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Os dias em que as corujas caíram do céu

Sempre dependentes de eletricidade, emitem luz e calor, atraem-nos. Quando móveis e portáteis são ergonômicos e mudam nossos gestos, tornam-se próteses. Conformados em molduras retangulares, herdam o passado das telas de pintura e apresentam-se como janelas relacionais. Eles estão ligados como pontos luminosos nos limites da rede: as constelações panópticas às quais nos rendemos.

Olho no olho já não vivenciamos, apenas, olhares indiretos, em delay, e já nos habituamos ao som metálico das caixas de som e microfones. Nestes tempos pandêmicos, vivendo o caos dos sistemas de saúde – intensificado pela ausência de políticas públicas – que desvela os imensos males sociais, o sono é inexistente ou em excesso, não chegou e já se foi, para alguns é um estado arrastado. O sono é a última fronteira, como escreveu Jonathan Crary (em 24/7 – “Capitalismo tardio e os fins do sono”). Sob o céu noturno, para o corpo que dorme e escapa das luzes, viva pode ser a vontade de mergulhar na escuridão do sono profundo, mas isso não é para todos.

É preciso desejar, não apenas celebrar a alucinação da presença. Desejar, superar o desamparo e a vulnerabilidade do vício de ser sempre levado para os dispositivos. No looping dos dias, imerso nesta economia de atenção, Os dias em que as corujas caíram do céu é uma exposição na Plataforma Verter e um Pavilhão para a The Wrong Biennale, com curadoria de Elaine Tedesco e Marina Polidoro. São apresentados trabalhos realizados especialmente para a exposição ou adaptados para o meio, que abordam criticamente o contexto atual, relacionando dispositivos e redes digitais, espaços de controle, agenciamentos transmídia, possibilidades de fuga, de sono e sonho.

O título da exposição é uma apropriação de um trecho do livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philip K. Dick, na tradução de Ronaldo Bressane. O livro conta a história de um caçador de androides em uma Terra devastada, coberta por poeira radioativa, e foi adaptado para o cinema como Blade Runner. Livro e filme fazem parte do imaginário distópico sobre as tecnologias e os rumos da vida na Terra. O trecho completo

"Por um longo tempo, ele permaneceu fitando a coruja que dormitava no poleiro. Mil pensamentos vieram à sua mente, pensamentos sobre a guerra, sobre os dias em que as corujas caíram do céu; lembrou-se de como, em sua infância, descobria-se que uma espécie após a outra era declarada extinta, e como isso era publicado todo dia nos jornais - raposas uma manhã, texugos na outra, até que as pessoas parassem de ler sobre os incessantes necrológios de animais"

lido no contexto da pandemia de Covid-19, ensejou-nos a uma relação com as contagens diárias dos contaminados e mortos em decorrência da doença, além da catástrofe ambiental que completa o contexto atual.


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Curadoria: Elaine Tedesco e Marina Polidoro
Bolsistas UFRGS: Gabriela Berghahn e Leonardo Cardoso Mafra

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Catálogo disponível em: https://www.ufrgs.br/verter/corujas/catalogo.pdf
Conversas com os artistas gravadas em: https://youtu.be/0vjL88bTXdk e https://youtu.be/9U3B9zN3XMw




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Dados das obras:

Cesar Baio
Padrões Anômalos - Estudo 1
Vídeo, 10’
2019-2021
https://www.cesarbaio.net/

Clarissa Daneluz
Um rosto pede contato
Vídeo sobre montagens de imagens, 3’25"
2021
@clarissadaneluz

Eduardo Montelli
We are making art
Vídeo, 9’37”
2019
https://cargocollective.com/eduardomontelli

Flavya Mutran
Res_Publicae
Vídeo, 4'
Animação digital de fotografias públicas de ex-(quase)presidentes da República do Brasil
2021
https://flavyamutran.wordpress.com/

Joana Burd
As_automatas.web
Modelagem digital e programação web
Colaboradores: Guilherme de Leon, Julia Garcia e Rodrigo Barbosa
2021
https://www.joanaburd.com/

Juliana Angeli
Apepê
NetArt
Feito com imagens usando os aplicativos Reface e Tik Tok postadas na página da artista @julianaangeli no Instagram
Edição e gifs: Leonardo Mafra
2021
@julianaangeli

Leo Caobelli
Magnetica (S_01 EP_01)
Magnetica é um projeto composto por mídias magnéticas descartadas como lixo eletrônico e editadas em equipamentos obsoletos (k7s tocadas em um player com alteração de velocidade do motor, VCRs ligados a uma Edirol-V8 switcher)
2021
leocaobelli.art.br

Letícia Bertagna
Aqui à deriva
NetArt
em colaboração com Rodrigo de Avellar Muniagurria
2021
leticiabertagna.wordpress.com

Lívia Auler
Para Barbara
Vídeo, 16’33"
2021
https://www.liviauler.com

Michel Zózimo
A noite azul de Funes
NetArt
a partir de desenho sobre papel algodão (lápis aquarelável e nanquim), 103x140cm
2021
http://www.segaleria.com.br/artista/michel-zozimo/

Raquel Stolf
projeto lacuna [escuta aérea]
Vídeos/áudios: silêncios de fundo de lagoa, arredores e lagoa/cerca.
Excerto de uma coleção de silêncios em processo desde 2007, em projetos envolvendo a produção de publicações, instalações, proposições sonoras, vídeos, fotografias, notas-desenhos de/para escuta e outros textos.
Concepção, edição: Raquel Stolf
Operador de drone: Helder Martinovsky
2013-2021
http://www.raquelstolf.com/
soundcloud.com/raquelstolf

No topo
Gabriela Berghahn
Ínfimo
Net Art (P5.js)
2021
https://gabrielaberghahn.wixsite.com/my-site-2