados a realizar isolamento em ambiente domiciliar [1–4]. Nessas situações, as pessoas com suspeita ou diagnóstico de Mpox devem usar máscara cirúrgica, bem ajustada à face, cobrindo nariz e boca, especialmente se apresentarem sintomas respiratórios como tosse, falta de ar ou dor na garganta [2,6]. Se possível, o paciente deve ficar em área bem ventilada e separada dos demais moradores. Quando não for possível isolá-lo em ambiente individual, manter o distanciamento de, pelo menos, 1 metro dos outros habitantes do domicílio, reforçando as medidas de higiene das mãos e das superfícies e o uso de máscaras cirúrgicas. Em situações sociais ou geográficas extremas, que impeçam o isolamento domiciliar, considerar acomodação em estabelecimento de referência, hospitalar ou não, de acordo com as pactuações da localidade. As lesões cutâneas devem ser cobertas o máximo possível, como, por exemplo, com uso de mangas longas ou calças compridas, para minimizar o risco de contato com outras pessoas [1–4]. 

É importante reforçar a necessidade de lavagem das mãos com água e sabão ou utilização de álcool 70% antes e depois de atividades com risco de transmissão, como contato com secreção das lesões, roupas, lençois ou superfícies que possam ter contato direto com o paciente com Mpox. Ressalta-se que, ao lavar as mãos com água e sabão, deve-se secá-las com papel-toalha. Caso não seja possível, utilizar toalha de tecido e trocá-la sempre que estiver úmida [1–3]. 

Além disso, deve-se designar apenas um cuidador, que deve utilizar máscaras cirúrgicas e luvas para cuidados com o paciente, limpeza e desinfecção das áreas de contato. Se possível, pessoas previamente vacinadas contra varíola devem ser selecionadas para cuidar do paciente [1]. As superfícies que são frequentemente tocadas pelo paciente, incluindo o banheiro, devem ser higienizadas mais de uma vez ao dia, com solução contendo água sanitária [1–3].

As roupas devem ser lavadas com cuidado para não haver contato direto com material contaminado e deve-se evitar sacudí-las, o que pode dispersar partículas infecciosas. Roupas de cama, toalhas e roupas de uso individual podem ser lavadas em uma máquina de lavar padrão, com água morna e sabão [1–3]. Alvejante pode ser adicionado, mas não é necessário [2]. 

Utensílios como pratos e outros talheres não devem ser compartilhados, mas não é necessário que a pessoa infectada use utensílios separados, se forem devidamente lavados. A louça suja e os talheres devem ser lavados com água entre 60 e 90ºC e sabão. Na indisponibilidade de água aquecida, pode ser utilizada solução contendo água sanitária [2,3]. 

Os resíduos contaminados, como máscaras, curativos e bandagens, devem ser descartados conforme orientação da autoridade sanitária local, seguindo as mesmas orientações para a Mpox que já são preconizadas pelos territórios em relação à COVID-19. Sempre que possível, no descarte do lixo do paciente, deve-se utilizar luvas descartáveis [2,3].

Durante o período de isolamento, o uso de lentes de contato deve ser desencorajado, objetivando reduzir a probabilidade de infecção ocular. Além disso, é necessário evitar o uso de barbeador em áreas com lesão cutânea [3].

Os casos suspeitos devem permanecer em isolamento até a liberação do resultado dos exames laboratoriais confirmatórios para a infecção, quando serão reavaliados e reorientados quanto à necessidade de continuidade ou não do isolamento [3]. Nos casos confirmados, o isolamento deve ser mantido até que todas as lesões tenham sido resolvidas, com queda das crostas, em cerca de 2 a 4 semanas [1,2,4–7]. 

O acompanhamento clínico deve ser realizado preferencialmente por meio de consultas remotas [1]. A interrupção do isolamento durante a doença só deverá ocorrer se houver necessidade de avaliação presencial em serviços de saúde. Nessa situação, o paciente deve fazer uso de máscara cirúrgica cobrindo nariz e boca e trocando-a quando úmida ou danificada, e proteger as lesões com roupas como camisas com mangas compridas e calças, evitando aglomerações e transporte coletivo [2,3]. 

