A exposição FRATURA tem como ponto de partida as reflexões construídas nos dois últimos semestres dos encontros do grupo de extensão Limiar: Arte e Audiovisual, coordenado pela professora Alessandra Bochio. Uma Ecologia Decolonial: pensar a partir do mundo caribenho, de Malcom Ferdinand, foi o livro que serviu de disparador principal para pensarmos o recorte conceitual da temática da exposição: “violências”, no plural, pois compreendemos que essas são geradas e reverberadas de diversas formas dentro da nossa sociedade.
A palavra guarda-chuva trouxe a possibilidade de produções que abordam questões distintas, como a crise climática e existencial que a contemporaneidade vive em meio ao sistema capitalista. Fratura conta com um trabalho coletivo do grupo Limiar, que abre a exposição e outras 8 produções individuais, de cada integrante, que foram realizadas no contexto do próprio grupo. Os/as artistas apresentam seus trabalhos:
Temporal sem fim (2025) de Alex Domingues. Pela janela de uma casa, registro do forte vento e chuva de um temporal que parece se repetir infinitamente.
Véu (2025), de Maria Terra. O vídeo reflete sobre como a naturalização do casamento cristão molda nossos corpos e desejos. Uma violência que se disfarça de amor e que seguimos reproduzindo pela romantização. Nas costuras do afeto e da memória, este trabalho tensiona a linha tênue entre desejo e opressão, amor e controle — e abre espaço para questionar o que, de fato, escolhemos chamar de amor.
Habitar o tempo (2025), de Karen Villela. Partindo de arquivos de vídeos recebidos através de aplicativos de mensagens, Habitar o tempo é um compilado de momentos vividos por diferentes pessoas em diferentes lugares do arredondado planeta o qual habitamos, relacionando questões e memórias afetivas e sociais e tecnologia. Com a apropriação desses arquivos, a artista tem a intenção de gerar reflexões sobre nossos diferentes modos de habitar a Terra, através de situações contrastantes, ao mesmo tempo em que cria relações entre os vídeos, trabalhando neles a repetição, sobreposição e simultaneidade, abordando a não-linearidade do tempo e nossa percepção dele.
Corpo desfeito (2025), de Arthur Moura. O sentimento da dessensibilização e da perda do ser é retratado pela tela de um computador.
O mestre mandou (2025), de Luiz Leffa. “O mestre mandou” todo mundo já brincou, todo mundo conhece as regras né? O mestre dá uma ordem e você obedece; ninguém mandou você entrar no jogo.
Imagética (2025), de Marina Macedo. Neste trabalho, criei minha própria inteligência artificial: uma rede neural de banco de imagens, criadas por mim e outras apropriadas. Ao inverter a lógica a qual estamos acostumados em dialogar com um robô não corporificado, desenvolvido por grandes corporações que se apropriam de conteúdos da internet para nos devolvê-los a seu próprio modo, decidi desenvolver meu próprio repositório disruptivo de imagens-informação. O trabalho consiste em um vídeo de 7 minutos, criado a partir de colagens digitais autorias. Ao clicar no centro da imagem, visualizamos três popups da tela: imagens "científicas", fragmentos de textos críticos e desenhos e escritos autorais.
Cérebro liso (2025), de Samuel Pires. Vivemos em um momento no qual se tornou normal sermos bombardeados diariamente por vários estímulos, coisas piscando na tela pedindo seu foco, anúncios te induzindo ao consumismo desenfreado de coisas que você nunca vai usar, brainrot de gatinhos e memes e tantas coisas que se torna difícil de se assimilar. Para falar dessas e outras violências visuais, o algoritmo de um perfil de Instagram foi treinado para mostrar coisas consideradas “fúteis” pelo artista, se apropriando de imagens na internet, montando cerca de 100 popups de anúncios em vídeo e clicáveis, aproximando o público da obra.
codigo_corpo (2025), de Helena Pavan. Série de GIFs animados em ASCII numérico, elaborados a partir de cronofotografias históricas de Eadweard Muybridge e Étienne-Jules Marey. A obra investiga a apropriação e a codificação dos corpos ao longo da história da imagem técnica, refletindo sobre sua redução a dados e processos de controle e registro.
Minhas descobertas (2025), de Caroline Sant’Anna. Ao encontrar um antigo caderno de ditado utilizado no meu processo de alfabetização me deparo com o título “Minhas descobertas” na primeira folha. O que segue são inúmeras aulas registradas no ano de 2005, onde uma delas consiste em um ditado com ênfase em sílabas formadas por vogais. Me aproprio deste material registrando em pequenas videoperfomances o que poderiam ser alguns contextos para cada sílaba ali escrita. Apesar do teor pedagógico da colagem de vídeos com as palavras, algumas sílabas podem expressar micro violências do dia-a-dia, em contraste com outras que carregam uma literalidade inocente. No decorrer do vídeo as imagens se desencontram dos textos, reformulando significados e compondo descrições errantes. “Minhas descobertas” trás as aprendizagens de uma criança de seis anos e as joga de forma irônica com situações da vida adulta.
A partir dessas problemáticas surge, então, FRATURA, com trabalhos que não necessariamente explicitam as violências de forma gráfica, mas que geram visualidades sensíveis como forma de afirmar que o corpo e o “estar no mundo” resistem e existem diante do cenário que agride e reforça feridas.
Texto por Caroline Sant`Anna
Dados das obras:
Temporal sem fim
Alex Domingues
Vídeo
2025
Véu
Maria Terra
Vídeo
2025
Habitar o tempo
Karen Villela
Vídeo
2025
Corpo desfeito
Arthur Moura
Vídeo
2025
O mestre mandou
Luiz Leffa
Net Art
2025
Imagética
Marina Macedo
Net Art
2025
Cérebro liso
Samuel Pires
Net Art
2025
codigo_corpo
Helena Pavan
Gifs
2025
Minhas descobertas
Caroline Sant’Anna
Vídeo
2025
No topo
trabalho de
Helena Pavan
Fratura
Net Art
2025