
Para encerrar essa breve viagem pelo nosso espaço, que tal um passeio pela nossa Galáxia? É importante lembrar que qualquer imagem “externa” representando a Via Láctea é uma montagem feita a partir do que foi observado da Terra ou de telescópios espaciais, como o Gaia, lançado em dezembro de 2014. Com as observações é possível definir a posição dos corpos celestes e criar uma maquete tridimensional da Via Láctea. Vista da Terra, a Via Láctea é uma faixa brilhante que corta o céu e pode ser facilmente vista a olho nu em zonas de baixa luminosidade, mas cuja visibilidade é muito comprometida pela poluição luminosa das cidades.

Dado que não existe imagem da Via Láctea vista “de fora”, como foi possível imaginá-la ao longo da nossa história? Da mesma forma que os gregos concluíram que a Terra era esférica observando os outros planetas. Para entender a nossa galáxia é importante analisar as outras, o que foi possível a partir do Século XX. Antes, os astrônomos não sabiam da existência de outras galáxias e as classificavam como nebulosas, pois eram corpos difusos, como nuvens. Por exemplo, uma de nossas vizinhas, a galáxia de Andrômeda, foi documentada pela primeira vez por volta do ano 964 pelo astrônomo Persa, que ele chamou de “mancha nebulosa”; foi só em 1925 que Edwin Hubble comprovou que aquela mancha era, na verdade, outra galáxia, separada da nossa.
A partir de 1936, Hubble definiu um sistema de classificação das galáxias segundo sua morfologia. Posteriormente, este modelo foi expandido por Gérard de Vaucouleurs, em 1957, ainda retendo as características fundamentais da classificação de Hubble:
- Galáxias Elípticas: de formatos esféricos a elipsoidais (ovais), tem uma distribuição de estrelas mais difusa.
- Galáxias Espirais: de formato achatado como um disco, apresentam um bojo central cercado por braços espirais. Podem apresentar barras que se estendem do bojo ao braço ou não.
- Galáxias Lenticulares: possuem formato intermediário entre as elípticas e espirais. Apresentam um bojo central com um disco achatado ao seu redor, mas sem a formação de braços. Nestas, a diferença de espessura entre o bojo e o disco é maior do que nas espirais.
- Galáxias Irregulares: não possuem formato bem definido e costumam ser menores. Algumas já foram galáxias com morfologias definidas mas foram deformadas por uma força externa.

Todas essas morfologias não são formadas por estruturas rígidas, mas por uma distribuição de corpos celestes que interagem através da gravidade. Esses corpos incluem estrelas, planetas, cometas, gases, poeira et cetera, mas além desses corpos que podemos detectar diretamente, acredita-se que as galáxias possuam grande parte da sua massa na forma de matéria escura e buracos negros.
A nossa galáxia, a Via Láctea, é classificada como espiral com barra, ou seja, possui um bojo central com barras que ligam o bojo aos braços espirais distribuídos no disco. Além disso, existem aglomerados globulares na região esférica “vazia” chamada de halo. O disco galáctico possui cerca de 185 mil anos-luz de diâmetro e 2 mil de espessura. Nosso Sistema Solar não se encontra no centro da galáxia, mas em um dos seus braços; o centro, ou bojo galáctico, encontra-se na direção da constelação de Sagitário. Devido a essa localização, o buraco negro supermassivo no centro da nossa galáxia é chamado Sagittarius A*.