Como o vírus mpox pode ser encontrado no sêmen e nos fluidos vaginais, a Organização Mundial da Saúde sugere a abstinência sexual durante o período infeccioso e o uso consistente de preservativo durante qualquer atividade sexual por 12 semanas após a recuperação da doença [1,3]. Além disso, pessoas com história de Mpox não estão aptas à doação de sangue até que todas as lesões estejam totalmente resolvidas e, no mínimo, 21 dias após o início dos sintomas [8].

Cuidados com animais domésticos

Pessoas com diagnóstico suspeito, provável ou confirmado de Mpox devem evitar contato com os animais domésticos, para evitar a transmissão de humanos para animais. Estes devem ser cuidados, preferencialmente, por outras pessoas, até que o tutor esteja completamente recuperado, ou até que a hipótese de Mpox seja descartada [9]. As recomendações para o cuidado de animais que tiveram contato com pacientes suspeitos ou confirmados para Mpox estão descritas no quadro 1.

Quadro 1. Recomendações para o cuidado de animais que estão na mesma residência que humanos suspeitos ou confirmados para Mpox.

– Lavar as mãos com água e sabão ou usar álcool 70% antes e depois de cuidar do animal.
– Não está indicado aplicar produtos químicos (álcool 70%, lenços de limpeza) diretamente nos animais.
– Cobrir qualquer lesão cutânea, na medida do possível, preferindo o uso de roupas com mangas e calças compridas.
– Usar luvas e máscaras descartáveis.
– Garantir que o animal não entre em contato com objetos contaminados da casa, como roupas, lençóis, toalhas.
– Não permitir que o animal entre em contato com as lesões, curativos ou fluidos corporais.
– Alimentos, brinquedos e demais itens de uso do animal doméstico não devem ter contato com o paciente com suspeita/confirmação de Mpox.
– Comunicar o serviço de saúde pública e buscar assistência veterinária, caso o animal apresente manifestação clínica compatível com a doença¹.
– Não está indicado a eutanásia, nem o abandono de animais que tiveram contato com pacientes com Mpox.
– Os animais que tiveram contato com Mpox devem ser mantidos sob observação por 21 dias após o último contato.
¹O transporte do animal com sintomas suspeitos deve ser feito por pessoa sem suspeita de Mpox, utilizando roupas compridas, máscaras, luvas descartáveis, e o animal deve ser conduzido, preferencialmente, dentro de caixa de transporte.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2022) [9].

O quadro 2 descreve as recomendações de cuidados para animais com suspeita de Mpox.

Quadro 2. Recomendações de cuidados para animais suspeitos de Mpox.

– Separar o animal doente dos demais animais e evitar contato direto com pessoas sem Mpox. O animal deve ficar isolado em casa até recuperação total das lesões, portanto, não deve realizar passeio.
– Impedir lambedura das lesões para evitar auto inoculação e lesões em cavidade oral, podendo utilizar roupas cirúrgicas ou colar elizabetano.
– Lavar as mãos com água e sabão com frequência, principalmente antes e depois de cuidar do animal.
– Utilizar luvas e máscaras descartáveis ao cuidar do animal doente.
– Descartar os dejetos dos animais em dois sacos plásticos amarrados, junto do lixo doméstico.  Antes de fechar o saco plástico, borrifar solução de hipoclorito de sódio (água sanitária a 0,5%) dentro do saco1.
– Lavar cobertores, camas e roupas com água e sabão.
– Desinfetar pratos de comida e água, brinquedos e demais itens que tenham contato direto com o animal infectado.
– Não compartilhar objetos com outros animais saudáveis, como potes de comida e água ou brinquedos.
– Se houver piora clínica do animal, consultar o médico veterinário para reavaliação do quadro.
– Não está indicado a eutanásia, nem o abandono de animais suspeitos ou confirmados de Mpox.
¹Em um recipiente de 1 litro, colocar 25 mL de água sanitária e completar com água, tampar e agitar. Evite deixar a solução exposta ao sol.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2022) [9].

Para orientações destinadas à população, acesse aqui material informativo.

 

Confira a seguir outros materiais que abordam o tema Monkeypox:

 

Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.

A telessaúde, ao promover apropriação tecnológica sustentada em evidências, atua como eixo organizador de sistemas de saúde centrados nas pessoas. A telemedicina é uma inovação que tem o potencial de transformar a Atenção Primária à Saúde (APS), otimizar seu funcionamento, conectar pessoas e viabilizar o acesso universal, equânime e integral, qualificando o SUS! Vamos juntos?

