Qual o manejo da fimose em crianças?

O manejo da fimose em crianças depende do tipo de fimose e da presença de complicações.

Fimose é definida como a incapacidade de retrair o prepúcio. Ela pode ser:

  • Primária (ou fisiológica): ocorre em quase todos os recém-nascidos e resolve espontaneamente em >90% dos meninos nos primeiros 5 anos de vida, devido às aderências congênitas bálano-prepuciais. No exame físico, observa-se orifício prepucial complacente (distensível) e sem cicatrizes.
  • Secundária (ou patológica): definida como prepúcio verdadeiramente não retrátil secundário a cicatrizes do prepúcio distal, com anel fibroso esbranquiçado e contraído e não distensível. Esse tipo de fimose é frequentemente associada aos seguintes sintomas: balanopostites recorrentes, prepúcio não retrátil após período de retratilidade quando mais jovem, sangramento do orifício prepucial, disúria, ereção dolorosa e “balonamento” do prepúcio durante a micção resolvido apenas com compressão manual.

Para todos os pacientes com fimose primária sem complicações, recomenda-se cuidados gerais, que incluem:

  • Evitar tração forçada do prepúcio ou “massagens” (para evitar sangramento e fibrose, com subsequente desenvolvimento de fimose patológica).
  • Tração gentil do prepúcio durante as trocas de fralda e/ou durante o banho, que usualmente irá retrair o prepúcio e expor a glande gradual e progressivamente.
  • Enquanto o prepúcio vai sendo naturalmente retraído, lavar e secar a região exposta.
  • Após a tração do prepúcio, sempre reduzir a tração (recobrir a glande) para evitar parafimose (quando o prepúcio fica retraído abaixo da glande e não pode ser reduzido a sua posição normal), que resulta em congestão venosa e linfática da glande.
  • Quando o menino vai ficando mais velho, ele deve ser instruído a fazer essa tração gentil no banho, higiene adequada e redução da tração (recobertura da glande).

Após os 2 anos, se o menino persistir com a fimose primária sem complicações e a família preferir acelerar o processo de retração prepucial, pode ser utilizado tratamento com creme ou pomada de corticoide tópico, duas vezes ao dia, por 4 a 8 semanas. Para uso da medicação, o prepúcio deve ser gentilmente tracionado até o limite e, então, o corticoide deve ser aplicado, com redução da tração do prepúcio após o uso.

São opções de corticoide tópico: dipropionato de betametasona 0,05% creme, valerato de betametasona 0,1 a 0,2% creme ou pomada, mometasona 0,05 a 0,1% pomada, triamcinolona 0,01 a 0,5% creme ou pomada, clobetasol 0,05% creme, dexametasona 0,1% creme, fluticasona 0,05% creme, hidrocortisona 0,2% pomada ou creme. Não existem evidências quanto a superioridade de um corticoide sobre o outro.

Não havendo resolução da fimose fisiológica sem complicações mesmo com tratamento conservador, o paciente pode ser encaminhado para Cirurgia Pediátrica ou Urologia Pediátrica para tratamento cirúrgico, a partir de 5 anos de idade, se a família ou o paciente assim o quiserem (por motivos pessoais, culturais ou religiosos).

Para todos os pacientes com fimose primária com complicações (episódio prévio de parafimose, balanopostites severas ou recorrentes, “balonamento” durante a micção que necessita de compressão manual para esvaziá-lo, infecções urinárias de repetição) ou fimose secundária está indicado tratamento inicialmente com corticoide tópico (mesmo esquema descrito acima). Não havendo resolução com o tratamento conservador, o paciente deve ser encaminhado para Cirurgia Pediátrica ou Urologia Pediátrica, para tratamento cirúrgico.

Pacientes com balanite xerótica obliterante (dermatite atrófica crônica) devem ser encaminhados para Cirurgia Pediátrica ou Urologia Pediátrica para tratamento cirúrgico sem a tentativa de tratamento conservador prévio.

Referências:

  1. Burns CE, Dunn AM, Brady MA, Starr NB, Blosser CG, Garzon DL. Pediatric primary care. 6a ed. St. Louis: Elsevier; 2016.  p. 944-45.
  2. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4a ed. Porto Alegre: Artmed; 2013. p. 297.
  3. Dynamed. Record No. 114116, Phimosis and paraphimosis [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995, [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 7 Out 2020]. Disponível em: www.dynamed.com/topics/dmp~AN~T114116/Phimosis-and-paraphimosis
  4. Ferreira JP, organizador. Pediatria: diagnóstico e tratamento. Porto Alegre: Artmed; 2005. p. 559-60.
  5. Moreno G, Corbalán J, Peñaloza B, Pantoja T. Topical corticosteroids for treating phimosis in boys (review). Cochrane Database of Systematic Reviews, London, 2014. [Issue 9. Art. No.: CD008973]. Doi 10.1002/14651858.CD008973.pub2/full.
  6. Sucupira ACSL, Bricks LF, Kobinger MEBA, Saito MI, Zuccolotto SMC, editores. Pediatria em consultório. 5a ed. São Paulo: Sarvier; 2010. p. 891-92.
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  8. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS), Secretaria da Saúde (Rio Grande do Sul). Protocolos de encaminhamento para Urologia Pediátrica. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2020 [citado em 6 Out 2020]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/protocolo_urologia_pediatrica_20200309_003.pdf

Como citar: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Qual o manejo da fimose em crianças? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; Out. 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/fimose/.

Teleconsultoria por:

Luíza Emília Bezerra Medeiros

Médica de Família e Comunidade

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Revisão por:

Guilherme Behrend Silva Ribeiro

Urologista

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Elise Botteselle de Oliveira

Médica de Família e Comunidade

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