Alguns dados (aproximados) para entendermos a grandiosidade da Via Láctea:
- Classificação: Galáxia Espiral Barrada
- Localização: Grupo Local / Superaglomerado Laniakea
- Diâmetro do Disco: 185 mil anos-luz
- Espessura do Disco: 2 mil anos-luz
- Diâmetro total: 2 milhões de anos-luz
- Distância do Sol ao centro: 27 mil anos-luz
- Posição em relação ao Disco: 50 anos-luz acima do plano
- Massa total: 10¹² (um trilhão) massas solares
- Quantidade de estrelas: entre 100 e 400 bilhões
- Ano galáctico (tempo para o Sol dar uma volta em torno do centro da galáxia): 230 milhões de anos
- Idade: 13 bilhões de anos
- Velocidade em relação à Radiação Cósmica de Fundo: 552 km/s
Mas afinal, qual é o nosso lugar no Universo?
Partindo do planeta Terra, nosso horizonte se expande ao Sistema Solar, que contém mais sete planetas. Este sistema se encontra em um dos braços da nossa galáxia: a Via Láctea; que faz parte do Grupo Local, um grupo de galáxias próximas. O Grupo Local é um dos muitos aglomerados de galáxias que formam o Superaglomerado Laniakea (Céu Imensurável, do havaiano) que, por sua vez, é parte do filamento galáctico chamado Complexo de Superaglomerados de Peixes-Baleia (Pisces-Cetus), um dos muitos do Universo Observável.
As imagens a seguir são de Andrew Z. Colvin, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons, e dão noção da escala do planeta Terra frente à imensidão do Universo. Para uma visualização mais adequada e interativa, é aconselhável utilizar este link.
Tudo que sabemos sobre o Universo é baseado em horas e horas de observação dos céus e muitos cálculos e modelagem física, tanto na Antiguidade como na época atual. Da luneta ao telescópio Hubble, cada descoberta evocou algumas certezas, mas outras tantas dúvidas. No entanto, a Humanidade é curiosa, engenhosa e audaciosa, sempre querendo saber mais. Pesquisamos o que está lá fora para entender o que está mais perto, pois olhando para longe vemos o passado.
O grande avanço recente na pesquisa de observação espacial é o Telescópio James Webb, lançado em 25/12/2012. Esse é o mais moderno telescópio espacial criado e promete revolucionar a pesquisa em relação à nossa vizinhança e as origens do Universo. Seus objetivos científicos se resumem em 4 pontos:
- Estudar a luz das primeiras estrelas e galáxias;
- Estudar a formação e evolução das galáxias;
- Estudar a origem e evolução dos astros celestes;
- Estudar a origem da Vida.
A NASA criou o site JAMES WEBB SPACE TELESCOPE (JWST) com todas as informações sobre a construção, lançamento e pesquisas do JWST. Quer saber mais sobre o projeto? Acompanhe no link https://www.jwst.nasa.gov/
O Pálido Ponto Azul
É impossível falar do nosso lugar no Universo sem citar o Pálido Ponto Azul. A fotografia da Terra foi uma das últimas realizadas pela sonda Voyager 1, em 1990, a 6 bilhões de quilômetros da Terra, mais distante do que a órbita de Plutão. Essa imagem foi solicitada pelo astrônomo e comunicador científico Carl Sagan, que a apresentou pela primeira vez . Nesta foto, a Terra não passa de um pequeno ponto de luz (menor que um pixel) na vastidão do espaço.


Apresentamos a seguir a reflexão de Carl Sagan sobre a imagem, apresentada em uma palestra na Universidade Cornell em 1994, com tradução retirada da wikipedia:
Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali — em um grão de pó suspenso num raio de sol.
A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.
As nossas posturas, a nossa suposta auto importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.
A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto. Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o “pálido ponto azul”, o único lar que conhecemos até hoje.
Carl Sagan
Silvana Fraga e Gabriel Cury Perrone / Equipe AMLEF 2021
Saiba Mais
- Mega Curioso: Você sabe por que a Via Láctea tem esse nome? Cada cultura desenvolveu a sua própria explicação para os fenômenos celestes, e também nomeou os pontos brilhantes no céu, integrando-os às suas lendas e ensinamentos. A mais conhecida e difundida é a lenda grega sobre a Via Láctea, mas outros povos tinham outras interpretações sobre aquela faixa clara do céu.
- Tapi’i’rapé: o Caminho da Anta (Céu dos índios Aikewára). Neste vídeo, índios Aikewára contam a sua versão do Caminho da Anta, como eles conhecem a Via Láctea.
- Olhar Digital: Astrônomos montam o melhor mapa da Via Láctea já feito. Juntando cinco mil horas de registros feitos por radiotelescópios, pesquisadores agora sabem com mais precisão qual o formato da nossa galáxia.
- CanalTech: 10 curiosidades sobre a Via Láctea.
Referências
- InfoEscola: Via Láctea
- Mundo Educação: Via Láctea
- Wikipedia: Via Láctea (PT/EN)
- Wikipedia: Lanaikea (PT/EN)
- Wikipedia: Grupo Local (PT/EN)
- Wikipedia: Galáxia (PT/EN)
- Wikipedia: Classificação morfológica das galáxias (ES/EN)
- Wikipedia: Pálido Ponto Azul (PT/EN)
- NASA: James Webb Space Telescope