Referências:

  1. World Health Organization. Clinical management and infection prevention and control for monkeypox: interim rapid response guidance [Internet]. Geneva: WHO; 2022 [citado 27 de março de 2023]. 56 p. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/WHO-MPX-Clinical-and-IPC-2022.1.
  2. Centers for Disease Control and Prevention. Isolation and Infection Control At Home [Internet]. Georgia: CDC; 2022 [citado 28 de março de 2023]. Disponível em: .
  3. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Atenção Primária à Saúde, Departamento de Saúde da Família, Coordenação-Geral de Garantia dos Atributos da Atenção Primária. Nota informativa no 6/2022-CGGAP/DESF/SAPS/MS [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; jun 28, 2022 p. 9 [citado 28 de março de 2023]. Disponível em: https://egestorab.saude.gov.br/image/?file=20220707_N_SEIMS-0027761288-NotaInformativa-Monkeypoxcompressed_2689728990280792060.pdf.
  4. Secretaria Estadual da Saúde (Rio Grande do Sul). Plano de Contingência do Rio Grande do Sul para Monkeypox [Internet]. Porto Alegre, RS: Secretaria Estadual da Saúde; 2022 [citado 28 de março de 2023]. 26 p. Disponível em: https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/202208/18154926-plano-contingencia-monkeypox-ses-rs-versao-18-08-22.pdf.
  5. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde. Plano de Contingência Nacional para Monkeypox: Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública: COE Monkeypox. [Internet]. Versão 2. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022 [citado 28 de março de 2023]. 32 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/resposta-a-emergencias/coes/monkeypox/plano-de-contingencia/plano-de-contingencia/view.
  6. Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Gerência Geral de Tecnologia em Serviços de Saúde, Gerência de Vigilância e Monitoramento em Serviços de Saúde. Nota Técnica GVIMS/GGTES/ANVISA no 03/2022. Orientações para prevenção e controle da Monkeypox nos serviços de saúde. [Internet]. Brasília, DF: Anvisa; 2022 [citado 28 de março de 2023]. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/servicosdesaude/notas-tecnicas/2022/nota-tecnica-gvims-ggtes-dire3-anvisa-no-03-2022-orientacoes-para-prevencao-e-controle-da-monkeypox-nos-servicos-de-saude-2013-atualizada-em-02-06-2022/view.
  7. Ministério da Saúde (Brasil), Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública (COE Monkeypox). Protocolo de Orientação para Isolamento Domiciliar [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022 [citado 28 de março de 2023]. 4 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/variola-dos-macacos/publicacoes/protocolos-1/protocolo_isolamento_domiciliar_08_setembro.pdf/view.
  8. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Atenção Especializada à Saúde, Departamento de Atenção Especializada e Temática, Coordenação-Geral de Sangue e Hemoderivados. Nota Técnica no 40/2022-CGSH/DAET/SAES/MS [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; jul 3, 2022 [citado 28 de março de 2023]. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2022/NotaTecnicavariolamacacoSangue.pdf.
  9. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis, Coordenação-Geral de Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão Vetorial. Nota técnica no 96/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS. Trata-se de recomendações sobre o manejo de animais de companhia clinicamente suspeitos ou expostos à infecção pelo Monkeypox Vírus. [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; set 5, 2022 [citado 28 de março de 2023]. Disponível em: .

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Como orientar o isolamento domiciliar de pacientes com Mpox? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 26 set. 2022 [atualizado em 28 mar. 2023, citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/como-orientar-o-isolamento-domiciliar-de-pacientes-com-monkeypox/

Publicador

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS

Organização

Elise Botteselle de Oliveira¹

Renata Rosa de Carvalho¹

Luíza Emília Bezerra de Medeiros¹

Ana Cláudia Magnus Martins¹

Rudi Roman¹

Juliana Nunes Pfeil¹

Rodolfo Souza da Silva¹

Natan Katz1,2

Roberto Nunes Umpierre1,2

Autoria

Luíza Emília Bezerra de Medeiros¹

Revisão Técnica

Rafaela Fernandes Barrêto¹

Renata Rosa de Carvalho¹

Elise Botteselle de Oliveira¹

Laureen Engel¹

Ana Flor Hexel Cornely¹

Revisão Textual e Normalização

Bruna Rodrigues da Silva¹

Letícia Pereira de Souza¹

Diagramação

Camila Hofstetter Camini¹

Instituições

¹Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS.

²Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Social.